GAROTA PROBLEMÁTICA.

1825 Words
OLIVER: Quando Kauan me mandou dirigir aquele pub, eu pulei de cabeça. Virei praticamente sócio dele, ele investia e eu dava conta de tudo. O cara era meu amigo e aquele lugar era a vida dele, mas estava ocupado de mais pra dar conta de tudo. Filha pequena, rotina pesada, investigações pilhada. Dei essa força. Eu gostava daqui, não seria sacrifício algum. E eu não tinha nada melhor pra fazer, abandonei o cargo de gerente logista da empresa Vasco (pai do Kauan) e assumir aquele trabalho. Na noite que aquela garota apareceu, estava fechando as contas com o Malcon. Carga de bebida atrasada, fornecedor novo querendo vantagem, dois funcionários pedindo adiantamento. Nada fora do normal. Tudo o que mantém aquele bar de pé passa por mim, estoque, pagamento, contrato, funcionário. Malcon bota ordem ali dentro, segura o salão. Mas o resto… sou eu. ... Na manhã seguinte, acordo cedo demais para alguém que dormiu pouco. O café está quente na xícara, em minha cafeteira, a cidade ainda lenta lá embaixo. Encosto no parapeito da varanda do apartamento e tomo o primeiro gole quando o celular vibra. Era o Malcon. — Fala. atendo, sem cerimônia. — A garota apareceu de novo. Franzi o cenho confuso. — Que garota? — A de ontem. A que o cara tava procurando. Apoio a xícara na mesinha da varanda. — E? — Ela dormiu aqui. Passo a mão no rosto. — Como assim dormiu aí? Ela invadiu o bar? — Não. A voz dele vem firme. — Ela ficou a noite toda. Se escondeu. Não mexeu em nada. Fico em silêncio por alguns segundos, processando. — Você tá brincando comigo, né? — Não. — E o que você fez? — Contratei ela. Solto um riso curto, incrédulo. — Você enlouqueceu, Malcon? digo, sem rodeios. — A garota aparece fugindo, passa a noite no bar… e você contrata? — Tem coisa errada acontecendo com ela. ele responde. — E vou te dizer mais: se fosse o Kauan, ele faria o mesmo. Por instinto. — Não mistura as coisas. Aperto a mandíbula. — Um caso não faz regra. — A mulher do Kauan não era exatamente uma garota sem problemas quando começou aqui. ele rebate. — Não era uma fugitiva dormindo no bar! retruco. Do outro lado da linha, ele suspira. — Se você tem dúvida, liga pra ele. A voz de Malcon endurece. — Ele confiou em você pra dirigir isso tudo enquanto tá fora. Agora faz o teste. Eu vou botar ela pra trabalhar hoje. Se você não aprovar, pago só a diária dela e vida que segue. A ligação cai. Fico parado, encarando a cidade como se ela pudesse me dar alguma resposta. Merda. Disco o número do Kauan. — Fala Oliver. ele atende, direto. — Preciso da tua posição numa coisa... digo. — Problemas no Pub? — Uma garota apareceu ontem no bar. Tinha um cara atrás dela. O Malcon deu trabalho pra ela. — Você acha que ela tá sendo perseguida por ex? ele pergunta, atento. — Não sei. Passo a mão na nuca. — O cara disse que a família dela tava preocupada. Mas… sei lá, Kauan. Acho que o Malcon tá trazendo problema. O assunto aqui é ela está lá dentro, malcon tá dando um tiro no pé. — Malcon é de confiança. ele responde sem hesitar. — Se ele decidiu, deixa. Mas acompanha de perto. Faço um som de concordância. — Qualquer coisa, me liga. ele continua. — Se for isso mesmo… eu pego o caso. Não é assunto nosso, mas se tá acontecendo, a gente resolve entendeu? Não é ameaça. É certeza. Kauan já viu coisa demais. Principalmente quando envolve mulher fugindo de alguma coisa que não deixou marcas visíveis. — E fica frio, qualquer coisa, fala comigo antes. — Pode deixar! digo. — Fico em cima. Desligo. Olhando distante enquanto seguro aquele celular. Não tolero agressor, não mesmo. E o Kauan sabe muito bem disso. Porque tínhamos opiniões muito parecidas. .... À noite, escolho a jaqueta preta. Calça jeans escura. O tipo de roupa que não chama atenção… mas também não passa despercebida por nenhuma mulher. Desço do apartamento e subo na moto e deixo a cidade correr sob as rodas. Quando paro em frente ao pub, o lugar já está funcionando. Entro. O lugar já começa a encher, o tipo de noite que dá dinheiro… e dor de cabeça. A vejo antes mesmo de procurar. A garota. Ela anda pelo salão recolhendo copos com agilidade, desviando de corpos, de mãos esticadas, de risadas altas. Se move como quem aprendeu a não ocupar espaço demais. — Tá vendo? Malcon aparece ao meu lado. — Ela é ágil. Não respondo de imediato. Só observo. — Ainda acho que você caçou problema pra gente. digo, por fim. Ele cruza os braços. — Já vi muita gente perdida precisando de ajuda... responde me fazendo olhar pra ele. — Mas nunca na minha frente sem eu fazer nada. Aceno leve e vou pra bancada do bar. Sento ali e Kely vem até mim. — O mesmo de sempre chefe? — Pode encher. Ela sorri e enche o copo. Voltei a olhar pra garota e Kelly sorriu negando. — Deixa a garota, ela só precisa de ajuda, não dá sua desconfiança. Neguei olhando pra ela com olhos pressionados. — É o que vamos ver. A noite avança rápido. O pub lota. Música mais alta. Copos se acumulam. Gente demais. Barulho demais. — Maya, dá aqui uma força na bancada. Maya? Então esse era o nome da fujona? Malcon diz pra ela que assente e vem. É aí que me vê. O olhar dela balança por um segundo. Nada escancarado. Só o suficiente pra eu notar que ela me reconheceu. Levo o copo à boca sem desviar os olhos. Bebo devagar. Quando termino, ergo o copo num gesto simples. Ela vem até mim. Malcon e Kely estão ocupados preparando drinks, virados um pro outro. Ela para à minha frente. — O que vai querer? — Vodka. Ela pega a garrafa sem hesitar. Enche meu copo, eu até pegaria a garrafa mais preciso sondar mais. — O cara voltou a te perturbar? pergunto, direto. Ela para por um segundo, depois continua o que está fazendo. Ignora minha pergunta. — Não vai responder? — Isso não é da sua conta. Arqueio a sobrancelha com a resposta curta e direta. Inclino um pouco a cabeça sentindo o impacto do corte. — Você chega aqui fugindo de um cara, pede pra ninguém dizer que você tava aqui… e isso não é da minha conta? me inclino um pouco. — Você sabe que eu ainda tenho o número dele, né, garota? Ela vira pra mim, irritada. — Eu não pedi ajuda a você. Garota ingrata, é isso? — Você é só um cliente, eu pedi a ajuda do Malcon. Então fica na sua. Pressiono os lábios. Atrevida. Percebo Malcon por perto, atento, quase se intrometendo, mas faço um gesto discreto com a mão. Não precisa se meter. — Posso ser só um cliente. digo, baixo — Mas eu podia muito bem ter dito ao cara que você tava aqui. Ela fecha a cara. — Deixa minha vida em paz. dispara. E se afasta. Vai atender outro cliente. Depois outro. E mais um. Observo seus movimentos ágeis, tava na cara que ela já vivia coisa assim, ou não teria tanta praticidade. Ela é eficiente. Reconhece bebida pelo gargalo, pela cor, pelo rótulo m*l iluminado na adega. Não erra pedido. Não se confunde. Isso me incomoda. Malcon cruza o olhar comigo e n**a com um sorriso curto, como se dissesse eu te avisei. Com o bar esvaziando, ela começa a limpar a bancada, guardar garrafas ainda cheias, alinhar copos. Método. Organização. Fico ali, bebendo devagar, beliscando petiscos enquanto o lugar se esvazia. — Ei... Enche esse copo, eu ainda tô aqui. Ela me olha e vai pegar a garrafa, mas malcon trava ela no caminho pegando a garrafa da mão dela. — Vai atrás da Kely, ela deve tá precisando de ajuda. Malcon diz pra ela. Ela assente e some pela porta de acesso, pra dentro do bar. Ele vem até mim com a garrafa. — Você vai mesmo deixar ela sem saber quem você é aqui? Malcon pergunta. — Vou. respondo. — Não faz diferença ela saber o que eu sou. E perde toda a diversão se ela souber. Ele ri. Um riso estranho. Curto demais. — Não to afim de acabar com a marra dela agora. Ele n**a com aquele sorriso irónico. — Não vou dizer nada. diz. — Não esperava te ver aqui hoje. ele continua. — Kauan mandou eu ficar de olho. respondo. — Ele acha que ela tá sofrendo a***o daquele cara. — Isso tá bem óbvio. Malcon concorda. — E, pelo visto, ela não tem pra onde ir. Tiro o cartão do bolso e coloco sobre a bancada. — Ainda tô com isso. E se eu ligar pra ele? Só pra saber se a parada da família dela é real? Malcon fecha a cara. — Péssima ideia. Ele empurra o cartão de volta. — Se fizer isso, entrega a garota. — Isso pode ser verdade cara, e se ela tiver desaparecida? Fugindo da família? — Ai, ela deve ter uma boa razão pra fugir da família. Nego passando a mão no rosto. — Posso passar isso pra outra pessoa. Ele me olha intrigado, continuo meu raciocínio. — Entrego isso ao Kauan, ele localiza o cara fácil. Posso descobrir mais rápido. — Oh cara... Tá levando isso pro extremo. Ele balança a cabeça. — Vamos deixar rolar. A gente nem conhece a garota. Deixa a Kely arrancar isso dela. — Eu não quero ficar pastorando ninguém. Resmungo e Malcon olha pra bancada limpa, pras garrafas organizadas. — Ela não precisa e nem quer isso. Cara, fica de boa, não precisa pastorar ninguém não. Não.. não preciso mesmo, mas se qualquer parada acontecer aqui, vai sobra pra mim. A sujeira só quem limpa sou eu. Ele olha de volta pra bancada. — Até que ela é eficiente, diferente da última, nessas condições que passou por aqui. — Última? Ele sorri. — Luara. Neguei aquela comparação. Ele quer comparar a mina do kauan? Com essa situação? Tá louco... Me levanto deixando o copo na bancada. — Já vou indo. Cumprimento ele e saio. O vento aqui fora é gelado, vou em direção a minha moto passando a mão na nuca. Deixei ela do outro lado da pista, estava lotado, não tive onde estacionar direito. Paro ao lado da moto… mas não ligo. Fico ali, parado, encarando o bar. A frase do Malcon martela. "Ela não tem pra onde ir." Vejo os funcionários saírem. Um por um. Vejo Malcon sair com Kely trancando a porta dos fundos. Mas não vejo a garota. Meu maxilar trava. — Que p***a… murmuro. O que diabos o Malcon tá fazendo? Tá deixando a garota dormir lá? ...
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