Bela
Dois dias após o enterro, minha tia e minha prima Elisa estavam se preparando para voltar à fazenda onde moravam. Enquanto arrumavam as malas, tentavam me convencer a ir com elas.
— Eu ainda tenho provas... Depois disso, eu passo um tempo com vocês — falei, tentando parecer firme.
— Beleza, então. Daqui uma semana eu volto pra te buscar — disse minha tia, ajeitando a bolsa no ombro.
Cruzei os braços e revirei os olhos.
— Não precisa me buscar. Acho que sou grande o suficiente pra chegar sozinha na sua casa.
Ela me olhou preocupada.
— Tem certeza? A gente mora numa fazenda bem distante da cidade. A cidade mais próxima é menor que o seu bairro...
— Eu dou conta. Vou organizar tudo aqui e passo com vocês até janeiro — respondi.
Elisa deu pulinhos de alegria.
— Mas vou só por uns meses, hein — acrescentei, tentando conter o entusiasmo da minha prima.
Elas foram embora e, de repente, a casa pareceu ainda mais silenciosa. Vazia. Triste. A presença da minha avó estava em cada canto, em cada objeto, cada cheiro. Era sufocante. Doía demais. Talvez eu realmente precisasse sair dali.
No dia seguinte, fui à escola para fazer as provas. Tinha conversado com o diretor, que entendeu minha situação e pediu aos professores que adiantassem tudo. Assim que cheguei, minha amiga Sofia me abraçou forte.
— Se precisar de mim pra qualquer coisa, é só chamar — ela disse, tentando parecer sincera.
Mas eu sabia... Era só educação. Como todos os outros alunos que vieram me dar os pêsames. Era como se eu tivesse me tornado a “atração” da escola. De garota nerd invisível a garota popular pela tragédia. Todos me paravam nos corredores para perguntar como eu iria viver sozinha. Eu dizia que tinha família, mas mesmo assim me olhavam com pena.
No intervalo, vi Renato. De mãos dadas com a garota com quem ele tinha me traído na festa. Jennifer. Aquela vaca. Já tinha ficado com metade da escola. Droga... Quem eu queria enganar? Eu estava morrendo de ciúmes. Ele fingiu que não me conhecia. E eu fiz o mesmo.
Saí dali com lágrimas nos olhos, corri para o banheiro feminino e chorei. Chorei como se estivesse sangrando por dentro. Meu mundo desmoronava mais a cada dia. Meu namorado me trocara como se eu fosse nada, minha avó — a única pessoa que se importava de verdade comigo — estava morta, e toda a escola me tratava como um espetáculo trágico. Eu só queria que aquele dia acabasse logo.
As pessoas fingem se importar, mas não se importam de verdade. Perdi a conta de quantas vezes respondi “estou bem” sem estar. Voltei pra casa e o silêncio me lembrou que minha avó não estava mais ali. Era oficial: eu estava sozinha.
Percebi que as pessoas começaram a se afastar, talvez com medo de que eu pedisse ajuda. Sofia quase não falava mais comigo, m*l respondia minhas mensagens. Aquilo selou minha decisão.
Eu iria para a fazenda.
Já fazia uma semana desde a morte da minha vó quando liguei para minha tia, avisando que havia decidido ir morar com elas por um tempo. Ela ficou feliz e quis vir me buscar.
— Não precisa, tia. Vou dirigindo o carro que era da vovó.
— Você sabe dirigir? — ela perguntou, surpresa.
— Sei sim! Tenho habilitação e tudo.
Ela ficou aliviada. Mas a verdade? Eu tinha tirado minha carteira há poucos meses e ainda era provisória. E mais: eu dirigia m*l. Muito m*l. Mas eu queria levar o carro da minha vó comigo. Não conseguiria deixá-lo para trás. Além disso, podia levar bastante coisa nele.
Vendi alguns móveis, guardei um bom dinheiro e ainda tinha a poupança que minha vó mantinha em meu nome. Deixei a casa sob os cuidados da vizinha e me preparei para a viagem. Programei o GPS, liguei a playlist de músicas da minha vó (aquela com modão antigo que ela amava) e peguei a estrada ainda de madrugada.
A viagem foi longa. Fiz paradas para comer e descansar. Quando finalmente cheguei à cidade onde ficava a tal fazenda, quase caí pra trás. “Cidade” era um elogio. Aquilo m*l parecia um povoado. Um bar-restaurante, um posto de gasolina, uma escola, um mercado, uma lojinha de roupas e um mini posto de saúde.
Abasteci o carro e pedi informações sobre a Fazenda São Arcanjo. As pessoas me olharam como se eu fosse um ET, até que falei que era sobrinha da Cidinha. Aí sim, me explicaram o caminho. Era uma estrada de terra sem fim.
— Só seguir por ali. Quando passar debaixo da placa, é porque chegou na fazenda — explicou uma mulher que parecia ser professora.
Meu short jeans e minha blusa de banda provavelmente chamaram atenção naquele lugar. As pessoas pareciam se vestir mais... discretamente.
O carro da minha vó era potente, mas eu não estava acostumada a dirigir em estrada de terra. Assim que passei por baixo de uma enorme placa com o nome Fazenda São Arcanjo, achei que tinha chegado. Mas que nada! A estrada continuava... e continuava... só pasto e mais pasto.
E como se não bastasse, começou a chover. Forte.
Aquela chuva pesada me deixou sem enxergar quase nada. A estrada virou lama. O carro atolou. Tentei acelerar, sair dali, mas quanto mais eu forçava, mais ele afundava.
Saí do carro, encharcada, xingando o universo. Tentei empurrar sozinha, mas era inútil. Até que ouvi... uma risada.
Me virei. E vi ele.
Montado num cavalo, chapéu de cowboy, calça jeans com um cinto grosso e uma camisa parcialmente aberta, molhada pela chuva. As gotas escorriam pelo seu peito. O cabelo castanho molhado, os lábios finos, o rosto tão bonito que parecia ter saído de um catálogo de moda rural.
E então ele falou, com a voz grave e calma:
— Moça, você não vai conseguir tirar esse carro daí não... Só amanhã, com o trator.
Ele desmontou do cavalo e veio em minha direção.
— O que uma garota faz perdida por aqui?
— Estou indo pra Fazenda São Arcanjo — respondi, meio tímida.
Ele sorriu, apontando ao redor.
— Você já está nela.
— Sim, mas... preciso ir até a casa da minha tia, a Cidinha. Ela mora aqui.
— Ah, a Cidinha! Conheço sim. Vamos, eu te acompanho. Dá uns vinte minutinhos a pé até lá.
— Tudo isso? — reclamei, fazendo beicinho.
Ele riu. E que sorriso era aquele... Meu coração bateu estranho.
Tranquei o carro, peguei minha mochila e começamos a caminhar pela estrada de terra, lado a lado, sob a garoa fina que ainda caía. E ali, mesmo encharcada e coberta de lama, pela primeira vez em dias, senti que algo novo estava começando.