Capítulo 11

2227 Words
POV ORION -Me de um segundo. - Eu coloco o martelo na mesinha ao lado de seus dois dedos, solto sua mão quebrada e ele grita mais uma vez de dor quando tenta meche-la. Eu tiro as luvas com todo o cuidado que um médico teria, e pego o telefone no bolso de trás da calça. -Pode falar -Jonny! Se não é meu homem favorito -Fala uma voz masculina familiar do outro lado - Você está com o meu homem, não está? Aposto que não teve dificuldade nenhuma. Odeio gente que fala comigo como se eu fosse algum tipo de amigo, ou pior ainda, como se fosse meu chefe. Eu não tenho chefe nenhum é por um bom motivo, e eu também não dou meu nome de verdade pra esse tipo de gente por um bom motivo. -Se ele é o seu homem eu não sei, mas eu tenho um sujeito aqui que estava prestes a falar alguma coisa muito importante. -Isso é ótimo, ótimo...mas não precisa mais. Já conseguimos o endereço do lugar, um X9 que nem precisamos ir atrás, ele que veio até nós acabou abrindo o bico da coisa toda. -Sabe que isso não vai mudar sua dívida comigo, não é? -Ah qualé Jonny, foi um trabalho de nada pra um sujeito que nem você, não vai colocar isso em conta, vai? -Você sabe o que acontece se você não pagar suas contas comigo Will. -Eu sei, eu sei, não precisamos disso por aqui. Eu assumo a dívida. -A firma agradece sua honestidade. Não vai precisar mais do cara então, né? -Nada disso, faça o que achar melhor. -Vou fazer - Eu desligo e me volto para o pobre coitado na cadeira. -É, hoje não é seu dia de sorte mesmo amigo. - Eu digo a ele. -Por que??! O que quer dizer com isso?? Já disse que eu conto tudo, tudo que quiser.... -Agora é um pouco tarde -Eu começo a ligar pra um novo número, fazendo de conta que não estou ouvindo todo o seu choro. - Alô? Tenho um novo carregamento pra você, você já conhece o processo, venha buscar em 40 minutos que eu deixo tudo pronto. Eu desligo. -Ora, pra que tanto desespero? Vai ser bem bem rápido dessa vez. Vamos ver se um viciado como você ainda tem algum órgão saudável aí dentro. Eu saio pra buscar os sacos de gelo. POV CASSY Eu entro na pequena casa e o cheiro de mofo e cigarro são as coisas que eu mais sinto por ali. A casa tem apenas três cômodos, o banheiro que tem a porta bem no final do quarto/sala/qualquer coisa, que é o que eu estou, e tem a cozinha que a porta fica a minha direita. A cozinha é o único cômodo com a janela (a mesma janela quebrada de antes). O quarto é composto por: pilhas e pilhas de roupas sujas e limpas que ficam jogadas de qualquer jeito por aí, incluindo em cima da única cadeira da casa toda, um espelho rachado, uma mesinha provavelmente cheia de mofo em baixo, um colchão de solteiro jogado no chão, sem lençol nem nada e um ventilador de chão, girando de um lado pro outro e não aliviando quase nada o calor que faz nesse lugar. Hoje, o colchão tem um único lençol, mas cobrindo uma forma humanoide em cima do colchão, como um cadáver embaixo de uma lona no necrotério. Afasto essa ideia terrível e me aproximo, desviando de latinhas de energético vazias, embalagens de biscoito e muitas roupas jogadas. Assim que chego perto o suficiente da cama, eu dou dois chutinhos no colchão. -Oh princesa encantada, não me ouviu chamar não? Levanta dessa merda! Acho uma sacola plástica jogada entre duas pilhas de roupas e começo a catar alguma das latinhas e outros lixos jogados por aí. A forma de baixo do lençol nem se mexe. -Ou, não me ouviu não? - desligo o ventilador e puxo o lençol de uma vez. David, meu irmão, abre os olhos no momento em que eu faço isso e levanta que nem um zumbi de sua cova, olhando pra mim com uma cara que é uma mistura de sonolência e m*l humor. -O que que foi mulher??! Tem alguém pegando fogo pra me acordar desse jeito?? - Ele puxa o lençol da minha mão e deita de volta encolhido no colchão. -pra que um ventilador se você vai se enrolar todo no lençol feito um cadáver? -Você não entenderia. -Então me explique. -Vai embora daqui!! - Ele me taca uma almofada, que eu desvio. -Escuta aqui, não vou embora. Acho que a bela adormecida não entendeu ainda a situação. Will veio me cobrar de novo em seu nome, seu canalha, o que aconteceu? Ele se senta de novo no colchão e começa a alongar a coluna. Não faz muito tempo que eu vejo meu irmão, mas toda vez que eu o visito sua aparência consegue ser ainda pior. Consigo ver suas costelas através da camiseta manchada, além de estar pálido como um cadáver, suas olheiras profundas me encaram de uma forma que é doloroso pra mim ver. -Eu prometo que vou te pagar, juro. Obrigada por essa. -Por mais essa, você quer dizer né? Você acha que eu sou i****a de acreditar em você com relação a isso? David, você me prometeu que ia tentar... -Mas eu vou! Eu estou tentando. Estou indo naqueles grupos que você me disse. Mas é que é sempre tão cheio, e eles sempre dizem lá que é um passo por vez e que o progresso tem que ser feito de pouco em pouco. Eu não quero ouvir o que ele me diz, então volto a colocar algumas coisas na sacola e separar e dobrar algumas roupas jogadas no chão, as menos sujas que eu imagino que ele ainda vai usar muito provavelmente. Eu sei o que ele está fazendo, sei o que é uma mentira e conheço ele a tempo de mais já. Mas me forçar a acreditar é a única coisa que eu posso fazer pra continuar ao seu lado. -Eu já estou cansada disso, estou aqui porque sou sua irmã e queria que você ficasse bem, mas...por favor, tente fazer isso de verdade. Não quero ter que ir ao hospital te ver de novo depois de quase morrer de overdose. -Isso não vai acontecer, tudo bem? Eu te prometo. Eu dou um suspiro profundo. Estou muito cansada. Ele se deita mais uma vez na cama e fica encarando o teto. -É como vai o lance com Steven? -Eu suspiro mais uma vez, de forma exagerada. -Não quero falar sobre isso, nós terminamos e estou fingindo que ele nunca existiu. Agradeceria se me ajudasse. -Eu te avisei. -Você não é exemplo de nada! Como se eu fosse te escutar. -Deveria, eu sou seu irmão mais velho. -Você é mais novo por causa da sua irresponsabilidade e falta de senso. -Nos seus sonhos. Eu alívio um pouco meus ombros e me sinto um pouco menos tensa. Eu e David vivemos juntos em uma casa com nossa tia durante a maior parte de nossa infância. Nossa mãe morreu de uma doença, e nosso pai se matou tempo depois. Eu era muito pequena quando isso aconteceu, mas David já tinha idade suficiente pra entender o que estava acontecendo. Ele teve que lidar com isso sozinho, e apesar do quanto nossa tia foi maravilhosa conosco, nada nunca foi o suficiente pra apagar o que aconteceu. E nossa tia também era idosa, demorou pouco tempo pra que ela também se fosse, ficando só eu e meu irmão. Na verdade, desde muito tempo parece que é só eu e ele. Eu consegui terminar os estudos graças a ele, que foi quem trabalhou para que eu pudesse fazer isso. Nossa tia não tinha muita coisa, nem filhos, nem bens, e a casa também era alugada. Não importa o quão difícil eu diga que a minha infância foi, sei que a do meu irmão foi muito pior. Não gosto de deixar ele aqui sozinho nessas paredes pequenas e sujas, não gosto dessa preocupação que corroi meus ossos toda vez que ele não dá notícias ou quando passa muito tempo fora de casa. Já chamei ele pra vir morar comigo mais de uma vez, mas ele nunca aceita. Tem sempre uma desculpa, diz que quer ficar sozinho, que gosta da sua privacidade. Eu odeio isso, sei que na verdade ele só está tentando não ser um fardo. Em um tempo, eu termino de fazer o melhor que posso com o lugar e vou pra cozinha, começo a abrir os armários e tudo que encontro são biscoitos velhos e duas baratas. Eu solto um grito e fecho as portas com força. Nos armários eu não encosto. Volto para o quarto. -Sua cozinha está uma vergonha, vou no mercado e volto em dois minutos. Quer vir comigo? -Tô bem. Recuperando o sono que você interrompeu. -Você que sabe. Eu vou pra porta, dessa vez com a chave reserva no bolso e saio para o mercado. Preciso andar uns três quarteirões antes de chegar em algo que nem pode ser chamado de mercado, mas uma vendinha. Compro mais coisas que o necessário, pois sei que se depender do David ele passa o resto da vida se alimentando só de fumaça. Volto pra casa dele, destranco a porta com a chavinha e entro deixando as coisas no chão. -Agora vou te pedir um favor. -Eu vou em direção ao colchão, mas vejo que o ventilador voltou a girar e ele parece de novo estar dormindo debaixo do lençol. Eu pego do chão a almofada que ele tinha me jogado antes e bato com tudo no que eu acredito ser onde está sua cara. Ele acorda com tudo. -SUA MALUCA O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO??! -EU DISSE QUE EU PRECISO DE UM FAVOR SEU. -O que diabos você quer??! -Eu preciso que você vá até a cozinha e mate as duas baratas que estão lá para que possa fazer alguma coisa pra nós comermos no almoço. -Você ainda tem medo dessas merdas? Toda vez que você vem aqui eu tenho que matar baratas, já estou cansado. -Cansada estou EU de ter que lidar com uma barata nova toda vez que eu venho aqui, então trate de levantar essa b***a da cama e ir lá fazer o seu trabalho para que eu possa fazer o meu. Ele resmunga igual um velho de 100 anos de idade, mas se levanta e mais até a cozinha. Eu me sento no colchão paciente e comportada, até que eu começo a ouvir o som de coisas batendo, como se uma guerra estivesse sendo travada na cozinha. Ele sai da cozinha com um sorriso de vitória estampado no rosto e um chinelo na mão. Ele joga no chão e calça de novo. -Pronto, o terreno está limpo. Eu me levanto, pego as sacolas do chão e vou indo para a cozinha. -Vou te dar um arsenal de veneno de inseto de natal. Na cozinha, eu tenho muito trabalho a ser feito. Sem nenhum encontro desagradável dessa vez, eu lavo a pilha de louças terrível que encontro, guardo as coisas que comprei nos armários, jogo fora todos os itens estragados da geladeira e só depois disso começo a cozinhar. Comecei a fazer macarrão com queijo, e já era quase hora da janta quando eu terminei tudo que tinha que fazer. Mas não adianta, odeio ter que cozinhar em lugar sujo e não ia começar antes de limpar minimamente essa cozinha . Eu levo os dois únicos pratos da casa junto com dois únicos conjuntos de talheres para o quarto/sala/sala de jantar. David estava parado na frente do espelho colocando uma roupinha esquisita composta por uma camisa branca social, uma gravata vermelha engraçada e uma calça preta. Tudo fica mais largo do que deveria nele. -Aonde vai? -Trabalhar. -É você trabalha desde quando? -Contas precisam ser pagas, querida irmã. -Não vai nem comer? -Mas é claro que vou comer, só estou me adiantando porque sabia que você demoraria uma vida pra cozinhar qualquer coisa. -Eu fiz o melhor que pude na zona de guerra que você chama de cozinha. Você estava bebendo água direto da bica? Não tinha nem sequer um mísero copo limpo. Alias, aonde diabos você está trabalhando? -No Mamma 's, aquele restaurante que abriu na beira da estrada. Consegui no começo dessa semana e hoje vai ser meu terceiro dia ainda. -Fico feliz. Vê se não faz besteira. - Isso por que não é você. Quem ficaria feliz em trabalhar? mostro a língua pra ele e coloco os pratos na mesinha recém desocupada. Eu me sento na cadeira pra comer. David pega o prato de cima da mesa e se senta no colchão enquanto come. Assim que terminamos eu levo as coisas pra cozinha e lavo, já que sei que ele não vai fazer isso. -Vou indo, ainda vou pra casa da Alice hoje. -Fala que eu mandei um oi. -Vou falar sim. -Eu dou um abraço no meu irmão, e sinto aquela fisgada no peito de novo. -Se cuida, tá? -Sou eu quem falo isso. - Ele bagunça meu cabelo e eu sorrio. Guardo a chavinha extra de volta no esconderijo dela e saio pela porta. Logo depois eu faço meu caminho de volta pro ponto de ônibus
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD