Cecília
Depois que eu saí da viela, fui em direção à boca principal ver se o Palhaço estava por lá. Os meninos me liberaram entrar sem nem mesmo falarem com ele.
— Preciso falar um bagulho sério com você — falei, entrando de vez na sala, fazendo ele tomar um susto.
— Que susto, c*****o! Qual é o motivo?
— Encontrei um policial na viela do morro, ou melhor, o Guto encontrou — falei e me sentei na cadeira à frente dele.
— Explica isso direito — falou, ajeitando a postura na cadeira.
— Ele iria dar um enquadro no Guto, mas eu dei meu jeito.
— Como ele conseguiu entrar aqui?
— Foi o que eu vim te perguntar, e também devolver isso — falei, jogando o pino com o pó branco em cima da mesa.
— Achou aonde?
— Estava com o Guto na hora que ele iria tomar o enquadro. O policial comentou de ter um parente aqui quando eu questionei o que ele estava fazendo aqui sozinho.
— Vou investigar isso aí. Valeu por ter avisado.
Concordei com a cabeça e me levantei, me preparando para sair da sala.
— Cecília, espera aí! Tem como a gente conversar agora? — falou, segurando o meu braço e me impedindo de levantar.
— Agora não dá, tô atrasada pra ir pegar umas encomendas no asfalto — ele concordou e soltou o meu braço.
O que realmente não era mentira: tenho que ir nos Correios pegar uma encomenda que pedi pela internet, uns gels de diferentes colorações para colocar na unha e alguns enfeites de decoração também...
(Quebra de tempo)
A semana passou rápida e, consequentemente, o "encontro" com o Cobra também veio muito rápido. Eu já tinha dado a minha palavra, então não tinha como voltar mais atrás.
A Nara tá aqui me ajudando a escolher uma roupa e, além disso, tentando me convencer de que vai ser bom essa saídinha.
— Aqui, amiga. Não é muito chamativo mas também não é tão apagado — falou, me mostrando uma saia jeans e um cropped branco de manga.
— Huumm... eu gostei, vai ser esse mesmo.
— Ótimo! Já não aguentava mais ficar tentando montar algum tipo de look — falou, se jogando ao meu lado na cama.
— Eu sei, mas você se esforçou bastante.
— Parando aqui pra pensar, de onde que surgiu o vulgo dos caras envolvidos? Tipo o Palhaço e o Moura eu sei que veio do sobrenome deles, mas e o Cobra? — falou pensativa.
Soltei uma gargalhada, chamando atenção dela.
— O vulgo do Cobra faz muito sentido, só que nem todo mundo sabe disso — falei, dando um sorriso de lado.
— Como assim? Não entendi — falou, se sentando na cama e me encarando.
— O vulgo dele tem haver com o que ele carrega consigo mesmo, entendeu? Tipo o tamanho da serpente — falei, tentando ser o mais clara possível.
— Caralhooo, Céci! Tu já debulhou a cobra do Cobra — falou rindo.
— Tu esperava o quê? Nós dois ficamos por muito tempo, uma hora ou outra eu ia ver.
— Por isso que ele é comentado por umas monas aí.
— Isso mesmo! E o pior é que ele tem o porte de lá de baixo e sabe usar ele muito bem, p**a que pariu — falei, fechando os olhos e mordendo meus lábios.
— Que isso, Cecília! Eu não estava preparada pra ver esse seu lado safado.
— Só tô falando verdades — respondi, me levantando e indo ao banheiro.
Tomei o meu banho rapidinho e logo após fui me vestir. Optei por ir de cara mais limpa: passei só uma máscara de cílios e um gloss, coloquei meus acessórios como relógio, brinco e pulseiras. O cabelo eu lavei hoje mais cedo, então agora é só passar um pente e já foi.
— Tá basiquinha, mas tá linda — falou, me olhando pelo espelho.
— A intenção é ir básica mesmo. Se eu conheço bem o Cobra, ele vai estar de bermuda jeans, uma camiseta da Nicoboco ou uma de time e uma Kenner no pé — falei e ela começou a rir.
— Não pode esquecer das pratas e das dedeiras que ele sempre tá usando — ela falou e eu balancei a cabeça concordando.
Encerramos nossa conversa quando meu celular notificou mensagem do Cobra avisando que já estava na barricada do morro. Me despedi da Nara e fui descendo com toda a coragem que me restava.
Chegando perto da barreira, vi ele encostado no carro, e ele estava vestido igualzinho à maneira que eu falei.
— Tá gata em, morena — falou, me dando um selinho na bochecha.
— Você até que está gatinho.
Minha atenção foi tomada quando escutei um barulho de moto. Olhei para o lado e vi Palhaço nos encarando de cima da moto e o Moura na garupa mandando um joinha. Desde o dia que ele me chamou pra termos uma conversa que eu recusei, eu não tinha visto mais ele.
Entrei no carro e o Cobra logo desceu em direção ao asfalto.
— Vai me levar pra onde?
— Um barzinho onde rola umas músicas ao vivo, fica perto da orla — ele falou e eu confirmei com a cabeça.
Chegamos no local e, de primeira vista, é um lugar bem aconchegante, um estabelecimento pequeno, porém bem arrumado. Tinha uma banda tocando alguns pagodes antigos, provavelmente uma banda local.
Sentamos em uma mesinha mais afastada do pessoal que estava no barzinho.
— Que milagre é esse que tu foi me buscar de carro e não de moto?
— Não tô podendo tá dando vacilo por aí não, Céci — respondeu, me encarando com um olhar triste.
— Então porquê saiu comigo? Ainda mais cá no asfalto?
— Sei lá... Só queria passar um tempo contigo em um lugar maneiro.
O papo fluiu legal, fizemos os nossos pedidos, comemos, bebemos e agora resolvemos dar uma andada pela praia.
O movimento não era muito: tinha algumas pessoas sentadas lendo livros, já outras batiam uma altinha.
— Lembra de quando tu ficava me falando teus planos pro futuro e quando você perguntava os meus eu falava que bandido não tinha futuro? — perguntou e eu concordei com a cabeça.
— Então... Eu tinha vontade de ser dono de uma concessionária. Tu mesmo sabe que me amarro nesses bagulhos e também queria ter uma família.
— Porquê tá me falando isso só agora?
— Sei lá... Só queria compartilhar com você.
— Seus planos são muito bons, pena que tu não botou em prática quando era moleque.
— É isso... Tô ligado que vários entraram no crime por não ter opção, mas eu tive várias, mas via os caras rodeado de mulheres e dinheiro e cai na.
— Pena que não tem como voltar atrás, até porque é fácil entrar, mas é muito difícil sair — falei, encarando ele de relance.
Juro que vi uma lágrima escorrer do olho dele, mas nem deu tempo de confirmar, já que ele passou a mão no rosto rapidamente limpando qualquer vestígio.