Capítulo 10

1580 Words
-Não Senhora Ana...na verdade nós terminamos recentemente. -Poxa - ela faz uma expressão de verdadeiramente chateada, como se fosse da conta dela. -Sim. Não estava mais dando certo - Eu acho que essa resposta talvez seja mais convincente para ela do que eu tentar explicar o que aquele lunático andou fazendo. -Ah mas vocês faziam um casal tão lindo, e ele realmente se importa com você... - Começo a repensar minhas escolhas mais uma vez, eu definitivamente deveria ter ido no Starbucks. -Olha eu não queria te dizer nada não, pois não queria parecer uma fofoqueira que se mete na relação dos outros nem nada do tipo...mas eu não consigo evitar, gosto muito de vocês dois. Você sabe que o meu Antônio e ele são grandes amigos né? Eu só queria tomar um maldito café. Só um maldito café da manhã. Eu não comi uma porcaria de pão antes de sair de casa. -Eu sei que graças a essa situação complicada -Ela continua - meu Antônio e o seu Steven tem saído muito não sei pra onde fazer o que, eu só sei que teve uma noite que eu vi Antônio voltando carregando o pobre coitado. Meu sofá acordou todo vomitado, foi um horror de limpar. Agora eu só sei que ele tá um pouco sumido. -Dona Ana, será que eu poderia pedir meu café? Com sua maravilhosa tortinha de limão por favor. - para de falar pelo amor de Deus mulher. -Ah sim minha querida, claro claro. -Ela começa a anotar, mas continua falando, e eu tenho vontade de pegar um dos palitos de dente que ficam na mesa e enfiar bem fundo nos meus ouvidos. -De novo, eu sei que não é da minha conta, mas eu quero o bem de vocês dois. Ela finalmente sai e volta meio minuto depois com meu pedido. -Aqui está meu doce, aproveite sua torta. E isso aqui... - Ela vai rapidinho para o balcão e volta com uma trufa de chocolate caseira toda enfeitadinha enrolada em papel colorido. - é por conta da casa. Ela dá um sorriso simpático com uma covinha em cada lado de suas bochechas enrugadas e sai pra passar a vassoura na loja. Eu tomo meu café, como minha torta e minha trufa, que descem todos com gosto amargo na boca depois dessa conversa não voluntária da minha parte. Assim que eu termino eu só pego a minha bolsa e saio dali como se minha casa estivesse pegando fogo. Meu pior medo agora é ela me alugar mais uma vez pra me falar de coisas que eu sinceramente não quero saber. Eu já tenho dor de cabeça suficiente nesse momento, e tudo que eu quero é fingir que meus problemas não existem, que Steven não existe, pelo máximo de tempo que eu puder. Não sou babá dele. Nem nunca fui nem nunca vou ser. Abro meu celular e vou direto na conversa com Alice, e vejo que já faz uns dias que nosso chat tem estado bem parado. Só envio uma mensagem bem simples mais direta que sei que ela vai entender. 19:30, eu levo o filme. minutos depois recebi só um OK na mensagem. Já guardo o celular e continuo seguindo a rua até o ponto de ônibus mais próximo. Hoje é a minha folga, e tudo que eu mais poderia querer é ir pra algum lugar e RELAXAR como se eu fosse outra pessoa, como se tudo na minha vida estivesse se encaixando perfeitamente sem nenhuma peça fora do lugar, mas depois de uma certa idade a gente acaba aprendendo que folga é só um dia extra para lidar com problemas que a gente não consegue resolver ao longo da semana. É como se fosse um dia reservado somente para o que nos dá mais dor de cabeça -às vezes literalmente- e qualquer outro plano que eu poderia fazer para hoje fica invalidado. Quando o ônibus chega no destino final eu quase me arrependo de ter vindo. Quando vejo ao longo da rua a maioria das casas bem mais pobres, algumas minúsculas do tamanho de banheiros e mais becos escuros do que estou acostumada eu sinto um grande desejo de subir de novo no mesmo ônibus que me trouxe aqui, que agora está parado do outro lado da rua no seu ponto final. É dia, quase nenhuma nuvem no céu. Durante a noite esse lugar parece a parte pobre e acabada de Gotham City, com as vielas escuras gritando que se você entrar ali, você vai ser engolido pelas sombras e morto por figuras de rostos distorcidos e encapuzados. Durante o dia, o sol apenas mostra o quando aquela parte da cidade é suja. Bitucas de cigarro no chão é um problema normal em qualquer cidade, mas as paredes pichadas, o lixo jogado nos cantos das ruas com cachorros e às vezes até porcos mexendo neles é um traço especial que só essa parte da cidade tem. Levando a cabeça mantendo minha coragem, e ignorando qualquer pessoa que possa estar em um daqueles becos parado e me olhando, me reconhecendo ou talvez não, apesar de todas as outras vezes que estive aqui. Paro em frente a uma casa que um dia já foi verde, mas hoje está mais pra um amarelo sujo, também com pichações por toda a fachada. Ela tem uma portinha de madeira simples com diversos adesivos colados - De figurinhas de cadernos do hot wheels, propaganda política e campanhas de legalização das drogas- Ela tem uma única janela com grades com vidro no fundo e uma parte do vidro está quebrado na lateral. Eu entro na pequena varandinha e bato na porta. Minutos se passam e nada. Bato várias vezes mais e espero, colo meu ouvido e ouço o que parece ser o barulho de um ventilador, mais nada. Nem um ruído, nem um balbucio que indique que alguém esteja em casa. Mas eu sei que muito provavelmente está. Vou para a janela e passo minha mão pela grade e pelo vidro quebrado, tomando cuidado pra não me cortar no processo e já alcanço bem no apoio da janela um vasinho do que um dia foi um pé de pimenta -agora é só um galho seco e morto ficado na terra. Levando o vasinho e pego a chave de emergência. Volto para a porta e já abro ela. -David, a quanto tempo você está enfurnado nessa caixa? Will veio me procurar de novo pra resolver mais uma dívida sua, aparentemente você está desaparecido pra galera dele, em que diabos você está se metendo??! POV ORION Eu calmamente passo as minhas mãos cobertas por luvas pelas ferramentas que brilham sob a luz amarelada da sala. -Você sabia que essas ferramentas foram todas esterilizadas recentemente? Elas foram muito bem limpas, todinhas pra você, pra que eu pudesse garantir que não teria nenhuma contaminação. Você tem ideia de quanto valem seus órgãos no mercado n***o? -Não por favor...já disse que eu não sei de nada! -Ah mas eu pensei que nós já tínhamos passado dessa parte, quando você fala que não tem envolvimento nenhum com o maldito carregamento de drogas e que, quem quer que seja que tenha me contratado se enganou. Escute o que eu vou dizer: alguém quer muito uma dessas duas coisas, ou sua cabeça, ou a informação. Se você não me falar logo, eu vou ter que entregar a cabeça. Olho para o sujeito na minha frente. Um homem muito baixo de barba m*l feita, que não para de tremer na cadeira em que está amarrado. Foi bem fácil de achar ele, dormindo tranquilamente no banheiro de um muquifo que chamava de casa, coberto pelo próprio vômito enquanto duas prostitutas dormiam na sua cama. Provavelmente teve uma noite daquelas, nem me ouviu entrar antes que eu o amarrasse, enfiasse no porta malas do carro e trouxesse para o meu "escritório" para ter uma conversinha particular. Já arranquei dois dedos do sujeito, que estão em uma mesinha lateral ao lado da cadeira junto com o alicate ensanguentado que usei no processo. O homem às vezes encara os dedos perdidos e outras vezes me encara. Dá pra perceber a batalha mental sendo travada na sua consciência entre abrir o bico ou não. Pra ser sincero, ele é mais casca grossa do que eu pensava, muitos a essa altura teriam entregado até a própria mãe para tentar sair dessa com vida. -Por favor...se eu contar para você eles me matam, se eu contar qualquer coisa eles me matam...eu tenho família.. -Há tem sim, uma linda família, com dois lindos filhos que ainda tem muito o que desapontar, não é mesmo? Que moram com sua linda ex esposa que deve ter vivido um inferno morando junto com um viciado que nem você por tanto tempo. Será que eu deveria visitá-los? Pego o martelo da bancada, que já fica sujo no cabo graças ao sangue em minhas luvas, com minha outro mão, seguro firme a mão dele contra a mesa improvisada em seguida uma série de coisas acontece: Primeiro ele começa a se debater muito, mas sem sucesso. Depois começa a gritar alto ao ponto de parecer que suas cordas vocais iriam explodir, ele também começa a chorar e quando o martelo atinge sua mão, tem aquele estalo de ossos se quebrando em vários pedacinhos. Levando o martelo pra bater mais uma vez quando ele começa a implorar. -TUDO BEM EU FAÇO O QUE VOCÊ QUISER, CONTO TUDO QUE QUISER!! E meu telefone começa a tocar.
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