Cecília
3 dias depois...
Já se passaram três dias da morte do Cobra. O enterro foi uma coisa muito triste mesmo. Ver a mãe dele debruçada no caixão chorando e se perguntando o porquê daquilo estar acontecendo justo com ela era perturbador demais.
Por um momento eu me senti culpada. Talvez se eu tivesse recusado a sua proposta, eu teria evitado a morte dele. A mãe dele me abraçou e nós duas choramos juntas. Quando foi na hora do enterro, ela passou m*l e tiveram que levar ela às pressas para o hospital mais próximo.
O Moura tinha me contado que o LC queria trocar um lero comigo sobre o que aconteceu e eu fui numa boa. Contei tudo detalhadamente e depois fui liberada.
Agora está eu, Moura e Palhaço sentados na sala aqui de casa. Eles me falaram sobre ter pegado o celular do Cobra e estarem à procura de um cara pra poder desbloquear o aparelho.
— Vai demorar muito pro cara conseguir descobrir a senha? — Palhaço falou, passando a mão no rosto.
— Quando eu e o Cobra tínhamos um casozinho, eu tinha minha digital no celular dele.
— Duvido muito que ainda tenha depois de tanto tempo — Moura falou, me entregando o celular.
Coloquei o meu dedo no local do sensor da digital e a tela se acendeu, mostrando uma foto do Cobra e da sua mãe abraçados enquanto riam.
— Consegui!
Os dois vieram pra cima de mim olhar se realmente eu tinha conseguido.
— E agora?
— Vamos entrar nas conversas dele pra ver se tem alguma coisa suspeita — Palhaço falou, pegando o celular da minha mão.
— Eu só acho que não deveríamos nos envolver nisso — Moura falou, chamando nossa atenção.
— Por quê?
— O Cobra é cria do Jacarézinho, o LC que tem que ir atrás dessa fita. Nós dois já estamos cheios de bagulho pra resolver, tá vindo aí uma possível invasão e temos que nos preocupar com os nossos moradores. Eu só acho que era melhor entregar isso na mão do LC e deixar ele dar o jeito dele.
O Moura tinha razão, os dois estão cheios de coisas pra fazer, não tem como eles se envolverem nisso.
— Você tem razão, é melhor você entregar o celular pro LC logo — falei, encarando ele.
Ele concordou com a cabeça e se levantou do sofá vindo em minha direção e me dando um selinho na testa. O Palhaço se levantou logo em seguida, mas ele simplesmente parou na minha frente e começou a me encarar.
— Qual foi que tá me encarando desse jeito?
— Tem uns dias que voltamos a conversar, mas mesmo assim quero explicar aquela fita lá pra você.
— Não precisa, não vejo necessidade.
— Mas eu quero. E se você puder me escutar em algum momento, eu vou ficar muito agradecido.
— Cola aqui hoje umas seis e meia — falei e ele concordou com a cabeça.
Não queria ficar sozinha hoje. Minha mãe estava no trabalho e a Nara também... essa que é a parte r**m de você ter poucas pessoas no seu ciclo de amigos. Lembrei da Laura e pensei seriamente em chamar ela, mas não tenho toda essa i********e com ela, então lembrei do Guto.
Mandei mensagem pra ele perguntando se estava livre e ele disse que sim e que já estava subindo.
Corri e fui fazer pipoca e brigadeiro. Assim que terminei, escutei a campainha tocar. Abri a porta e o Guto passou por ela todo pimposo.
— Me chamou para que em, feia?
— Não queria ficar sozinha e você foi a única opção que me restou.
— Não sei se choro por eu ser a sua última opção ou se eu fico feliz por eu ser uma opção.
— Larga de ser b***a, fiz pipoca e brigadeiro pra nós dois comermos enquanto assistimos algum filme.
— Já escolheu o filme? — falou se sentando no sofá.
— Tô pensando em assistir Hotel Transilvânia, bora?
— Só se for agora, me amarro no Drácula, o cara é brabo.
(...)
Depois que terminamos de assistir, coloquei o Guto pra lavar as vasilhas enquanto eu secava e guardava.
— Céci, tu já se apaixonou alguma vez?
— Eu nunca me apaixonei. Já tive uns casos que eram mais fortes, mas nunca uma paixão.
— Eu já me apaixonei uma vez, mas a menina era muito cobiçada e eu era só mais um que era doido por ela, sem contar que ela só me via como um amigo nerd.
— Eu sempre fui muito seletiva no quesito amor. Não quero ir de cara em um relacionamento com uma pessoa que eu não vejo futuro — falei e ele concordou.
— Também acho. Tem que ser com uma pessoa especial, que esteja disposta a tudo por você.
— Sim, pô. Imagina encontrar alguém que te ame verdadeiramente e que seja tão especial a ponto de fazer você querer demonstrar tudo o que você sente, sem medo algum de errar.
— c*****o, Céci, que profundo!
— Mas é a verdade. Hoje em dia as pessoas usam "eu te amo" como se fosse uma gíria popular.
— Muita gente fala da boca pra fora.
— Exato. Acho que por isso sou seletiva. Pensa comigo: eu batalhei muito, estudei pra c*****o pra poder entrar na faculdade, me esforcei e me dediquei ao máximo pra poder conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Eu não mereço menos do que uma pessoa que esteja disposta a fazer de tudo por mim.
— Tá certa, pô. Não tiro sua razão. Pena que tem muitas que não pensam dessa maneira e deixam se levar por qualquer um que aparece.
— Verdade. Mas por quê você tá me fazendo essas perguntas?
— Só curiosidade — respondeu enquanto enxugava as mãos no pano de prato.
— Sei bem dessa tua curiosidade, viu Guto? Se você aparecer com alguma namoradinha, eu quero ser a primeira a saber, viu?
— Que namoradinha o quê, Cecília, eu hein... até parece — falou todo emburrado, formando um bico em seus lábios.