CAPÍTULO 3

4809 Words
— Desculpe senhora, gostamos de ouvir música enquanto conversamos. – Desligo o som — mas eu achei que a música estava baixa... – Pareço uma criança pega no flagra pela mãe. Me sinto uma tremenda i****a tendo que dar satisfações à essa mulher.             — Tudo bem! – Por sua vez, ela faz um sinal com a mão, afastando qualquer interesse em ouvir minhas desculpinhas. — Vocês aqui no México, em especial os jovens, são muito “musicais”...             — Ah, isso nós somos mesmo! Música caliente e uma boa dose de tequila não faz m*l a ninguém! – Maria, como sempre sem freio, solta a pérola e eu a empurro com os ombros — O que foi? – Ela me olha contrariada.             Reviro os olhos.             — Perdoe a Maria José, ela é assim, meia desmiolada... – Começo a ficar nervosa e acabo me enrolando todinha.             Chelsea não esboça reação. Um silêncio gélido e intimidador paira no ar.             — Bem – a mulher de vestido salmão corta o m*l-estar — eu pedi para que preparassem algo para vocês comerem... assim que quiserem, a mesa será posta ou podem ser servidas aqui, se preferirem. – Faz questão de deixar claro sua indiferença ao meu respeito. –– Minha sogra gostava que as refeições fossem feitas na sala de jantar, mas como...             — Como ela está internada, não ficará chateada se MJ e eu jantarmos aqui. – Interrompo-a, porque não estou gostando nada do seu tom. — Mas assim que voltar, certamente eu terei o prazer de acompanhá-la em todas as refeições possíveis e da forma que ela tanto gosta. — Corrijo o verbo para o presente. Pois como o Todo Poderoso disse: Sua mãe ainda está viva. E mesmo que não sejamos íntimas, me incomoda que se refiram a ela como se já não estivesse aqui.             — Sim, claro! Foi o que eu quis dizer. Acontece que como tenho acompanhado de perto seus últimos dias, sinto que infelizmente, não teremos dias tão promissores para ela, e isto são palavras dos próprios médicos. – Remenda friamente a m***a que acabou de dizer.             — Entendo. Mesmo assim, ela ainda está viva, e minha mãe sempre diz que enquanto houver vida, haverá esperança.             — Ok, então jantaremos aqui e quando a sogrinha querida de vocês voltar, jantaremos todos juntos e felizes! Que tal? – MJ e seu jeito completamente s*******o tenta amenizar nosso diálogo forçadamente amigável.             A esposa do sr. Diógenes nos olha do alto de sua soberba e a cada segundo fica evidente seu desgosto com nossa presença.             — Vou pedir para que o sr. Lopes suba o jantar e ponha a mesa... – Chelsea descruza os braços, medindo Maria de cima a baixo, a julgando mentalmente, tenho certeza. E posso apostar que mais alguém acaba de ganhar um desafeto. — Com licença. – Retira-se após engolir algo que estava prestes a dizer.             Quando a porta se fecha minha amiga e eu nos olhamos. Ambas seguramos a respiração. Após alguns momentos a sós, rimos e nos jogamos no sofá.             — Amiga, que mulher sinistra é essa sua cunhada! – Imita as caras e bocas de Chelsea.             — Ela é cunhada de Athos e não minha! – Deixo bem claro. — E o que foi isso de "sogrinha querida de vocês"?             — Ué? O que falei demais? Não é isso mesmo que a sra. Gonzalez, é? ­– Dissimula.             — MJ você é a pessoa mais cara de p*u que já conheci neste mundo. – Rimos juntas novamente. — Você sabe que essa mulher já te odeia, não sabe?             — Sei! – Ela joga o cabelo loiro de lado — e não é privilégio apenas dela, baby! – Pisca os olhos com desdém. ****             Sr. Lopes apareceu poucos minutos depois, acompanhado da mocinha que nos recepcionou na chegada. Eles trouxeram nosso jantar e rapidamente puseram uma elegante mesa de jantar para nós.             Maria José e eu jantamos e já era tarde quando ela resolveu se retirar para o "seu" quarto. Embora eu bem saiba que ela não passará a segunda noite de noivado sozinha.             Vaguei pela imensa suíte, procurando o que fazer, conheci um pouco mais do meu amado através de sua mobília, livros, objetos, roupas... sem surpresas, o seu canto pessoal em toda a casa é extremamente asséptico, limpo, meticulosamente organizado e sem muitos enfeites ou cor, a sala de estar é toda branca, com um sofá em "L" da mesma cor, em frente a ele tem uma TV enorme pendurada na parede e abaixo dela um raque onde há um vídeo game e ao lado uma caixa de som portátil para celular e iPod. Há um carpete felpudo da cor creme e conjugada com essa sala há uma pequena área de jantar com uma mesa de madeira escura para quatro pessoas, um frigobar e até mesmo um microondas, tem também um barzinho com bebidas intactas, demonstrando que ele não esteve por aqui há muito tempo. No lado direito da sala há uma mesa parecida com a que tem em seu escritório na casa de Acapulco. Não há nada sobre ela, além de uma estátua de bronze da deusa da Justiça e um porta-canetas. Atrás dessa mesa existe uma estante embutida, ela é branca e está recheadinha de livros, a maioria jurídicos.             A suíte tem apenas uma Queen Size no centro, um criado mudo em cada lado e duas portas brancas de correr, atrás delas há um modesto closet, mas ainda assim, grande o suficiente para colocar meu quarto dentro. Vejo pouquíssimas roupas e sapatos, no entanto, todos estão rigorosamente organizados por cor, modelo e tamanho. Há um provador, um espelho que ocupa uma parede inteira e ao lado a porta que leva ao banheiro.             Caraca! Se MJ visse essa banheira, certamente pediria ao Athos para experimentar!             Uma casa dentro de outra. E isso explica muito da personalidade individualista do sr. Mandão. Ele mesmo disse-me uma vez que nunca precisou dividir, sempre teve tudo apenas para ele, agora vejo que ele dizia a verdade. Sinto um pequeno aperto no peito. Até quando ter seu pequeno Universo paralelo faz bem? Com todo esse luxo e conforto, ele só queria ter carinho, sentir-se amado. Nada disso tudo pode lhe dar, ou melhor, comprar sentimentos. De repente sinto saudades de casa. Da minha pequena casa.             Tomei um banho rápido e peguei uma camiseta qualquer, vesti o primeiro samba-canção que encontrei e desembaracei a juba. Já estou prontinha para dormir.             Checo meu celular e já passa da meia noite. Nenhum sinal de Athos, mamãe ou Álvaro.             Que saudades de Al!             Não vejo a hora dele voltar da Terra do Tio Sam. Agora que conseguiu esta conta norte-americana, vive na ponte aérea México-EUA. Sei que toda essa dedicação ao trabalho tem lhe ajudado a superar o nosso rompimento e meu noivado com Athos, mesmo assim, sinto sua falta e da nossa amizade. ****             — Florzinha... – sinto o hálito quente de Athos em meu ouvido — acorde dorminhoca!             Abro os olhos e tenho a visão paradisíaca do homem mais lindo do mundo sobre mim. Seus cachos estão soltos e molhados, jogados sobre a testa e ele tem cheiro de banho e vinho.             — Que horas são? ­– Pergunto, ainda perdida pelo sono.             — Quase 8h! ­– Ele sussurra e eu rolo de lado na sua direção.             — Minha nossa, eu desmaiei aqui! ­– Sento-me na cama e faço um coque no topo da cabeça — Você chegou agora?             — Não. Vicenzo e eu voltamos pouco depois das 11hs, mas ficamos conversando lá em baixo, no escritório do meu pai, imaginei que estivesse descansando e não quis incomodá-la. ­– Explica, sentando-se aos pés da cama.             — Eu ainda estava acordada. Deveria ter subido, senti sua falta. ­– Saio do edredom e engatinho até ele.             — Você estava dormindo tão linda. E eu precisando tanto da sua paz... – acaricia meu rosto. — Apenas me joguei ao seu lado e consegui dormir algumas horas. ­– Me beija.             — Como ela está? ­– Não sei se é a pergunta para o momento. Mas preciso saber.             Athos levanta-se e ajeita a toalha enrolada em volta da cintura. Vai até o closet e folheia algumas camisas.             — Nada bem, Flor! Nada bem. – Lamenta, porém resignado.             — Você a viu? ­– Vou ao seu encontro. – Falou com ela?             — Sim, eu vi. – Respira fundo enquanto escolhe algo para vestir.             Pego uma camisa lilás e tiro do cabide, entrego para ele que sorri grato, vou até as calças e encontro uma de corte reto, cinza chumbo. Coloco sobre uma bancada que fica no meio do cômodo.             — E o que me diz? – Enfim pergunto.             — Infelizmente não há muito o que dizer, além do que já sabemos. Estão fazendo o possível para mantê-la conosco por mais algum tempo e... ela estava sedada porque a dor era muito forte. – Me explica, enquanto abotoa a camisa. — Eu estive com ela, disse que eu estava ali, segurei sua mão. ­– Sua voz sai com dificuldade. — E mesmo inconsciente ela apertou a minha.             — Dona Oletta não seria a sua mãe se não lutasse até o fim! – Sento-me na poltrona estofada, enquanto o assisto vestir-se.             — Eu gostaria de dizer que ela irá vencer, mas no caso dela só mesmo um milagre. – Athos puxa uma gaveta da bancada e inúmeras gravatas aparecem enroladas. — Pode me ajudar, aqui? – Mostra-me uma gravata de seda.             Ajudo-o a fazer o nó. E ele dá o último retoque em frente ao espelho.             — Arrume-se e vamos descer para o café. Enquanto isso, vou checar meus e-mails e dar alguns telefonemas na sala ao lado.             — Vamos tomar café lá em baixo? – Pisco, surpresa — com toda a família?             — Vamos sim! – A resposta vem com toda segurança.             — Achei que fôssemos ficar por aqui... não trancados, mas pensei que você não fosse querer sentar na mesa com todos os outros e tudo mais... – Estou confusa.             — Você não é uma estranha ou uma intrusa que eu tenha que manter escondida. Vai se sentar à mesa e fazer todas as refeições como manda o figurino. Ocupando seu lugar ao meu lado, afinal de contas, você também é minha família, assim como a Carmencita, Vicenzo e a Maria José também, claro. – Ele termina de ajeitar o terno, passa uma bela porção de mousse nas mãos e espalha pelo cabelo. — A menos que queira ficar por aqui, eu não discuto. Mas acho que seria uma grande desfeita para eles, não acha? – Pergunta enquanto penteia seu cabelo todinho para trás, voltando ao seu ar de empresário sedutor bem-sucedido.             Se eu não o conhecesse bem, diria que sua atitude tem a ver com a conversa de boas-vindas m*l sucedida da noite passada. A quem quero enganar? Athos comprou uma bela briga com a cunhada por minha causa!             — Claro, claro que sim. – Babo no monumento a minha frente — não posso fazer essa desfeita a eles. Mas... e os outros?             — Outros? – Ele me olha.             — Seu irmão, cunhada... e quem mais esteja hospedado neste palácio!             — Ah sim, os outros! – Volta ao espelho. — Eles não me interessam.             — Mas estarão lá...             — E isso é problema para você? – Pergunta para o seu reflexo no espelho, mas é comigo que está falando.             — Nenhum. Só que depois da recepção de ontem... olha, não quero mais brigas por minha causa. – Deixo claro que já sei qual a sua.             Athos devolve o pente à penteadeira e vem para mim.             — Arrume-se meu amor. A Carmencita preparou aqueles pãezinhos que você gosta. – Não importa o que eu diga. Pelo seu tom já sei que ele realmente comprou essa briga e não há nada que eu seja capaz de fazer para evitar.             Visto um jeans e uma baby look, calço meus All Stars e penteio os cabelos, prendendo em um r**o de cavalo bem alto. Me olho no espelho e sei que estou muito aquém das mulheres da casa. Só que, não quero ser quem não sou: me vestir como as senhoras do cinema na década de cinquenta, falar difícil, me portar feito uma boneca ou um robô... e também sei que não posso ser uma xucra, uma caipira, não se quiser estar à altura do homem que escolhi para viver, tenho que dar uma melhorada na minha cara de tapada. Quem sabe assim, as pessoas me respeitem mais e eu evite alguns pitis e barracos do meu deus Grego por aí.             Mas foi assim que ele se apaixonou por você, tolinha!             Mas eu não posso deixar que as pessoas o chateiem ou provoquem por minha causa.             Descemos as escadas cinematográficas e atravessamos um largo corredor, é todo aberto e há passagens por ele, em formato de arco que dão acesso a jardins laterais.             Lindo!             Faço uma anotação mental para lembrar de explorar a parte externa mais tarde.             Antes de terminarmos o corredor, entramos em uma ampla sala, ela é toda arejada e cheia de cortinas pesadas e cumpridas, todas abertas nos possibilitando a vista dos jardins, uma porta de madeira se abre em duas e através dela posso ver uma linda piscina.             Há uma imensa mesa centralizada no local e nela estão: de costas posso deduzir que seja Diógenes na cabeceira da mesa, ao seu lado esquerdo, Chelsea seguida por dona Carmem. Do outro lado estão Vicenzo e Maria José. Um silêncio toma conta do lugar, todos comem sem produzir um barulho sequer. Aperto a mão de Athos.             — Bom dia! – Athos cumprimenta ao entrarmos.             — Estherzinha. Filha... que saudades! – Carmencita levanta-se ao me ver e vem até mim.             — Carmencita... como é bom vê-la de novo. – Como é bom ver um rosto amigo!             Ela me abraça forte e eu retribuo o carinho.             — Seja bem-vinda menina, venha, vamos comer. – Pega a minha mão e me puxa para a mesa.             Aproximo-me timidamente e desejo bom dia a todos. Vicenzo levanta-se para me dar um beijo no rosto. MJ abre um sorriso largo, com certeza sente alívio ao me ver, assim como eu a ela.             Chelsea me responde com toda a sua frieza americana e Diógenes diz um "bom dia" parecido com o da mulher, mas sequer me olha, apenas responde mantendo seu olhar no jornal a sua frente.             Athos aproxima-se do irmão e se abaixa ficando na altura de seus olhos, coloca as mãos nos joelhos e fala pausadamente em seus ouvidos.             — Bom dia, irmãozinho. Mostre a boa educação que seus pais te deram e cumprimente a moça como ela merece! – Ai meu Deus! Quero me enterrar neste chão.             Diógenes levanta seu olhar e me mira.             — Acho que eu já a cumprimentei! – Responde seco como uma folha de outono.             — Eu disse: "como ela merece"! – Athos repete, com uma falsa calma que me incomoda.             — Eu já a cumprimentei. – O mais velho volta seu olhar para Athos. —  Deixe de ser mimado e sente-se logo. Não somos obrigados a esperar pela sua boa vontade, temos que tocar a vida e eu não tenho tempo a perder. – O irmão mais velho está visivelmente bravo.             Athos se estica, ajeita o terno e mantém o olhar no irmão. Torço a barra da minha camiseta.             — Sim, eu sou o mimadinho da casa. E por isso exijo que cumprimente a minha noiva com educação. Ela não tem culpa do seu mau humor e arrogância. – Bate na mesa com raiva.             Me assusto e congelo, não consigo ter uma reação para terminar essa discussão ridícula. Diógenes joga seu guardanapo na mesa, empurra a cadeira e levanta-se.             Caraca ele é tão alto quanto o deus Grego. E esquentadinho também! Bendito DNA! Engulo seco.             — Quem é você para falar sobre educação e bons modos? Quem pensa que é para destratar minha esposa, humilhá-la e depois exigir que eu dê um tratamento diferente a esta fedelha que você enfiou dentro desta casa? – Opa! Fedelha? Pelo visto tenho muitos admiradores por aqui! O homem começa a ficar alterado e cospe cada palavra com muita irritação.             — Eu já deixei bem claro que ela tem nome. – Athos olha irado para Chelsea e depois se volta ao irmão — a Esther é minha noiva, é tão minha mulher quanto ela é sua... – aponta para a cunhada. — Portanto se quiserem ser respeitados, deem-se ao respeito, vocês não precisam fingir que gostam dela, mas é com essa moça que irei me casar! Então eu acho melhor respeitá-la porque terão de conviver com ela por muito tempo nesta casa! – Ele grita, suas veias do pescoço saltam e seu rosto começa a mudar de cor.              Pronto! A confusão está armada.             — Você acha mesmo que vai nos fazer engolir uma adolescente goela a baixo...             — JÁ FALEI QUE ELA TEM NOME!!! – O sr. Irritadinho urra para o irmão.             — Esther, Estela, que seja... não me importa. Logo se cansa desse capricho ridículo e nem mesmo você vai se lembrar como ela se chama. – Diógenes devolve a gritaria em tom de provocação. Ele não me ofende, sei que está me usando para ferir Athos. Mas acontece que está obtendo sucesso e esse é o grande problema! — Então deixe de ser infantil e respeite a minha mulher, essa casa e a minha mãe que m*l foi hospitalizada e você já se instala aqui, com essas duas crianças a tira colo... – aponta para MJ e para mim, ela me olha assustada. Vicenzo franze o cenho, mas prefere não tomar partido. — Para fazerem festinha particular e depois dividirem os quartos com os namorados, como duas qualquer!             AI MEU DEUS! Alguém cala a boca deste i****a!             — Perdoe-me Diógenes, mas essas ofensas já estão indo longe demais. – Vicenzo intervém, colocando-se entre os irmãos. Sei que ele evitou o quanto pôde, mas se não o fizesse, algo pior certamente acontecerá. –– Maria José é minha noiva, já é maior de idade há muito tempo. Ela é uma mulher decente e não merece ser ofendida desta maneira. Esther tão pouco. É uma excelente menina e...             — Amor, por favor querido. – A loira made in USA, também se põe em pé. –– Vamos subir, imagine só se sua mãe souber sobre essa discussão? Alguém tem que pensar no bem-estar dela... ­– Chelsea segura o marido pelos ombros. Cínica!             — Isso, leve seu maridinho para o quarto, dê uns calmantes para ele, faça-o se comportar como o cachorrinho que é para você... – d***a! Quando ele, começa é praticamente impossível conte-lo. –– Mas essa conversa não acaba aqui. Ele vai ter que se desculpar com a minha mulher! – Athos está exaltado demais para que eu tente deter sua ira.             — Por favor, Athos! – Vicenzo pede, pela graça divina foi bom que veio conosco. Ele sim, tem mais tato que eu para lidar com o amigo.             — Deixe ele... deixe ele mostrar quem é! – Diógenes diz enquanto pega o paletó no encosto da cadeira — se queria nos chocar ou incomodar, já conseguiu! Espero que quando eu voltar, você já tenha juntado suas coisas e ido embora. Nunca se importou com nossa família, não estava aqui quando meu pai mais precisou, não esteve aqui nem para enterrá-lo... fique tranquilo irmãozinho, vai receber tudo que é seu de direito. Não precisa fingir que se importa e ficar para ver o fim da nossa mãe. ­– Agora ele foi longe demais! Fecho os olhos e peço a Deus que impeça o pior.             Mas não tenho tempo de completar minha oração silenciosa. Athos parece um raio caindo sobre do irmão. Ele soca o homem com tanta força que o outro se espatifa em cima de um aparador, quebrando um espelho de parede.             — Athos, pare já com isso! Não haja como um troglodita. – Dona Carmem que até o momento se manteve calada, grita assustada. — Diógenes porte-se como um homem e pare de provocar seu irmão. – Ela dá bronca nos dois. Parece já acostumada com esse tipo de comportamento entre ambos.             — Cale essa boca, velha! – O mais velho resmunga, tentando se levantar cambaleando.             — Não fale assim com a minha mãe seu animal! – Athos se debate, tentando alcançar seu oponente. Vicenzo o segura com todas as forças.             — Isso mesmo! Esta é a sua mãe. – Diógenes debocha. –– Sempre foi sua mamãezinha. Então aproveite a Caravana e leve-a junto! Desinfete essa casa com tudo que nos lembre de você! – Ele lambe o canto da boca, limpando o sangue vivo.             Novamente Athos investe contra o irmão e os dois se embolam feito gatos pelo chão. Estou atônica. Não consigo reagir.             Vicenzo tenta apartá-los, mas é inútil, socos, murros, empurrões e pontapés são desferidos para todos os lados. MJ sai correndo pelo corredor e eu não consigo me mover. Me tremo inteira e sinto minhas mãos suarem. Carmencita grita e dá tapas nos dois, mas é empurrada para longe. De impulso, corro para acudi-la. Por sorte não caiu no chão, mas bateu as costas com força em uma das cristaleiras.             — Carmencita? – Sento-a na cadeira. — Você está bem? ­             — Sim, meu amor! – Me responde, porém, a expressão é de dor. — Não se preocupe comigo. Eles é quem estão em perigo. – Diz gemendo.             — Aqui! Por favor, me ajudem... eles não se largam por nada. Vão se m***r! – A afobada Maria José volta com dois empregados.             — Por favor, salvem o meu marido! – A mulher pálida de terninho azul implora por Diógenes. — Esse monstro vai matá-lo! ­– Megera!             — Cale essa boca sua ridícula. Sua histeria não vai ajudar em nada. – Me espanto com minhas próprias palavras. — Se ficasse com essa maldita boca fechada, toda essa briga teria sido evitada!             — Eu? – Aponta para si, como se fosse vítima. –– Você está louca, garota!? Não tenho culpa de seu namorado ser um delinquente brigão. – Ela devolve.             — Delinquente? – Fuzilo a branquela com meus olhos em chamas. — Quem é você para falar assim do meu noivo, sua fofoqueira importada? – Avanço em sua direção.             — Well, well, well... – ela gasta o inglês. — Vejam só quem está colocando as garras mirim de fora. Pensei que fosse demorar um pouco mais para deixar cair a máscara, Darling! – Me encara com as mãos nos quadris. — Eu não disse nada além da verdade. Alguém tem o dever de manter a ordem neste lugar. Enquanto você e sua amiguinha festejavam e se divertiam lá em cima, meu marido estava prostrado no leito da mãe agonizante! – Fala sentindo-se a dona da razão.             — Sua gringa mentirosa eu vou arrancar essa sua língua venenosa...             Bato com força em seu rosto, minha mão arde. Ignoro a dor e não dou tempo a ela de reagir. Chelsea tenta se defender, mas eu torço seu braço para trás e caímos no chão. Agradeço aos deuses por ter lembrado de prender o cabelo bem firme. Ela arranha meu braço com a sua mão livre enquanto tenta me morder, mas eu empurro seu rosto e subo em cima de seu corpo. Ela grita feito louca em sua língua enrolada e então ouço a voz de Maria José me pedindo para soltá-la. Eu não consigo, minha ira é maior que minhas forças, fico cega de ódio. Seguro com as duas mãos em seu pescoço, faço força e ela se debate sob mim. Eu não vejo mais nada, apenas deixo toda a carga de tensão do meu corpo correr para minhas mãos.             — FLOR! – Athos? — Solte-a. Você está matando ela! – Bem distante identifico a voz do meu deus Grego.             Apertos os olhos e então os abro. A maldita gringa está com os olhos vermelhos, estufados, seu rosto está inchado, roxeando e ela não consegue falar. Me assusto e a solto, deixo meu corpo tombar ao seu lado, ofegante e sem forças.             Meu pai do céu! O que eu ia fazer?             Olho a minha volta e consigo ver os rostos de Athos, MJ, Vicenzo e sr. Lopes. Todos estão atônicos. Fecho os olhos e os cubro com os braços. Estou morta de vergonha!             — Saiam de cima de mim seus inúteis. Socorram a minha esposa! – Diógenes grita estendido do outro lado da sala.             Os funcionários correm para acudir a mulher jogada ao meu lado. Chelsea faz força para recobrar o oxigênio e engasga, desesperada.             — Me perdoe! – Digo baixinho, tentando me aproximar dela.             — Saia de perto dela sua desequilibrada. – Diógenes já está ajoelhado ao lado da esposa, empurra minha mão, me repreendendo.             — Ela está pedindo desculpas seu i*****l! – Athos me ajuda para que eu possa me sentar.             — Toma aqui amiga, um copo d'água! – Maria ajoelha-se ao meu lado.             — Obrigada! – Respondo e bebo com dificuldade.             Ao meu lado a cunhada de Athos começa a se recuperar, ela chora enquanto seu marido a abraça tentando acalmá-la. Só agora consigo vê-los melhor.             Ela está completamente descabelada e eu nem quero me olhar no espelho, ele não deve estar muito diferente, com o agravante de seus dedos estarem cheios de sangue e seu nariz cortado. O rosto também está f**o com alguns hematomas.             — Flor. Minha vida... – Athos estala os dedos na frente das minhas vistas e eu desperto. — Ela deve estar em choque! – Ele diz.             — Você só pode estar brincando. Essa menina quase matou a minha esposa e ela é quem está em choque? Patético! – Diógenes ri nervosamente.             — Cala a boca cara, a minha mulher com certeza apenas revidou as provocações dessa cobra! – Athos retruca, voltando a se alterar.             — Calma gente! Calma... a dona Carmem está passando m*l. – Vicenzo chama a atenção dos dois. –– Parem de agir feito crianças... olhem o estado dessa mulher! Vocês deveriam se envergonhar.               Athos olha rapidamente para Carmencita que está sentada onde a deixei, com a mão no peito e visivelmente abalada com a cena horrenda que acabou de presenciar.             — Mãe... a senhora está bem?­ – Ele corre e ajoelha-se aos pés dela. — Viu só o que você provocou? Seu i*****l!             — A culpa é sua e da sua namoradinha! – O irmão responde irritado.             — CALEM-SE! – Dona Carmem grita. — Me ajude aqui, menino? - Ela pede apoio a Vicenzo. — Vocês parem já com essa briga de moleques de rua ou terão outra pessoa da casa no hospital! Querem me enfartar é? – Ela põe a mão no peito e se curva. — Ai, ai meu peito. Que dor é essa? Parece que meu peito vai explodir! – Reclama.             Diógenes corre na direção da mulher e os irmãos seguram-na pelos braços.             — Carmencita sente-se... alguém de vocês, chame um médico! – Athos grita.             — Pare de gritar, não irá ajudar em nada. Dona Carmem, o que a senhora está sentindo? – Diógenes junta-se a eles e segura a mão da pobre mulher.             — Dor de mãe, meu filho! – Ela geme, dramatizando. –– Dor de mãe!             — Me desculpe. Eu fui grosseiro com a senhora. – O Gonzalez mais velho diminui o tom, chega a parecer um menino falando. Bufo. –– Mas é que esse... esse... Athos é um mimado inconsequente. Ele me tira do sério. – Diógenes se desculpa ao seu modo.             — Falou o engomadinho, filhinho de papai! ­– O caçula retruca.             — Mas que bagunça é esta? – Uma voz desconhecida nos chama a atenção.             Todos olham para a porta que vem do corredor. Parada nela está uma mulher de estatura baixa, óculos escuros enormes e um cabelo curto estilo Chanel, ela está completamente chocada com o que vê.             É Rosário. A irmã de Athos.             Todos parecem estar envergonhados. Olho a volta e vejo a tremenda zona que virou o ambiente: pratos, copos, vasos de flores, tudo pelo chão. A sala está um caos, Chelsea ainda continua sentada no chão, MJ me ampara ajudando-me a levantar, Athos e Diógenes estão ao lado de dona Carmem, Vicenzo segura um jarro de água e os funcionários permanecem acuados em um canto.             A vergonha coletiva estende-se a mim. Agora eu, é quem me sinto uma criança que fez arte. Não sei onde enfiar minha cara. Gostaria de poder sair correndo agora mesmo e nunca mais voltar, principalmente porquê sei, tenho certeza, que mesmo indiretamente, todo esse cenário de guerra foi causado por minha culpa.             — Alguém pode me explicar o que aconteceu aqui? – Rosário insiste.             Eu! Fui eu, Rosário. Eu causei o caos e a barbárie na sua casa!             Engulo seco.
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