Eu acordo mas continuo com os olhos fechados enquanto o despertador do meu celular toca com um som que parece de uma sirene no meu ouvido. Eu estico minha mão para o criado mudo e sem nem abrir os olhos ainda eu Clico aonde imagino ser o X de cancelar o alarme, e ele felizmente para.
Eu apago por mais 10 minutos antes do meu segundo alarme tocar. Essa parte é sempre uma tortura, e eu vou cancelar ele mais uma vez. Eu pego meu celular com os olhos entreabertos dessa vez, aperto o botão de cancelar para esperar o próximo daqui a 10 minutos.
Eu sempre coloco pelo menos 4 alarmes de 10 ou 5 minutos antes da minha hora de acordar de verdade, se não eu já sei que isso vai acontecer e eu não vou ter forças pra levantar da minha cama macia para o que quer que eu tenha que fazer no dia.
Eu jogo ele do meu lado dessa vez, perto do travesseiro e em pouco tempo, mais um alarme toca.
Me sentindo mais pronta psicologicamente pra levantar, eu me sento na cama, sonolenta e pensando em dar a chance pra mais um alarme.
Mas então eu lembro do meu sonho na outra noite.
Ok, essa lembrança acaba sendo tanto um incentivo pra voltar a dormir quanto um incentivo pra me manter acordada.
No fim eu desligo o alarme e levanto dessa vez.
E percebo que estou sem calcinha.
São poucos segundos que leva pra consciência do que significa estar sem calcinha chegar na minha mente, todas as implicações e consequências batem de uma vez só, e é como se eu tivesse tomado um murro na cara da realidade.
Imediatamente vou correndo para a minha gaveta da cômoda, e procuro, revidando por baixo de todos os meus sutiãs e calcinhas, algo que no fundo eu sei que não vai estar lá.
Todos sumiram. E por que sumiram? Por que ele os levou, é óbvio.
Não foi um sonho, aquele maníaco invadiu minha casa ontem, O MEU QUARTO e fez coisas comigo que....Deus, o que ele fez comigo?
E eu deixei, como um cordeiro que oferece de bom grado o pescoço para o grande lobo m*l sem saber que ia virar o jantar.
O que eu fiz oque eu fiz O QUE EU FIZ!!
Eu me sento na cama, sentindo que estou prestes a ter um colapso nervoso. Eu me sinto apavorada? morrendo de medo?
Aí é que está, eu deveria estar?
Eu me sinto com medo, mas eu não sei se é medo do que poderia ter acontecido.
Se alguém invade a sua casa no meio da noite, o que você espera é algo como um assalto, talvez um sequestro, vandalismo, estupro, assassinato...a lista é gigantesca, mas nada disso foi o que aconteceu ontem.
Eu paro naquele segundo só pra perceber o quanto algumas partes de mim estão bem mais doloridas que outras. Aconteceu com certeza um ato de vandalismo e de invasão, mas não do tipo que se espera.
Eu surto mais uma vez quando mais um dos meus alarmes começa a tocar, e quanto eu sinto que vou ficar maluca com aquele som ridículo de sirene do meu ouvido atrapalhando o meu surto eu tomo uma decisão sobre o que fazer a respeito disso.
Não adianta chorar pelo leite derramado, certo Cassy? Ele não te matou, sequestrou ou degolou. QUASE nada foi violado ontem, certo? Só há uma coisa a fazer.
Fingir que nada aconteceu, que foi só um sonho é coisa da minha imaginação fértil. E daí que meus brinquedos sumiram? e daí que é a segunda calcinha que eu perco? e daí que tem um maníaco invadindo minha casa a noite e que por ALGUM MOTIVO QUE EU NÃO SEI EXPLICAR só o pensamento de isso acontecendo de novo já me faz ficar toda molhada sendo ainda só 7 da manhã? Eu com certeza devo ter vindo com algum tipo de defeito da fábrica.
Caso isso volte para me assombrar, é um problema para a Cassy do futuro resolver. Essa do presente não pode fazer nada a respeito agora.
A não ser, é claro, comprar um cadeado enorme para a porta da varanda essa noite.
Resolvo que estou feliz mentindo para mim mesma e começo a me arrumar, eu DEFINITIVAMENTE não vou ficar em casa hoje.
Infelizmente não são todos que podem usar o privilégio do dia de folga para dormir até mais tarde, pois eu tenho coisas para fazer hoje. O que é muito bom, pois seria mais difícil continuar mentindo para mim mesma se eu só ficasse sem fazer nada, e tivesse espaço para pensar de verdade no que aconteceu.
Inclusive, eu me recuso a ficar em casa por mais tempo do que o necessário hoje. Vou fugir disso como eu fujo dos meus problemas, empurrando com a barriga e fingindo que eles não existem.
Assim que eu lido com a minha vida adulta.
Coloco uma camisa preta com alcinhas básica, uma saia estampada verde quadriculada e um casaco de lã quentinho com meias pretas e longas, assim como minhas Mary Janes de estimação. Pelo uma bolsa lateral para guardar meu celular, um pequeno caderno e tudo mais que possa ser útil para minha sobrevivência pelas ruas hoje.
E saio de casa, indo para minha segunda cafeteria favorita, já que a primeira fica muito longe da minha rota de hoje.
Eu abro a porta e ouço o familiar sininho anunciando minha chegada. Assim que entro e sento em uma mesa, Ana já vem se aproximando com seu bloquinho.
Ana é uma mulher que deveria estar na faixa dos 70 anos e que é a dona do café. Seu marido morreu e deixou o negócio além de uma boa quantia de dinheiro. Ela poderia fazer o que quisesse, se aposentar e sair da cidade indo atrás de senhores de idade ricos, que é o que eu faria no lugar dela, mas ao invés disso ela prefere ficar aqui e nos prestigiar com seu café com creme incrível. Ela também tem um filho, chamado Antônio.
Antônio tem quase trinta anos, não para em nenhum emprego e se comporta como um molequinho mimado que ainda mora com a mãe. Ele é insuportável em todos os sentidos, e pelo que eu sei é amigo de Steven, o que pode ou não ser um problema. Antônio já saiu com a minha amiga Alice, e tudo que eu sei sobre eles são relatos que vieram diretamente dela, eu nunca vi o sujeito pessoalmente e prefiro evitar se puder.
Senhora Ana me olha com seu doce olhar de velhinha e uma expressão preocupada quando fala comigo.
-Oi minha querida, como vai o Steven? Tem falado com ele?
É, com certeza vai ser um problema. Eu deveria ter ido no Starbucks.