Presságios

2050 Words
Os primeiros tremores começaram em Tretagon. Partes do castelo foram destruídas pelos terremotos e a água dos chafarizes se tornou sangue como a dos rios, lagoas, poços e do mar. Presságios. Presságios que a deixaram com irrevogável culpa. Queria ignorar. Queria só ser Sarah. Queria tapar os ouvidos, vendar os olhos. Mas que tipo de pessoa seria se ignorasse o sofrimento do seu povo? Oh Deus, era pedir muito só ser Sarah? No terceiro dia, o céu de meio dia era tão escuro que era preciso que velas fossem acesas e lâmpadas a gás ligadas para que se pudesse enxergar dentro do castelo. no seu quarto, implorando perdão, Demetria se ajoelhou. Sentiu Dera roçar-se em suas pernas. E finalmente ofertou a Dera o seu dedo e seu vínculo. Dera sangrou Demetria numa mordida bem pequenina com os dentinhos afiados e o sangue escorreu e ela lambeu com a língua áspera se afastando. E o vínculo de ambas teve início. Dera então observou Demetria: “Meu pai me pediu para proteger você, mas ainda não sou forte ou cuspo fogo.” Demetria sorriu para a pequena criatura que tomaria um porte grandioso. “Está tudo bem. Até que cuspa fogo sozinha, eu te protejo. Você é filha do meu amado.” “ Então você é minha mãe, se meu pai toma a forma de homem quando humano e ele ama você, é a minha mãe.” “ Se o quiser assim, Dera” Depois Dera a deixou. Demetria estava exausta de jejuar. Ouviu o chamado da Fênix, num zumbido, fechou os olhos e sentiu o corpo estremecendo e asas gigantes atrás de si e calor reconfortante e chorou várias vezes, apoiou as mãos na cama, não ousou se virar porque queimaria seus olhos pelo fogo santo. Mas era a Fênix. Soube o que tinha que fazer. E mesmo furiosa com Deus e ainda incapaz de aceitar ser Demetria, Sarah vestiu um robe de seda por cima da camisola, foi até o quarto de Kiera e exigiu o rubi do sangue real. O escarcéu, os tapas em seu rosto, os gritos da mãe contra ela não a fizeram desistir do seu objetivo. Teria o rubi. Fez todos os criados chamarem ao rei com gritos, contudo isso foi só quando Kiera se recusou a dar o rubi a ela. Foi Alexander que mandou os servos vasculharem o magnífico aposento de sua rainha regente e em um compartimento secreto de um porta-joias velho onde havia uma miniatura do retrato do rei Luther, no fundo falso, foi Cinder que achou o rubi. Mas ela não deu nem dois passos para dá-lo a Demétria porque algo aconteceu. O brilho intenso do rubi em forma de coração e de corrente simplória de Maride e sem quaisquer pedras preciosas só aumentava e aumentava. Diante de todos o rubi voou para as mãos de Demetria e, cabisbaixa, a franja sobre os olhos cheios de lágrimas, ela o aparou com a mão direita estendida . Ela fechou o colar em suas mãos o apertando, o colocou em volta do pescoço e finalmente ergueu a cabeça, determinada, e seus olhos se encontraram com os de Kai com desespero e, ele mais uma vez a ajudou a aceitar seu destino com sua calma que transcendia eras e a deu coragem. A diminuta figura que era a moça cujo colar brilhava soltou um profundo suspiro vendo os olhares surpresos de todos e ouvindo: a rainha escolhida da lenda, a rainha de Tretagon. Os olhares estupefato não a deram prazer algum, glória alguma, nunca deram. Honra é? Era honroso ser um escolhido pelo próprio Criador? Será que o rei Davi, o rei mais amado por Deus, se sentiu assim quando seu filho com a mulher que roubou de outro homem morreu? Estar perto de Deus era uma faca de dois gumes. Propostas de casamentos fúteis, flertes, até clamores carnais de uma juventude tudo esquecido sobre o aviso de ameaça dado de alguém tão poderoso que a fazia tremer inteira. Sentia culpa agora. Sentia tanta culpa agora. E raiva. Raiva. Por que tinha que ser ela a resolver tudo afinal? Por que? Odiava profundamente essa cruz, esse fardo. Mas não deixaria que ninguém que ama se ferisse, não mais. Foi até Alexander e pediu a ele uma armadura do tamanho dela. O rei ainda intimidado pelo rubi brilhando beijou a testa dela e concordou com a cabeça apesar de não considerar realmente levar ela a uma batalha. Assim flertes esquecidos, triângulos amorosos irresolutos, prazeres supérfluos com seus amados suprimidos para a maldita responsabilidade que chamava fosse onde fosse. E visões divinas de aviso foram seu foco e voltaram cedo para assombrá-la como demônios cruéis por mais paradoxal que fosse. Será que pedir por paz era tão difícil assim? E na sala de estratégias com armaduras de antigos reis de enfeite, com um mapa numa gigantesca mesa e bonecos de guerra representando cada exército, onde estavam todos eles, Vince, Kai, Iker... os conselheiros do rei que ela desconhecia, o próprio Alexander, queriam que ela saísse. Sarah os odiou. Sarah ignorou todos eles, fechou sua mente para Kai, e fez caso da proibição de Alexander sobre sua solicitação de participar da frente do exército para a ameaça vindoura. O odiou como o maldito usurpador que era, o amou como o pai zeloso que era de Sarah, mas ele não a conhecia. Ele conhecia uma princesa, não a rainha que um dia ela foi. Claro que não conseguia controlar os elementos, mas sabia lutar. Na força bruta e física se fazia seu poder, pelo menos era o que ela achava. O odiou por ele a ter excluído por ser mulher de algo tão importante. Na madrugada foi até o estábulo pegou um cavalo junto a Kalahan que era o vigia dando um beijo no rosto do loiro que estimava, partiu. Sentiu o frio bater no rosto. Os campos férteis ficando para trás e vendo a pontinha do castelo agora. Chegou a cidade caribenha: O Porto da Fênix. Nunca foi de seguir ordens. E agora sentia escuridão, não a escuridão corrompida de Serper, não houve corrupção da luz, era só a mais pura escuridão, sem diluir-se, sem o ato de rebeldia para chamar atenção de um pai ausente. Era um ressentimento tão forte que fazia os pelos de seu braço se erguerem. Era uma forma sombria de iminente desgraça. Pressentia que algo muito pior do que Serper estava vindo. Por Deus. O que havia feito? Em que espécie de equilíbrio mexeu ao fazer um pacto com Serper? Precisava resolver, era culpa dela afinal! Ah, demônios. Quem era esse que estava vindo repleto de trevas e sem uma música melancólica de Serper que contava a história de sua queda e sua ânsia em ser anjo novamente. Esse não. Esse era raiva, ódio, inveja, solidão, tormenta... Não um anjo caído buscando a mão de Deus e uma possível redenção impossível, mas apenas o contrário da luz. No porto da Fênix havia relatos do mar se agitando em ondas tão gigantescas que cobririam em pouco tempo a cidade ribeirinha e pesqueira. E ela o viu da encosta. Aquele ser chegando, andando sobre as águas como o Nazareno da biblía que ela era obrigada a ler. Por alguma razão o odiou pela blasfêmia. Desceu do cavalo. Fez o cavalo correr mais rápido dando tapas na lombar dele para que fugisse. Kai, Alexander e Iker ainda discutindo estrátegias não sentiam como ela. Calafrios calafrios a percorreram com a imagem do longo cabelo azul, dos olhos rubros demoníacos e da falta de empatia pela face lisa com resquícios de sangue. Trilhas e mais trilhas de corpos na areia branca da praia que solvia o sangue derramado. Os cadaveres sendo devorados por gaivotas e urubus. E caminhando como um homem mas ainda sobre a água, com sua espada de lâmina vermelha, Sangre, Aldahain andava causando o caos e numa onda de poder sinistra e azul a neve caiu cobrindo os corpos que deixou para trás na praia e o mar congelava onde passava. Queria se vingar de toda a criação da divindade. Menos de seus quatro irmãos. Caminhava em direção a ela descalço, deixando pegadas na areia. O vento fazia seu cabelo azul voar. E levou a espada ao pescoço dela. Sarah afastou a lâmina dele fora do seu encanto que fazia a vítima se render a ele e implorar a morte, afastou a lâmina dele com a sua, prostrou-se com a espada que foi presente de Alexander roçando o metal na dele, e afastando a lâmina dele de seu pescoço. Aldahain riu que uma mulherzinba de cabelo curto, olhos escuros e corpo pequeno para a armadura quisesse o confrontar. Apesar do espiritual dela ser intrigante, o físico franzino ainda era só patético. Era pequena como uma criança mesmo a idade denunciada em seus olhos e corpo desenvolvido mas suave e quase pueril. Ela lutou contra ele ferozmente atacando-o sem medo. Ele enfiou a lâmina na barriga dela e ela cuspiu sangue tentando perfurá-lo. Lambeu o sangue do lábio dela e a luz o arrebatou. Sarah furiosa i atacou por baixo, e então distraindo-o fazendo menção de que ia atacar o peito dele, atacou o rosto dele e o cortou na bochecha. Ah esse ato despertou uma b***a. A puxou pelo cabelo e deu uma joelhada na cara dela quebrando o nariz que jorrava sangue e os dentes e ela riu baguela. Mas o corte e o nariz quebrado se desfizeram, os dentes renasceram e a maldita deu um sorriso sangrento. E novamente moveu a espada sem graciosidade, apenas habilidade e força bruta. Suas lâminas se encontraram e o tilintar as fez faiscar. Tentou vencê-la pela força já que ela era pequena. Mas ela segurou a lâmina dele com a sua como se gritasse que não ia morrer. Aldahain tentou novamente cortar a garganta dela, sangue jorrou sujando suas vestes negras e a armadura dourada dela de emblema de Fênix. A pegou pelo pescoço, quebrou seu pescoço de cisne, foi um som terrível. Mas o estalo de conserto, o corte dela se fechou. Furioso arrancou um braço da menina e ele cresceu de novo perante seus olhos. Fincou a espada no peito dela enfiando a lâmina fria até o coração e quando empurrou a lâmina suja de sangue fundo o suficiente para ninguém viver e, chutou para longe o pequeno corpo com o grande pé e sua força que quebraria os ossos de humanos, ela se curou e voltou a ele com sua espada de agulha. Aldahain rosnou — Por que você só não morre? O que você é? Ela se manteve quieta, ignorou ele e apenas voltou a atacar, agora com a luta pomposa de Iker que odiava, a dança do vento, concentrou seu Qui na espada, ofegante. Se moveu sumindo e aparecendo no ar. Direita, esquerda, baixo, cima, pés numa dança elegante apesar de golpes mortíferos e rápidos como um vendaval, ela o cortou em pontos vitais. E ele ainda estava indignado com aquela coragem. Era um diferente estilo de luta, mística não física, era uma dança quase sedutora, uma hipnose e ela sumia e aparecia no ar, mas ele era mais experiente. E Demi rasgou a túnica n***a dele somente e machucou pouco do seu braço. Pegou a espada dela com a mão. A quebrou sem dificuldade achando que a afugentaria, mas ela sacou uma adaga do cinto e levou a garganta dele a rasgando, ele se curou, mas a odiou tanto tanto. Os olhos escuros dela se encontraram com os olhos rubros dele poderosos e sem temor que a espada dela estivesse estilhaçada. E então, enquanto se encaravam depois de terem tentado matar um ao outro, os olhos dela captaram nele um foco mínimo de luz, as lágrimas dela desceram. Só que a luz foi travada pela escuridão. Por que as lágrimas desceram? Ela se afastou, as enxugou, atordoada, por um momento. Lágrimas e mais lágrimas. Nessa distração sentimental de Demi, ele enfiou a lâmina da espada dele nela, no coração, e dessa vez não tirou a lâmina que transpassou a coluna e feriu passou a armadura para que ela não se recuperasse da ferida ao constatar que ela era imortal. E na terra recém conquistada de Porto De Fenit, por cima de cadáveres, erguendo-a do chão, a Desgraça ornou um castelo.
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