Cecília
Achei que essa saídinha ia ser chata, mas pra falar a verdade, até que eu curti.
O Cobra já está me levando em casa. Na real, ele deixou o carro algumas quadras antes de chegar ao pé do morro, o que eu achei meio estranho, mas segundo ele era pra poder passar mais um tempinho comigo.
— Céci, eu tenho um presente pra você — falou, parando de caminhar.
— Sério? Cadê?
Ele enfiou a mão no bolso da bermuda, pegou uma caixinha e me entregou.
Abri a caixinha e vi um colar de prata com um pingente de borboleta.
— c*****o, Cobra! Que colar lindo!
— Foi mó corre pra achar com o pingente de borboleta.
— Podia ter pego com outro.
— Não ia ter o mesmo sentido. Lembra que eu te falava que você é igual uma borboleta? — concordei com a cabeça. — Você ainda tá no casulo, Céci, mas logo logo vai sair dele e virar uma linda borboleta. Vai terminar tua faculdade, vai ser mais independente do que já é... Tô te entregando isso pra você sempre se lembrar de mim. Tu vai ser livre pra fazer tudo, neguinha — falou com um tom de tristeza na voz.
— Por que você tá falando desse jeito, cara? Até parece que está se despedindo, eu hein — falei, um pouco incomodada.
— Só tô falando a verdade. Tu foi uma ótima amiga colorida — falou e nós dois rimos.
Voltamos a andar no maior silêncio. Quando eu já conseguia enxergar alguns meninos de vigia na entrada do morro, eu me virei para poder me despedir do Cobra, mas uma moto subiu na maior velocidade na nossa direção. O Cobra me olhou e logo depois me empurrou para longe dele, me fazendo cair sentada. Nos segundos seguintes, escutei os disparos e o Cobra caindo no chão brutalmente. Os meninos que estavam de vigia em cima do muro vieram na nossa direção correndo e até tentaram atirar contra os dois caras na moto, mas eles conseguiram fugir.
Senti um desespero do c*****o, nunca vi uma cena parecida com essa.
Me levantei e corri pra perto do corpo do Cobra, mas antes que eu me aproximasse completamente, senti alguém me segurar firme. Eu já estava chorando e gritando horrores. Olhei pra pessoa que estava me segurando e vi que era o LP.
Mais vapores começaram a chegar, entre eles o Moura e o Palhaço.
O Palhaço me puxou dos braços do LP e me abraçou forte. Aí que eu desabei mais ainda. Vi o Moura se abaixar onde o Cobra estava e colocar a mão no pescoço dele pra ver a pulsação, mas ele olhou pra mim e negou com a cabeça.
O Cobra tinha sido assassinado por alguém. O motivo? Ainda não sei, mas ele sabia que iria morrer. Não é à toa que estava falando aquelas coisas e me entregando presente, dizendo que era pra eu me lembrar dele.
— Você tá bem? Tá machucada? — o Moura chegou perto de nós dois.
— Tô bem fisicamente — falei entre soluços.
— Bora subir lá pra casa. Não é bom tu ficar aqui — Palhaço falou, alisando meu cabelo.
— Não quero ir.
— Vai, Céci. Sobe com ele, vai ser melhor. Tu tomou um susto grande, tá toda pasma aí. Deixa que eu resolvo tudo aqui — Moura falou, me dando um beijo na testa, e logo em seguida concordei.
— Consegue ir de moto? — Palhaço perguntou e eu concordei.
Ele subiu o morro em uma velocidade absurda, chegando rapidinho na casa dele. Assim que entrei, a tia Ana veio me consolar.
— Minha menina, que bom que você não está machucada. Já tá todo mundo falando sobre o ocorrido.
— A Céci tomou um susto grande, mãe. Ela tá em choque e é bom não bombardear a menina de perguntas.
— Eu sei, vou fazer um chá de camomila pra ela.
O Palhaço me levou para o quarto dele e se sentou em minha frente na cama.
— Tá melhor?
— Defina o que é estar melhor...
— Me conta sobre o que aconteceu? Desde o início..
— Não tem muito o que falar. Nós saímos e nos divertimos bastante, mas ele veio com uns papos estranhos.
— Que papos?
— Parecendo que estava se despedindo, sabe? Falou que eu fui uma ótima amiga e me entregou um presente. Perguntei o motivo do presente repentino e ele me disse que era pra poder eu nunca me esquecer dele.
— Então pelo o que eu entendi, ele sabia que iria acontecer?
— Isso aí.
— Vocês não estavam de carro? Por que voltaram andando?
— Ele parou o carro alguns quarteirões antes de chegar na entrada do morro.
— A chave do carro?
— Não sei, deve estar no bolso da bermuda dele — falei e ele concordou com a cabeça, logo pegando o celular e mandando mensagem pra alguém.
A mãe dele entrou no quarto com uma xícara de chá.
— Aqui, Céci. Toma isso, vai te ajudar a se acalmar.
Bebi o chá, e minutos depois me bateu um sono.
Olhei para o lado e o Palhaço estava entretido no celular. Senti os meus olhos pesarem e não demorou muito até eu apagar completamente.