OLIVER:
Quando Kauan me mandou dirigir aquele pub, eu pulei de cabeça.
Virei praticamente sócio dele, ele investia e eu dava conta de tudo.
O cara era meu amigo e aquele lugar era a vida dele, mas estava ocupado de mais pra dar conta de tudo.
Filha pequena, rotina pesada, investigações pilhada.
Dei essa força.
Eu gostava daqui, não seria sacrifício algum. E eu não tinha nada melhor pra fazer, abandonei o cargo de gerente logista da empresa Vasco (pai do Kauan) e assumir aquele trabalho.
Na noite que aquela garota apareceu, estava fechando as contas com o Malcon.
Carga de bebida atrasada, fornecedor novo querendo vantagem, dois funcionários pedindo adiantamento. Nada fora do normal.
Tudo o que mantém aquele bar de pé passa por mim, estoque, pagamento, contrato, funcionário. Malcon bota ordem ali dentro, segura o salão. Mas o resto… sou eu.
...
Na manhã seguinte, acordo cedo demais para alguém que dormiu pouco.
O café está quente na xícara, em minha cafeteira, a cidade ainda lenta lá embaixo.
Encosto no parapeito da varanda do apartamento e tomo o primeiro gole quando o celular vibra.
Era o Malcon.
— Fala.
atendo, sem cerimônia.
— A garota apareceu de novo.
Franzi o cenho confuso.
— Que garota?
— A de ontem. A que o cara tava procurando.
Apoio a xícara na mesinha da varanda.
— E?
— Ela dormiu aqui.
Passo a mão no rosto.
— Como assim dormiu aí? Ela invadiu o bar?
— Não.
A voz dele vem firme.
— Ela ficou a noite toda. Se escondeu. Não mexeu em nada.
Fico em silêncio por alguns segundos, processando.
— Você tá brincando comigo, né?
— Não.
— E o que você fez?
— Contratei ela.
Solto um riso curto, incrédulo.
— Você enlouqueceu, Malcon?
digo, sem rodeios.
— A garota aparece fugindo, passa a noite no bar… e você contrata?
— Tem coisa errada acontecendo com ela.
ele responde.
— E vou te dizer mais: se fosse o Kauan, ele faria o mesmo. Por instinto.
— Não mistura as coisas.
Aperto a mandíbula.
— Um caso não faz regra.
— A mulher do Kauan não era exatamente uma garota sem problemas quando começou aqui.
ele rebate.
— Não era uma fugitiva dormindo no bar!
retruco.
Do outro lado da linha, ele suspira.
— Se você tem dúvida, liga pra ele.
A voz de Malcon endurece.
— Ele confiou em você pra dirigir isso tudo enquanto tá fora. Agora faz o teste. Eu vou botar ela pra trabalhar hoje. Se você não aprovar, pago só a diária dela e vida que segue.
A ligação cai.
Fico parado, encarando a cidade como se ela pudesse me dar alguma resposta.
Merda.
Disco o número do Kauan.
— Fala Oliver.
ele atende, direto.
— Preciso da tua posição numa coisa...
digo.
— Problemas no Pub?
— Uma garota apareceu ontem no bar. Tinha um cara atrás dela. O Malcon deu trabalho pra ela.
— Você acha que ela tá sendo perseguida por ex?
ele pergunta, atento.
— Não sei.
Passo a mão na nuca.
— O cara disse que a família dela tava preocupada. Mas… sei lá, Kauan. Acho que o Malcon tá trazendo problema. O assunto aqui é ela está lá dentro, malcon tá dando um tiro no pé.
— Malcon é de confiança.
ele responde sem hesitar.
— Se ele decidiu, deixa. Mas acompanha de perto.
Faço um som de concordância.
— Qualquer coisa, me liga.
ele continua.
— Se for isso mesmo… eu pego o caso.
Não é assunto nosso, mas se tá acontecendo, a gente resolve entendeu?
Não é ameaça.
É certeza.
Kauan já viu coisa demais.
Principalmente quando envolve mulher fugindo de alguma coisa que não deixou marcas visíveis.
— E fica frio, qualquer coisa, fala comigo antes.
— Pode deixar!
digo.
— Fico em cima.
Desligo.
Olhando distante enquanto seguro aquele celular.
Não tolero agressor, não mesmo.
E o Kauan sabe muito bem disso.
Porque tínhamos opiniões muito parecidas.
....
À noite, escolho a jaqueta preta. Calça jeans escura.
O tipo de roupa que não chama atenção… mas também não passa despercebida por nenhuma mulher.
Desço do apartamento e subo na moto e deixo a cidade correr sob as rodas.
Quando paro em frente ao pub, o lugar já está funcionando.
Entro. O lugar já começa a encher, o tipo de noite que dá dinheiro… e dor de cabeça.
A vejo antes mesmo de procurar.
A garota.
Ela anda pelo salão recolhendo copos com agilidade, desviando de corpos, de mãos esticadas, de risadas altas.
Se move como quem aprendeu a não ocupar espaço demais.
— Tá vendo?
Malcon aparece ao meu lado.
— Ela é ágil.
Não respondo de imediato. Só observo.
— Ainda acho que você caçou problema pra gente.
digo, por fim.
Ele cruza os braços.
— Já vi muita gente perdida precisando de ajuda...
responde me fazendo olhar pra ele.
— Mas nunca na minha frente sem eu fazer nada.
Aceno leve e vou pra bancada do bar.
Sento ali e Kely vem até mim.
— O mesmo de sempre chefe?
— Pode encher.
Ela sorri e enche o copo.
Voltei a olhar pra garota e Kelly sorriu negando.
— Deixa a garota, ela só precisa de ajuda, não dá sua desconfiança.
Neguei olhando pra ela com olhos pressionados.
— É o que vamos ver.
A noite avança rápido.
O pub lota. Música mais alta. Copos se acumulam. Gente demais. Barulho demais.
— Maya, dá aqui uma força na bancada.
Maya? Então esse era o nome da fujona?
Malcon diz pra ela que assente e vem.
É aí que me vê.
O olhar dela balança por um segundo. Nada escancarado.
Só o suficiente pra eu notar que ela me reconheceu.
Levo o copo à boca sem desviar os olhos. Bebo devagar. Quando termino, ergo o copo num gesto simples.
Ela vem até mim.
Malcon e Kely estão ocupados preparando drinks, virados um pro outro. Ela para à minha frente.
— O que vai querer?
— Vodka.
Ela pega a garrafa sem hesitar.
Enche meu copo, eu até pegaria a garrafa mais preciso sondar mais.
— O cara voltou a te perturbar?
pergunto, direto.
Ela para por um segundo, depois continua o que está fazendo.
Ignora minha pergunta.
— Não vai responder?
— Isso não é da sua conta.
Arqueio a sobrancelha com a resposta curta e direta.
Inclino um pouco a cabeça sentindo o impacto do corte.
— Você chega aqui fugindo de um cara, pede pra ninguém dizer que você tava aqui… e isso não é da minha conta?
me inclino um pouco.
— Você sabe que eu ainda tenho o número dele, né, garota?
Ela vira pra mim, irritada.
— Eu não pedi ajuda a você.
Garota ingrata, é isso?
— Você é só um cliente, eu pedi a ajuda do Malcon. Então fica na sua.
Pressiono os lábios.
Atrevida.
Percebo Malcon por perto, atento, quase se intrometendo, mas faço um gesto discreto com a mão.
Não precisa se meter.
— Posso ser só um cliente.
digo, baixo
— Mas eu podia muito bem ter dito ao cara que você tava aqui.
Ela fecha a cara.
— Deixa minha vida em paz.
dispara.
E se afasta.
Vai atender outro cliente. Depois outro. E mais um.
Observo seus movimentos ágeis, tava na cara que ela já vivia coisa assim, ou não teria tanta praticidade.
Ela é eficiente.
Reconhece bebida pelo gargalo, pela cor, pelo rótulo m*l iluminado na adega. Não erra pedido. Não se confunde.
Isso me incomoda.
Malcon cruza o olhar comigo e n**a com um sorriso curto, como se dissesse eu te avisei.
Com o bar esvaziando, ela começa a limpar a bancada, guardar garrafas ainda cheias, alinhar copos. Método. Organização.
Fico ali, bebendo devagar, beliscando petiscos enquanto o lugar se esvazia.
— Ei... Enche esse copo, eu ainda tô aqui.
Ela me olha e vai pegar a garrafa, mas malcon trava ela no caminho pegando a garrafa da mão dela.
— Vai atrás da Kely, ela deve tá precisando de ajuda.
Malcon diz pra ela.
Ela assente e some pela porta de acesso, pra dentro do bar.
Ele vem até mim com a garrafa.
— Você vai mesmo deixar ela sem saber quem você é aqui?
Malcon pergunta.
— Vou.
respondo.
— Não faz diferença ela saber o que eu sou. E perde toda a diversão se ela souber.
Ele ri. Um riso estranho. Curto demais.
— Não to afim de acabar com a marra dela agora.
Ele n**a com aquele sorriso irónico.
— Não vou dizer nada.
diz.
— Não esperava te ver aqui hoje.
ele continua.
— Kauan mandou eu ficar de olho.
respondo.
— Ele acha que ela tá sofrendo a***o daquele cara.
— Isso tá bem óbvio.
Malcon concorda.
— E, pelo visto, ela não tem pra onde ir.
Tiro o cartão do bolso e coloco sobre a bancada.
— Ainda tô com isso. E se eu ligar pra ele? Só pra saber se a parada da família dela é real?
Malcon fecha a cara.
— Péssima ideia.
Ele empurra o cartão de volta.
— Se fizer isso, entrega a garota.
— Isso pode ser verdade cara, e se ela tiver desaparecida? Fugindo da família?
— Ai, ela deve ter uma boa razão pra fugir da família.
Nego passando a mão no rosto.
— Posso passar isso pra outra pessoa.
Ele me olha intrigado, continuo meu raciocínio.
— Entrego isso ao Kauan, ele localiza o cara fácil. Posso descobrir mais rápido.
— Oh cara... Tá levando isso pro extremo.
Ele balança a cabeça.
— Vamos deixar rolar. A gente nem conhece a garota. Deixa a Kely arrancar isso dela.
— Eu não quero ficar pastorando ninguém.
Resmungo e Malcon olha pra bancada limpa, pras garrafas organizadas.
— Ela não precisa e nem quer isso. Cara, fica de boa, não precisa pastorar ninguém não.
Não.. não preciso mesmo, mas se qualquer parada acontecer aqui, vai sobra pra mim.
A sujeira só quem limpa sou eu.
Ele olha de volta pra bancada.
— Até que ela é eficiente, diferente da última, nessas condições que passou por aqui.
— Última?
Ele sorri.
— Luara.
Neguei aquela comparação.
Ele quer comparar a mina do kauan? Com essa situação? Tá louco...
Me levanto deixando o copo na bancada.
— Já vou indo.
Cumprimento ele e saio.
O vento aqui fora é gelado, vou em direção a minha moto passando a mão na nuca.
Deixei ela do outro lado da pista, estava lotado, não tive onde estacionar direito.
Paro ao lado da moto…
mas não ligo.
Fico ali, parado, encarando o bar.
A frase do Malcon martela.
"Ela não tem pra onde ir."
Vejo os funcionários saírem. Um por um. Vejo Malcon sair com Kely trancando a porta dos fundos.
Mas não vejo a garota.
Meu maxilar trava.
— Que p***a…
murmuro.
O que diabos o Malcon tá fazendo?
Tá deixando a garota dormir lá?
...