— Mãe… mês que vem não dá — disse Olívia, já com o cansaço na voz.
Do outro lado da linha, veio a resposta imediata, firme, sem espaço para fuga:
— Não, Olívia. Você não pode negar isso pra gente, tá? Você disse que ia vir passar o fim de ano aqui.
Ela fechou os olhos por um segundo, apoiando a mão na bancada da cozinha vazia.
— Mãe, mas ainda falta muito pro fim de ano… não vai dar. Tá tudo muito corrido aqui no restaurante, eu não vou conseguir fechar.
A mãe respirou fundo, como se aquilo fosse inaceitável.
— Não, Olívia. Dá um jeito. Faz muito tempo que você não vem me ver, nem a sua avó. Nós estamos com saudade de você, minha filha… e queremos conhecer o seu esposo. O seu marido. Por favor.
O silêncio pesou.
Olívia passou a mão pelo rosto, exausta.
Ela não tinha saída.
— Tá… tudo bem — disse por fim, rendida. — Daqui duas semanas eu viajo pra ir, tá?
— Isso, minha filha! Te esperamos!
A ligação foi encerrada.
E o silêncio que ficou depois pareceu maior do que qualquer barulho do restaurante.
Olívia ficou parada, olhando para o nada.
O celular ainda na mão.
A cabeça cheia.
O coração apertado.
“Esposo…”
A palavra ecoava como um problema sem solução.
Ela soltou um suspiro longo e encostou na bancada, sentindo o peso da própria mentira crescer de novo.
— Onde foi que eu me meti… — murmurou para si mesma.
E ali, pela primeira vez em muito tempo, Olívia percebeu que não era mais só uma desculpa solta no ar.
Era algo que agora estava prestes a cobrar vida.
E ela ainda não tinha ideia de como sair disso.