Moura
Quando ocorreu o tiroteio, eu e o Palhaço estávamos descendo justamente para a entrada do morro. Iríamos revezar a vigia de hoje, mas no meio do caminho escutamos sons de tiro e já ficamos em alerta. Até que o meu radinho apitou informando o que tinha acontecido. Quando um dos vapores falou que a Cecília estava com ele, minha reação foi correr pra chegar o mais rápido possível.
A cena foi feia de se ver: a Céci chorando enquanto o LP segurava ela, e alguns vapores ao lado do corpo do Cobra. Me abaixei ao lado dele para ver se ainda estava vivo, mas quando coloquei minha mão no pescoço dele, não senti nenhum sinal vital.
Depois que eu convenci a Cecília de subir com o Palhaço, fui resolver esse impasse.
Como o Cobra era do Jacarézinho, eu entrei em contato com o LC, que de imediato me respondeu falando que iria vir aqui.
Coloquei uns caras pra ficar na contenção nas quadras abaixo do morro, justamente para avisar se algum cana quisesse subir pra saber o motivo dos tiros. Recebi uma mensagem do Palhaço falando pra mim pegar a chave do carro que o Cobra estava, e que possivelmente estaria no bolso da bermuda dele. Coloquei minha mão lá e peguei a chave sem ninguém perceber.
O LC chegou e parou ao meu lado. Olhei para ele que estava com uma expressão de ódio estampada na cara.
— Covardia o que fizeram com você, meu parceiro — falou em um susurro, se abaixando ao lado do corpo.
— Tem que dar um jeito de tirar ele daqui logo — falei, chamando a atenção dele.
— Já liguei pros contatos que eu tenho lá no IML e já estão vindo buscar. Se perguntarem, eles vão falar que foi confundido com outro cara ou algo do tipo — ele falou e eu concordei com a cabeça.
— E a tua amiga que tava com ele?
— O que tem ela?
— Se ela tá bem?
— Tá sim. Na hora que os caras começaram a se aproximar, ele empurrou ela pra longe dele — falei e ele concordou com a cabeça.
— Depois vou querer falar com ela, mas fica tranquilo, só quero saber detalhadamente o que aconteceu já que ele estava com ela na hora.
— Nós vamos ver direitinho essa fita aí — ele concordou com a cabeça.
O carro do Rabecão chegou e levou o corpo do Cobra. Todo mundo começou a seguir o seu caminho e eu aproveitei pra descer até onde estava estacionado o carro que o Cobra estava.
Encontrei o carro e o destravei. Entrei e fechei ele pra que ninguém me veja. Acendi a lanterna do celular e comecei a olhar todo o perímetro do carro, não encontrando nada.
Quando estava prestes a sair, escutei a notificação de uma mensagem. Olhei para debaixo do tapete que tinha no carro e encontrei o celular dele. Peguei e coloquei no bolso, depois saí do carro e tranquei as portas novamente.
Mandei mensagem pro Palhaço me encontrar na boca principal, e ele disse que já estava por lá. Pedi pra um vapor me dar uma carona pra chegar mais rápido.
— Encontrei o celular dele dentro do carro — falei assim que entrei na sala.
— É sem senha?
— Não, vamos ter que contratar alguém que manja bem desses bagulhos pra poder desbloquear.
— Eu conheço um cara que sabe mexer com essas paradas, mas o difícil vai ser encontrar ele.
— Antes que eu me esqueça, o LC quer trocar um lero com a Céci.
— Não vejo necessidade disso.
— Ele só quer saber direito o que aconteceu, disse que até podemos ficar com ela na hora da conversa.
— Ainda não acho necessário.
— É muito necessário. Se negarmos a voz pra ele, provavelmente ele vai achar que a Cecília pode ter envolvimento com algo, até porque ela tava junto o tempo todo com ele — falei e ele concordou com a cabeça.
— Vou falar com a Cecília pra ver o que ela acha disso.
— Ela tá aonde?
— Lá em casa. Falei com a mãe dela e ela disse que quando chegar do serviço passa lá em casa pra poder pegar ela.
Já estava quase amanhecendo. Tinha um pessoal descendo pra trabalhar, já outros voltando do trabalho. Mandei mensagem pra Nara perguntando se ela ainda estava em casa. Não demorou muito e ela me respondeu falando que estava se arrumando pra ir trabalhar.
Peguei minha moto e fui pra casa da mandada. Bati na porta e ela logo abriu com um sorriso no rosto.
— Bom dia, feioso — falou e me deu um selinho demorado.
— Bom dia, feiosa.
— E a Céci, como ela tá? Eu mandei mensagem pra ela mas até agora não tive nenhum retorno.
— Ela tá na casa do Palhaço. A mãe dele fez uns bagulhos pra ela tomar que deixou ela sonolenta.
— Quando eu chegar do trabalho eu vejo se consigo passar lá — ela falou e eu concordei com a cabeça.
— Tu fica gatona quando prende tuas tranças desse jeito — falei, puxando ela pro meu colo.
— Eu fico gata de qualquer jeito, meu amor — me deu um cheiro no pescoço.
— Tá andando demais com a Cecília, tá com o ego igual o dela — falei e ela riu.
— Só tô falando a verdade — falou, jogando a cabeça pra trás.
Puxei ela iniciando um beijo. Passei minha mão pela cintura dela enquanto a outra ficava em sua nuca, aprofundando mais. Senti ela rebolar em meu colo e o meu amiguinho lá embaixo já deu um sinal de vida.
— Não me provoca, Nara. Tô ligado que tu só quer me atiçar.
— Só não vou continuar porque eu tenho que ir pro trabalho, mas a gente vai terminar isso aqui ainda — respondeu e me deu uma mordida de leve na bochecha.
É uma diaba essa mulher.
— Adianta seu lado aí que hoje eu te levo lá no teu trampo.
— Muito meu cachorrinho mesmo.
— Se orienta, só tô te levando porque não tenho nada pra fazer agora de manhã.
— Sei bem, viu.
— Fui dar asa a cobra, olha aí o que deu. Acha que me manda a otária...
— Moura, pega ali a minha bolsa.
— Tô indo — levantei rapidão e peguei a bolsa dela. Eu que não retruco, vai que ela me dê uma coça por desobedecer ela.