"A FUGA" CAPÍTULO 01
M A Y A:
Eu corria...
Corria com tudo que tinha, trazendo tudo que tenho.
Já não aguentava mais aquilo, esconder algo tão f**o, que nunca podia ter acontecido.
Fugindo, porque era tudo que eu podia fazer agora. Era a única forma de escapar.
O ar rasga meus pulmões, as lágrimas embaralham a rua à minha frente, e cada passo parece alto demais para alguém que precisa desaparecer.
A mochila pesa nas costas, como se carregasse não só minhas coisas, mas tudo o que eu tentei deixar para trás.
Olho para trás, não vejo nada.
Mesmo assim, o medo continua ali, colado na pele, me empurrando para frente.
Porque eu sei que ele esta atrás de mim.
Quando vejo o bar, naquela estrada, não penso.
A luz fraca piscando acima da porta parece um convite silencioso.
Ou uma última chance.
Empurro a porta e entro.
O cheiro me invade, madeira, desinfetante recém passado e algo amargo no ar.
Não penso, só entro com tudo pra trás da bancada, tinha pessoas ali, umas limpando mesas, algumas no balcão.
— Ei…
um homem atrás da bancada me olha confuso.
— O que você tá fazendo garota, não pode ficar aqui!
Não respondo.
Me agacho atrás do balcão, o coração batendo tão forte que tenho certeza de que podem ouvir.
— Anda garota, você não ouviu ele?
alguém diz, grosseiro.
Não consigo ver, estava com o coração na boca, escondida atrás daquela bancada.
— Por favor, me ajuda!! Ele não pode saber que eu estou aqui.
Antes que eles consigam falar, a porta se abre.
O som corta o ambiente.
Eu prendo a respiração.
Reconheço os passos antes mesmo de vê-lo. O jeito como o silêncio se ajeita em volta dele. O peso da presença.
Fecho meus olhos sentindo tanto medo.
— Ei cara, estamos fechados.
O homem da bancada diz com uma voz firme.
Escuto os passos se aproximarem mais.
— Vocês viram uma garota passar por aqui? Um metro e sessenta, cabelos escuros?
Meu corpo inteiro enrijece.
Os segundos se esticam e com eles o meu maior medo exposto. Ser encontrada.
— Não.
responde o outro, num tom grave.
— Se tivesse alguma garota assim aqui, acha que não teriamos visto?
O silêncio que vem depois é insuportável.
Ouço algo deslizar sobre a madeira.
— Essa é ela...
Não conseguia ver, mas sei que ele estava mostrando uma foto minha.
— Se ela aparecer…
a voz dele é baixa, controlada.
— Me mandem uma mensagem, a família dela está preocupada.
A porta fecha.
Só então o ar volta para os meus pulmões. Solto um suspiro trêmulo, sentindo as pernas fraquejarem.
— Vamos garota, saia... Ele já foi.
Me levanto devagar.
Um dos homens me encara, sério.
— Que foi aquilo?
Meu olhar corre até a porta, esperando vê-la se abrir de novo.
— Quem era ele?
ele pergunta.
— Por que estava atrás de você?
Balanço a cabeça, negando.
E então olho pro cliente do outro lado da bancada, que me encarava com intensidade.
— Ninguém importante, eu só precisava despistar ele. Obrigada!
Dou um passo para sair, tudo que menos preciso são pessoas agora me perguntando o que eu estava fazendo.
— Ô, garota.
Meu corpo congela.
— Acho melhor você falar.
ele continua.
— Ou vou precisar mesmo mandar uma mensagem pra ele?
Viro devagar, olhando o cartão que está na mão dele.
Meu coração dispara, violento.
Porque conheço aquele cartão de vistas.
Era dele... Da oficina daquele infeliz.
Aquele mentiroso. Dizendo que minha família estava preocupada, só pra manipular as pessoas.
— Minha família não está preocupada, é mentira dele!
Ele olha pro homem na bancada que me olha desconfiado.
— Você bebe?
o outro pergunta, já pegando um copo.
— Vou pegar uma bebida, relaxa. Você tá segura aqui, ele ainda pode está lá fora.
Ele se afasta, desvio o olhar daquele homem bruto.
— E então?
Mas ele insiste.
— Vou precisar ligar pra ele?
Nego com a cabeça e me aproximo, sentindo as mãos tremerem.
O copo desliza pela bancada.
Pego e viro de uma vez, o álcool queimando a garganta, mas não o medo.
Os dois me observam agora.
— Por que ele estava atrás de você?
Ai meu Deus... Eu não quero falar disso, não quero.
— É um ex seu?
O da bancada pergunta.
Assinto, mentirosa.
É mais fácil assim.
Talvez eles me deixem sair sem me perguntarem a vida toda.
— Ele te bateu, foi isso?
Nego rápido.
— Eu só precisava despistar ele… Eu não quero mais nada, é só isso!
minha voz sai baixa, mas firme.
— E eu já consegui, Obrigado!
Não espero resposta.
Tento sair de perto deles, mas aquele cara segura minha mão, e aquilo me causou um grande choque.
— Não encosta em mim, cara!
puxei rápido o braço, olhando pra ele de olhos arregalados.
— Calma ai garota, a gente só queria ajudar!
— Eu não preciso da sua ajuda!
Quem ele pensa que é pra me tocar assim? Eu não quero! Não.. não preciso de ninguém, principalmente de homem.
Saio do bar com o coração ainda disparado, engolida novamente pela noite.
...