Uma noite naquele bar.

924 Words
Saio do bar com as pernas fracas. O frio da madrugada me alcança rápido demais. Encosto na parede e abro a mochila, os dedos tremendo enquanto conto o dinheiro outra vez, como se o número pudesse mudar. Cem dólares. Só isso. Não dá mais pra quartos de estrada. Não dá pra fingir que ainda estou no controle. Ou eu pago pra dormir… ou pago pra comer nos próximos dias. Fecho a mochila devagar. Olho para o beco ao lado do bar. Ele dá saída para o outro lado da rua, escuro, estreito, cheirando a lixo e perigo. Não é seguro. Eu sei disso. Mas é o mais perto que tenho agora. Fico ali, parada, esperando. Vejo um dos homens de dentro sair. Aquele mesmo que quase ligou pro tirano do Mário pra me entregar. Ele sobe numa moto, coloca o capacete e vai embora. O ronco do motor some na rua vazia. Minutos depois, o bar muda. A música começa alta, gente entra rindo, empurrando, homens e mulheres ocupam o espaço como se nada no mundo pudesse alcançar eles ali dentro. Entro de novo, baixando a cabeça, não quero que ninguém me reconheça. Escolho uma mesa no canto mais escuro, onde a luz quase não chega. Sei como esses lugares funcionam. Sempre existe um ponto morto. Um canto esquecido. Um lugar seguro o bastante para quem só precisa desaparecer por algumas horas. Meu plano era simples: me esconder e passar a noite. Banheiro. Depósito. Qualquer coisa. Quando o movimento começa a diminuir, espero. Conto o tempo pelos sons. Risadas mais raras. Música mais baixa. Passos arrastados. Levanto fingindo ir ao banheiro. E não volto. Me enfio por um corredor estreito, passo por uma porta que ninguém parece usar e encontro um canto afastado. — Só por hoje... Só hoje. Deslizo na porta e fica sentada no chão, os braços agarrando as pernas e espero pacientemente com a cabeça abaixada. Quando o bar finalmente silencia, me movo com cuidado, o coração na garganta. Abro a porta de vagar, sorrateira e vejo tudo fechado, procuro algum depósito, eu sei que sempre tem um quarto de descanso, e assim que acho solto o ar aliviada. — Finalmente. Há uma cama ali. Simples. Estreita. Mas é uma cama. Não penso em nads. Só deito. O cansaço me apaga antes mesmo de eu conseguir fechar os olhos direito. Adormeci, sabendo que precisaria acordar cedo no outro dia. Não posso ser pega. ... MANHÃ SEGUINTE.. O som da porta abrindo não me despertou, estava tão cansada que não conseguir acordar antes de ser descoberta, e só soube, quando ouvir: — Que p***a?! Acordo num pulo. Meu coração dispara como se tivesse sido puxado de um abismo. — O que você tá fazendo aqui, garota? O homem, aquele mesmo da bancada está parado à minha frente. O rosto fechado, os olhos atentos demais. Levanto rápido, pegando a mochila. — Desculpa! as palavras saem atropeladas. — Eu só precisava de um lugar pra passar a noite. — p***a… aqui? ele olha em volta. — Como você entrou? — Eu… eu fiquei a noite toda. Não invadi nada! Minha voz falha. — Eu não quero problemas... me apresso. — Só precisava dormir. Só isso. Tento passar por ele, mas ele bloqueia o caminho. — Você tá em perigo, é isso? pergunta sério. — O que tá acontecendo? — Não está acontecendo nada. nego rápido. — Não, não… só tô com a grana curta. Ele me encara em silêncio. Não acredita no que eu digo. d***a! — Curta pra quê? Não tem casa? Olhei pra minha mochila, e senti meu coração acelerar. — Para de mentir, garota. Tô falando sério. Ou eu chamo a polícia ou aquele cara que disse que tua família te procura. Meu estômago afunda. — Por favor… começo, a voz trêmula. Antes que eu diga mais alguma coisa, outra voz surge atrás dele. — O que é isso, Malcon? Uma mulher entra pela mesma porta. Cabelo preso, olhar firme, claramente alguém que manda nele ali. Ela tinha tatuagens no braço, um piercing na boca. — É o que eu quero saber. ele responde. — Essa garota tava aqui. Ela me olha de cima a baixo. — Desculpa. digo rápido. — Eu só precisava de um lugar pra dormir. — Invadiu o bar? — Não! respondo na hora. Aquele cara, o tal Malcon vira pra ela. — Ela tá sendo perseguida, esteve aqui ontem, tinha um cara atrás dela. — Não estou! nego, quase suplicando. Ele balança a cabeça. — Tá na cara que você tá em apuros, oh garota, já vi coisa assim. — Perseguida por quem? a mulher pergunta, agora olhando direto pra mim. Engulo em seco. — Eu só precisava de uma dormida... repito. — Tô sem dinheiro, só isso. Dou um passo à frente, tentando sair, mas O cara fala antes: — Escuta… você disse que a grana tá curta? Paro olhando pra eles dois. — Não sei pelo que você está passando, mas se te ajuda tem uma vaga aqui. ele continua e olha pra mulher, e ela me olha com um olhar diferente. — Se você quiser. Olho pros dois, o coração batendo forte demais. — A gente paga diária, se você quiser meter o pé depois. a mulher completa. Fico ali, dividida entre o medo de ficar… e o pavor de sair. Porque, no fundo, eu sei: Às vezes, o lugar que parece ser o mais perigoso é também o único que te mantém viva. E era o único que eu tinha agora. ...
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