Capítulo 4 — Cercada

1073 Words
Beatrice acordou e se preparou para a sua caminhada matinal. A noite tinha sido longa. Os pensamentos sobre o encontro, sobre como faria Luca desistir, não lhe deram descanso. Levantou mais cedo do que o normal. Ainda estava cansada, mas o sono não vinha profundo. Era como se estivesse sempre em alerta. Tomou um café rápido antes que todos acordassem. Santino já estava de pé, ele sempre estava. Nunca a acompanhava na caminhada; Beatrice jamais permitiu, e o pai sempre respeitou esse desejo. — Estou indo caminhar — disse para Santino. Ele a analisou por um instante. — Acordou cedo hoje. — Não consegui dormir bem. Quando Beatrice saiu, percebeu, primeiro um carro, depois outro. A mais homens armados fortemente e espalhados ao redor da propriedade. Não eram os homens do pai, ela conhecia todos, alguns trabalhavam com o pai muito antes de ela nascer. Aqueles eram diferentes. Postura militar. Olhar treinado. Discretos demais para serem coincidência. Beatrice voltou para dentro. — Santino, tem muitos homens diferentes lá fora. — disse, tentando manter a calma. — Eu sei. São novos soldados. Ela suspirou, aliviada por um segundo, e decidiu seguir com a caminhada. Mas logo percebeu. Eles a seguiam. Não importava onde fosse. Mudava de calçada, diminuía o passo, acelerava, eles estavam sempre ali. À distância exata para parecer casual. Perto o suficiente para vigiar. Resolveu parar em uma cafeteria. Precisava confirmar. E lá estavam eles. Na porta. Olhos atentos para todos os lados. Buscando qualquer ameaça. Ela entendeu na hora. Ele. Luca havia colocado aqueles homens atrás dela. E aquela não seria uma guerra fácil. Ele tinha mais poder, mais dinheiro. Homens que obedeciam sem questionar. Beatrice voltou para casa com a revolta estampada no rosto. Foi direto ao escritório do pai. Ele estava em uma reunião, como sempre. Ela não se importou. Interrompeu sem medo do que ele poderia fazer. — Você permitiu isso? O pai já sabia. — É para sua segurança. — Faltam dois anos para esse casamento! Eu ainda sou livre! — Não está em discussão, Beatrice. — Nunca está! Ele não tem esse direito. Eu não posso nem caminhar sozinha! — Ele será seu marido. Quanto antes se acostumar com o jeito dele, melhor. — Eu não quero me acostumar! Você tem que parar! O choro veio involuntário. Aquilo era demais. O pai abaixou a guarda. — Saiam todos. Preciso de um momento. A sala esvaziou. Ele nunca a tinha visto chorar. Nem quando a punia pela petulância. Nem quando a disciplinava pelos desafios. — Beatrice… existem coisas que já não posso controlar. São exigências. E com o casamento se aproximando, ele quer a certeza da sua segurança. — Ele não tem esse direito — o choro ainda corria pelo rosto. — Me deixe falar com ele. — Não. Você precisa se acalmar. Vá para o seu quarto. Converse com sua mãe ou com Siena. Mas precisa se acalmar. Ela não respondeu. Apenas saiu. Trancou-se no quarto. Precisava pensar. Precisava encontrar uma forma de fazê-lo parar. ⸻ No dia seguinte, decidiu que só conseguiria falar com um dos homens de Luca se estivesse na rua. Saiu para caminhar. Fingiu tentar despistá-los. Mudou o trajeto. Entrou por ruas diferentes. Acelerou, depois diminuiu. Sem sucesso. Eles eram atentos demais. Ela parou abruptamente. — Chega — disse, firme. Silêncio. — Eu quero que voltem e me deixem pelo menos caminhar sozinha. Silêncio. — Eu estou falando com vocês. Eu sou a futura chefe de vocês. Um deles respondeu: — Ordens do senhor Luca. — Eu não quero saber. Se não querem problemas com ele, sumam daqui. Ou eu posso muito bem dizer que tentaram me atacar. Os homens trocaram olhares. Todos sabiam o que aquilo significava. Luca destruiria qualquer um que ousasse olhar para ela, imagina toca-la, Luca seria capaz de tirar as tripas de um homem ainda vivo. — Senhora — disse outro, mais cauteloso — não podemos deixá-la sozinha. Se algo acontecer… — Se algo acontecer, eu sei me virar — interrompeu. — E peça para Luca falar diretamente comigo. Hoje. Ela virou as costas e voltou para casa. Estava furiosa. Como ele achou que tinha esse direito? E quando achou que ela aceitaria tão facilmente? Dentro de casa, andava de um lado para o outro. Precisava falar com ele naquele dia. Ou explodiria com o coração acelerado e a raiva que a consumia. Pouco tempo depois, ele apareceu. Em um carro preto. A postura era impecável, calmo demais. Sabia que Beatrice deveria estar furiosa. Cumprimentou o pai com respeito. — Posso ter um momento com ela a sós? — No jardim — respondeu o pai. Luca assentiu. Foram para o jardim. Distantes o suficiente para a privacidade. Perto o suficiente para a vigilância. Mesmo sendo sua noiva, ele jamais a desonraria daquela forma. Precisava que tudo estivesse correto. Para a cúpula, desonra não era aceitável. Ela foi direta: — Você perdeu o juízo? Ele permaneceu tranquilo. — Estou garantindo sua segurança. — Eu não pedi. Estou segura aqui. — Não precisa pedir. Você é minha agora. E quero garantir que esteja completamente segura. Ela deu uma risada seca. — “Sua”? Você está ficando louco. Eu não sou e não serei sua. — Você foi prometida a mim. Desde então, é minha. Ela se aproximou. — Um jantar não te dá o direito de controlar minha vida. Ele a observava com atenção quase clínica. — Você acha que isso é controle? — Eu acho que você está confundindo promessa com posse. Ele inclinou levemente a cabeça. — Você não imagina o quão possessivo eu posso ser. Algo mudou no olhar dele. Mas ele não gritou. Não ameaçou. Não se impôs fisicamente. Apenas disse: — Com o casamento se aproximando, algumas coisas precisam mudar. — Daqui a dois anos. — Dois anos passam rápido. Ela cruzou os braços. — Não passam quando se está presa. Ele sentiu o peso da palavra. Mas não demonstrou. — Você será minha esposa. Precisa aprender a se portar como tal. Ela sorriu, provocadora. — Então comece esperando sentado. Um pequeno silêncio se instalou. — Luca. Mais uma coisa. Eu preciso conseguir falar com você sem ter que convocar todo o país. — Vou providenciar um celular. Entrego no nosso próximo encontro. Ela revirou os olhos. — Tenho algumas coisas para resolver. Até a próxima semana. Ela saiu sem responder, sem olhar para trás. Ele deveria estar irritado. Mas estava… Fascinado.
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