CAPÍTULO 4

4291 Words
–– Rosinha minha menina... – dona Carmem saltou de sua cadeira, e sorridente foi até a irmã de Athos. – Ainda bem que chegou! Agora todas minhas crianças finalmente estão em casa! – Juntou as mãozinhas como se agradecesse a Deus.             Em questões de segundos, a antes moribunda Carmencita, já aparentava estar bem animada, como se estivesse plena e recuperada, na verdade, parecia nem mesmo ter passado m*l.             — Ela não estava à beira de um enfarto? – MJ cochichou comigo, fazendo uma careta de incredulidade.             — E você gostaria que eu estivesse? – A senhorinha nos pegou no flagra. Ao menos, já sabemos que problemas auditivos ela não tem!             — A dona Carmem sempre faz isso... desde quando éramos meninos! – Diógenes respondeu enquanto limpava o sangue das mãos em um guardanapo.             — E pelo jeito, sempre surtiu efeito! – Maria completou, observando a mulher abraçar a recém-chegada.             — Não é fácil lidar com três crianças ao mesmo tempo, ainda mais quando estão em diferentes fases da idade! – Carmencita se justificou — venha Rosinha. Venha conhecer sua nova cunhada! – Conduziu a moça que permanecia boquiaberta com todo o cenário.             — Alguém pode ao menos me ajudar a levantar? – Chelsea pediu, irritada por ter sido esquecida no chão.             Sr. Lopez socorreu a americana, colocando-a em pé. Rosário também foi até ela e a observou de cima a baixo, sem conter o riso tirou os óculos escuro e ajeitou o cabelo.             — Chel, minha querida, o furacão Katrina te cuspiu aqui no México? - Furacão? Athos já me chamou assim uma vez! Humor n***o deve ser genético também! Controlei a vontade de rir. De canto de olhos, pude ver MJ fazendo o mesmo.             A esposa de Diógenes, ajeitou o terninho azul tentando colocá-lo de volta ao lugar e rapidamente fez o mesmo no cabelo todo emaranhado e sem rumo.             — Não, querida cunhada! O que me deixou assim… ou melhor... – me fitou furiosa. — Quem me deixou nesse estado foi aquela selvagem, que seu irmãozinho caçula, enfiou aqui dentro. – Saiu pisando duro porta a fora.             Rosário enfim voltou sua atenção para mim e em resposta mirei meus pés.             — Olá, Rosário. Seja bem-vinda irmã, espero que tenha feito boa viagem e descansado o bastante. Por que neste lugar, não terá um minuto de paz. - Diógenes beijou a testa da irmã rapidamente, mas ela ainda mantinha os olhos em mim, o irmão mais velho, por sua vez, se apressou atrás da mulher.             — Uau… então é assim a recepção que vocês prepararam para mim? – Desviou-se cuidadosamente dos cacos no chão e parou à minha frente. Athos se colocou atrás de mim, segurando firme em cada lado dos meus ombros. Eu sabia que o intuito era demonstrar que estava segura com ele.             — Olá, famosa Esther! Enfim nos conhecemos pessoalmente! – A Gonzalez baixinha me estende a mão.             — Muito prazer. A “famosa”, fica por sua conta! – Respondi timidamente.             — Não meu amor, a “famosa” é por conta de toda a mídia ao seu redor. Inclusive ontem mesmo vi uma linda foto sua e do meu irmão em um site qualquer… – estalou a língua. ­–– Você produzida é realmente um mulherão. ­– Me largou uma piscadinha.             — Eles estavam na festa do meu noivado. – Por algum motivo, acreditei que Vicenzo se manifestou como forma de me salvar.             — Vi… meu lindinho! – Imediatamente sua atenção voltou-se para o melhor amigo de Athos. Ela abriu os braços para abraça-lo com força. — Agora você está oficialmente a um passo de se tornar um homem preso! – Eles riram ao se cumprimentarem.             — Hum-hum! – Maria José limpou a garganta.             — Perdão! – Vicenzo pegou MJ pelas mãos — essa é minha noiva. Maria José de La Fuentes!             — Maria José. – Elas se cumprimentaram e tudo indicou que houve uma simpatia mutua. — Muito prazer! Nós já nos vimos outras vezes, não? – Desconfiou Rosário.             — Na festa do Grupo Gonzalez, senhora! Foi lá que nos vimos.             — Sim, claro! Até saímos em algumas fotos juntas, não foi?             — Isso mesmo!             — Sei. E por favor, sem me chamar de senhora. A única senhora aqui é a minha mãe. Ah, e a minha cunhada, claro. – Os olhos rolaram ao se corrigir.             Athos puxou Rosário pelos braços, bem ao seu modo nada delicado de ser.             — Ei, vai me ignorar, baixinha? – Perguntou com ares de ciúmes.             — Claro que não! – Ela deu um soquinho em seu peito. — Te deixei por último por que quero um abraço apertado, que só você tem para mim! – Abraço de urso! Especialidade do meu deus Grego. ****             Apresentações feitas – e eu oficialmente conheci toda a família – todos receberam cumprimentos e nos retiramos para a sala de estar para que os funcionários pudessem limpar a bagunça feita por nós.             — Quer dizer que os dois solteirões mais cobiçados do País, resolveram se amarrar, digo, casar? ­– Rosário devolveu a xícara de café ao pires. — O noivado repentino de Athos foi uma surpresa e tanto para nós. E agora você, Vi? E coincidentemente suas respectivas noivas são amigas de infância? Iguais a vocês! – Fez uma pausa para analisar nós quatro. –– Meninos, sejam honestos comigo, essa pressa toda em casar não significa que em breve teremos a visita coletiva da cegonha, não é mesmo? – Sarcástica, como uma boa Gonzalez que é. Admito que me incomodou demais o seu jeito de falar. E gostaria muito de tê-la entendido errado, porque se não foi impressão minha, essa mulher estava insinuando que Maria José e eu estamos dando o golpe da barriga. De todo coração, torci para estar errada. Esse tipo de coisa, eu não estava disposta a aceitar. Não vou mesmo!!             — Desculpe-me, sra. Rosário... – pigarreei antes de me intrometer na conversa — mas, apesar de Athos e eu termos nos tornado noivos repentinamente, não significa que vamos nos casar hoje ou amanhã…             — Diga por você Florzinha, sabe bem que por mim já estaria concretizado… – Athos interveio no meu discurso. — Porém não é novidade que para mim, você sempre foi minha mulher, já conversamos sobre e eu estou pouco me lixando para o que vão dizer ou pensar!             — Faço minha as suas palavras, irmão! – Vicenzo fez coro e MJ lhe tascou um beijaço agradecida. Rosário revirou os olhos, bufando.             O trio de traidores acabaram desmontando toda minha tese.             — Bom… – insisti em deixar as coisas às claras — como eu ia dizendo… – repreendi Athos com o olhar, antes que ele me interrompesse novamente. – Estar noiva do seu irmão, para mim é apenas um modo de deixar nosso relacionamento formalmente mais sério. Mesmo assim não fizemos festas nem comemorações porque é uma coisa só nossa. Fora isso, não tenho pressa em me casar, morar junto ou ter filhos. Sei que estamos muito no começo, mas já passamos por tantas coisas nestes poucos meses que posso dizer: eu amo este homem. É como se nos conhecêssemos de outras vidas. E o que a sociedade acha ser certo ou errado, não nos diz respeito. Ele me escolheu, sabendo o meu jeito, meus defeitos, qualidades, limitações, condição financeira, enfim… eu me sinto feliz ao lado dele. Athos me completa e não esperem nada convencional da nossa parte, porque não somos assim!             Conclui meu discurso e mesmo que tenha me esforçado muito para ser convincente e firme, por dentro estava em cóleras, minha espinha completamente gelada e minha boca totalmente seca.             — Uauuuu… – Rosário assoviou. — Adorei! – Bateu palmas, mas acredito que não estava fazendo chacota com minha cara. — Devo reconhecer que essa mocinha é dura na queda. Agora entendo por que mamãe deu o braço a torcer para vocês. Isso explica também a desgrenhada Chelsea... parece que meu irmãozinho encontrou sua metade da laranja. – Tomou cuidado em não queimar a língua ao ingerir outro gole de café. –– Mas você já deve ter sido orientada de que, com essa personalidade e discurso, vai encontrar muitos desafetos em nossa sociedade. — Salientou em tom de alerta.             –– Eu não pretendo agradar a todos. Também não desejo ser uma pessoa totalmente desagradável. Sei que tenho muito a aprender ou melhorar para estar à altura dele, só que… – olhei para Athos e ele acenou positivamente para mim — fazer parte dessa sociedade, deste mundo todo... não está nos meus planos. Eu só quero levar minha vida em paz ao lado dele… – Assegurei com sinceridade e meu noivo me retribuiu com um sorriso terno.             — A mulher perfeita para o bicho do mato que é meu irmão! – Após depositar seu pires sobre um aparador, ela ergueu os braços como se se desse por vencida. — Sem ofensas! – Foi rápida em esclarecer.             — Não ofende, Rosa. Ela é sim, a mulher que eu sempre procurei. Assim como ela, só quero paz e sossego, uma vida normal e tranquila bem longe desses vermes hipócritas e interesseiros! – Athos apertou meu ombro e me fez sentir satisfeita com suas palavras.             — Ok! – A mulher levantou — mas você sabe queridinho, que sua ideologia é belíssima, no entanto, pura utopia. Com a iminente partida da nossa mãe seus planos de vida ficarão ainda mais longe de se tornarem realidade. – Senti que ela realmente lamentava por ele. –– Você é um Gonzalez meu bem, e um Gonzalez jamais será uma pessoa normal, com vidinha pacata e tranquila... – bateu o dedo na ponta do nariz do meu noivo. — Aceite! – Depois, se virou para mim. — Vá aprendendo! – Deu seu último conselho e então se foi rebolando em sua saia rodada em direção as escadas.             Athos plantou um beijo suave em meus lábios, estava orgulhoso de mim o que era recíproco. ****             Diógenes, Athos e Vicenzo, receberam os médicos da família no escritório e só saíram de lá depois do almoço. Eu sabia que posso ter sida interpretada com m*l-educada, arrogante, antissocial ou qualquer outra coisa, mas, preferi fazer minha refeição apenas na companhia da minha amiga, no quarto do Todo Poderoso. Não queria ter que dividir o mesmo espaço que aquela Gringa Enlatada quando estivéssemos longe de Athos e Diógenes, ela tem uma língua muito venenosa e achei melhor evitar que ela me provocasse ou inventasse por aí que a “selvagem” a ameaçou de morte. Não que eu sentisse medo dela, nada disso, só não desejava levar mais dor de cabeça a Athos, ele estava tentando se manter firme, mas eu sabia que por dentro, estava apavorado. ****             Pelo interfone, o sr. Lopez avisa que meu noivo me espera na sala de visitas.             — Obrigada sr. Lopez, já estou indo. – Mas onde raios, fica essa bendita sala de visitas? Tive vergonha de perguntar.             No andar térreo, procurei pelo grande labirinto que chamam de casa, descobri que ela é em formato retangular, ostentando um belíssimo jardim que é instalado em um pátio ao centro, muitos corredores abertos me levavam até ele, entrei e sai várias vezes, encontrei alguns funcionários, os cumprimentei e continuei meu caminho, com vergonha de perguntar como fazer para chegar até o lugar que procurava. Meu telefone tocou:             — Olá, minha Flor mais bela deste jardim! - Athos. Tão romântico quanto cafona!             — Olá, me deus Grego! Estou indo ao seu encontro. – Respondi, enquanto tentava me situar.             — Não se mexa. – Ele falou baixinho. — Eu já a encontrei!             Me virei e agradeci aos céus por estar há dois ou três passos dele.             — Acho que me perdi! – Sorri envergonhada por ter sido descoberta.             — Eu sei. – Seu olhar era apaixonado na medida exata para me derreter por dentro.             — Vamos sair? – Perguntei, pois percebi que mudou de roupa.             — Vou até o hospital. Você deseja me acompanhar? – Convidou.             — Mas é claro que sim! – Respondi de pronto.             — Flor, eu liguei para sua mãe pela manhã… ­– Mudou de assunto, uma feição um tanto suspeita brotou no lugar do rosto alegre de dois segundos atrás.             — Não me diga que contou a ela sobre a minha tentativa de assassinato? – Fiquei apreensiva. –– Athos, eu sei que você tem um compromisso de honestidade com a minha mãe, mas por favor, você viu que aquela loira aguada me provocou primeiro, eu não queria ter chegado àquele ponto… – Disparei argumentos em minha defesa.             — Meu amor… – carinhosamente ele segurou em meus braços. — Fique tranquila. Não falei sobre nada do que aconteceu. A Chelsea teve o que mereceu, não que eu ache certo ou incentive este tipo de tratamento… sabe que sou uma pessoa completamente contra todo tipo de violência... – ele segurou o riso. Só pode estar fazendo piada! Revirei os olhos. — Mas achei fofo ver minha noiva me defendendo com unhas e dente… literalmente. – Passou o dedão por meus lábios. Havia orgulho embutido em sua conversa, apesar do sarcasmo habitual.             — Contra todo tipo de violência, né? Ok! – Espreitei os olhos para ele, devolvendo o cinismo.             — Agora é sério Florzinha. ­– Todo o humor sumiu novamente de seu rosto. –– Pelo que conversamos com os médicos, terei que ficar por mais alguns dias. Então perguntei à Lourdes se ela te autorizava a ficar comigo. Claro, se você desejar! – Ele ainda tinha dúvidas.             — Mas é claro que sim! – Não titubeei. Afinal, esse é o combinado! –– Mas antes preciso avisar meu coordenador de curso e…             — Não, não, não... – Athos me interrompeu — falei com o Reitor da sua faculdade!             — Com o Reitor? – Meu queixo caiu.             — Há ocasiões em que devemos deixar os anjos de lado e tratarmos direto com Deus! – Completou, satisfeito.             — Athos, você não entende nada de hierarquia… – o repreendi — m*l comecei o curso e já serei a “protegida” do Reitor no curso de direito. – Como ele pôde ter feito isso comigo?             — Se pensa assim, use como vantagem, evitará alguns percalços e contratempos…             — Athos! – Elevei o tom de voz em total reprovação. — Todos irão me odiar! Alunos, professores… todos! – Previ minha sorte.             — De maneira alguma, Flor. Não há como odiar você. – Brincou e como resposta, fechei a cara. — Ora, deixe-me concluir e depois faça seu julgamento! – Pediu, ressabiado.             — Vá em frente! – Dei a oportunidade, pronta para a argumentação barata.             — O simpático e atencioso Reitor, entendeu que por se tratar de um assunto de caráter urgente, grave e familiar… a liberou das aulas presenciais enquanto estivermos por aqui! – Antes que eu o contestasse já me interrompeu, erguendo um dedo indicador e prosseguiu: — Porém, para que não fique atrasada em seus estudos, todo o material programático será enviado para o seu e-mail e para manter sua “presença” em dia, só precisará entrar diariamente no login também disponibilizado em seu endereço eletrônico, ele te direcionará ao sistema da faculdade, lá deverá fazer alguns exercícios que contarão como nota e avaliação. Ah, inclusive poderá pedir ajuda aos professores, pelo mesmo local caso precise! – Terminou a “palestra” com certa arrogância por sua proeza.             — Então terei de avisar a minha mãe, para que não se preocupe…             — Errado! – Fingiu me cornetear. — Eu sabia que essa seria a sua primeira preocupação, sendo assim, resolvi primeiro o assunto escolar e depois liguei para ela que como sempre, ficou muito orgulhosa de mim, digo, de nós, por sermos tão responsáveis! – Passou a mão vaidosamente pelo lustroso cabelo lambido.             — E por fim, a mais interessada em tudo, toma ciência do rumo da sua própria vida! – Bati palmas. –– Quando vai parar de decidir as minhas coisas por mim? – Questionei deixando que ele percebesse o quanto me desagrada esse protecionismo exacerbado.             — Me perdoe Florzinha… eu só quis ser prático! Até mandei chamá-la quando estava fazendo minhas ligações, mas…             — Você é tão cínico, tão dissimulado, tão... tão cara de p*u, Athos Gonzalez Salazar! – Cruzei os braços e bati o pé em protesto.             — Eu sei disso… e tenho certeza que esse é um dos motivos que a fizeram se apaixonar por mim… – deixou a cabeça pender de lado. Me encolhi suavemente, sentindo o efeito de seu olhar magnético e sedutor. — Anda, não vamos brigar por besteiras, ok? – Passou o braço por meu ombro, me conduzindo para dentro.             — Agora o Reitor e provavelmente toda a Faculdade saberão que eu sou a noiva do herdeiro do maior Magnata do País… – resmunguei enquanto caminhávamos//./*             — E qual o problema? Por acaso sente vergonha de mim, srta. Esther? – Fingiu estar ofendido.             — Cínico. – Rebati.             — Linda! – Beijou meus cabelos. — A propósito, sua mãe pediu carinhosamente para avisa-la sobre seus remédios… ela acha que ainda é cedo para os netos!             — Athos, fale baixo! – Me escondi em seus braços, morta de vergonha.             Não podia acreditar que meu noivo e minha mãe, além de sócios na vida profissional, também estavam dividindo as intimidades da minha vida pessoal. ****             Enquanto estivemos no Brasil, mamãe e Athos acabaram estreitando as relações. Na verdade, o bonitão fez a irrecusável proposta de uma sociedade para ela. Ele, obvio entraria com a grana e ela com o trabalho. Assim que dona Lourdes retornou ao México, tratou de correr atrás do ponto que ela já estava de olho para comprar e com a indicação do deus Grego, contatou uma empresa de arquitetos e decoradores para cuidar do ambiente, também visitou alguns fornecedores que ela já conhecia, orçou os utensílios de cozinha e contratou Penélope e Dona Margarida, a primeira me ajudaria – sim, também fui contratada – a fazer o mesmo que fazíamos no Mexicano Café: servir mesas, atender clientela, pedidos por telefone, encomendas online, caixa... enquanto a amiga da minha Madrecita a auxiliaria na cozinha, preparando todas aquelas delicias. +A+ *ideia de minha mãe era um local pequeno e aconchegante, num tom bem família, sem muito movimento para que todos pudessem ser atendidos com perfeição. Também queria manter as entregas por encomendas, como sempre fez, porém agora com sua poderosa cozinha industrial, certamente vai poder aumentar sua carteira de clientes. Mamãe cuidou de tudo enquanto nós ainda curtíamos nossa viajem ao meu País natal. E mesmo Athos dizendo que ela teria carta branca para decidir as coisas como bem entendesse, não houve um dia em que ela não ligasse ou enviasse um e-mail, contando todo o progresso e pedindo autorização ou opinião quanto ao que pretendia fazer. Athos achava graça. Mas dava corda. Ela estava encantada com as facilidades com que o nome dele abria portas e recebia atendimentos de primeira. Tudo correu a pleno vapor e quando chegamos, a doceria já estava quase pronta para a inauguração. Faltava apenas alguns detalhes na cozinha, produtos a serem entregues e a arte, publicidade, propaganda e site, que ficou por conta de Al, claro. Ele nos deu de presente um trabalho lindo e de excelente bom gosto. Sei que foi de coração, mas no fundinho, ele também quis se fazer notado e participar do novo projeto familiar. Meu deus Grego também notou isso. Mas por sorte e muita oração, se manteve sereno e aceitou de bom grado. De tudo, ele fez apenas uma exigência: que a doceria carregasse meu nome. Ou melhor, o nome que ele me deu. E assim nasceu a Doce Flor. Nada mais clichê, admito! Mas fiquei extremamente lisonjeada, confesso. Ainda não havíamos aberto ao público, embora mamãe já estivesse trabalhando com Dona Margarida e Penélope, apenas atendendo aos pedidos por encomenda. A expectativa era, no máximo em três semanas estarmos operando por completo. E enfim, o grande sonho da minha Madrecita vinha tomando forma e ela estava completamente realizada. **** Após um breve passeio pela mansão estilo colonial da Família Gonzalez, Athos me mostrou o jardim em estilo europeu. Era maravilhoso e muito maior que o da casa de Acapulco, havia também um lago, cheio de peixes e com alguns patos se divertindo. A parte térrea da casa possuía diversos ambientes, todos com cores bem vivas, os móveis em grande maioria eram feitos de madeira, a decoração bem conservadora, porém cheia de vida, com alma, exatamente o oposto da casa do deus Grego, onde tudo era frio, sem cor, quase nenhuma mobília e praticamente nenhum habitante também. Por quase todos os lugares que passamos, encontramos com funcionários fazendo suas tarefas, imaginei o trabalho para manter tudo em ordem... mas eles pareciam não se importar com a correria do dia-a-dia, tinha um ar de satisfação em seus rostos e ficava mais evidente o prazer em trabalhar para os Gonzalez lugar quando cruzavam com Athos. Ele os cumprimentava com educação, os mais velhos com maior respeito e alguns com certa liberdade e descontração. Eu apreciava tudo orgulhosa. Este é o meu homem! — Jovem Athos! – Sr. Lopez interrompe nosso tour. — Sim, Basílio. O que houve? – Athos responde. — Telefone da direção do hospital senhor! Estavam procurando pelo Sr. Diógenes, mas ele já saiu... – Explica-se. — Passe este telefone para cá. – Estende a mão para alcançar o aparelho. — Aquele lambidinho deve ter ido as compras com aquela entojada da mulher dele. É só isto que eles sabem fazer! – Resmunga ao pegar o telefone — obrigado Basílio, pode se retirar! – Dispensa o senhor. Athos me olha com apreensão e respira fundo antes de atender o telefone. — Athos Gonzalez, falando. Ah, olá doutor, o que tem para mim? Sim, sobre a nossa reunião de hoje, o que o conselho decidiu? Já avisaram Vicenzo? Certo. Como "não tem certeza"? Aquele mimado não vai decidir por minha mãe! – Não consegui entender do que ele falava, mas pelo modo como se movia fazendo suas caretas, eu sabia que a conversa não o agradava. — Já tiraram a sedação? Ela está consciente então? Ótimo. E o que ela pensa sobre tudo? É o que eu imaginava. Prepare toda a documentação necessária doutor, f**a-se o que meu irmão acha, estou indo buscar minha mãe! – Sem maiores comentários, desligou o telefone. — O que foi, minha vida? – Perguntei com carinho. — Minha vida? – Me encarou surpreso e então seu semblante se abriu. — Gosto disto! — Deixe de ser bobo, me diga, o que está acontecendo? Você não irá s********r sua mãe, não é mesmo? – Desconfiei. — Estou indo tirá-la daquele lugar, mas não nestes termos. A junta médica não tem muitas esperanças sobre a saúde dela. Eles acreditam que temos poucas semanas na companhia da Dona Oletta. – Seus olhos caíram e a voz agarrou no fundo da garganta. — Acredito que ela não deseja passá-las em um hospital, cercada por estranhos e ligada em aparelhos. – Explicou. — Mas talvez no hospital, estes dias possam se estender! – Ponderei. — É o que o filhinho dela também acha! Mas do que adiante uma ou duas semanas a mais, sem poder vivê-las? Ficar restrita? Monitorada? Limitada? Não! A Dona Oletta jamais viveu assim. Não vai querer partir desta vida de forma tão covarde! – Apesar de completamente triste, ele é firme em sua ideia. — Você tem razão! – Concordo. — De fato, sua mãe não merece um final assim. Realmente seria muito egoísmo da parte de vocês tentar mantê-la viva nestas condições. Mas como vai tirá-la de lá, se seu irmão é contra? — Depois da nossa reunião hoje junto aos médicos, concordamos que ela deveria dar a última palavra. Então eles tiraram a sedação e o médico aproveitou seu momento de lucidez para explicar tudo. Como eu imaginava, ela exigiu voltar para casa. E é isto que eu vou fazer, vou cumprir a vontade da minha mãe! – Ele estava decidido. — Eu vou com você. E não é um pedido. Quero estar com você nesta. – Beijei seu rosto. — Obrigado. – Me abraçou forte. — Precisamos encontrar o Vicenzo. **** No hospital, enquanto Athos conversa com os médicos para acertar como fariam a remoção e o tratamento domiciliar, eu perambulava pelos corredores até me deparar com uma cena que me incomodou. Diógenes estava na recepção do hospital, mas não estava só, junto dele estava a gringa enlatada e mais que ela, a maldita Vassoura de Pernas, com seus óculos gigantes de madame, cabelo amarelo amarrado em um r**o de cavalo e um vestido tão justo quanto Deus que está no céu compunha o trio. Não podia crer que ela foi capaz de desobedecer às ordens da Sra. Toda Poderosa, que tinha sido muito clara ao exigir máxima distância de todos eles... ou teria sido apenas para me impressionar? Não! Aquela conversa foi bem real, bem honesta. Não pode ter sido só um teatrinho. Vai ver que agora no fim da vida a Matriarca resolveu perdoar seus desafetos. Beatrice e Chelsea juntas. E demonstrando toda i********e do mundo. Óbvio, pois se quase foram cunhadas e afinal, a Magrela Aguada foi noiva do meu noivo por cinco anos. Ao que me parece, a amizade das duas najas sobreviveu a crise familiar. Aí meu pai do céu, não sei o que pensar. Minha cabeça está dando um nó! A única certeza que eu tinha era que aquela mulher nunca foi sinal de coisa boa. E tudo o que eu esperava da parte dela, era respeito ao meu noivado. Por que Dona Oletta teria de me perdoar, mas não iria admitir que ela se intrometesse entre Athos e eu novamente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD