Brenda
O clima era leve entre Matheus e eu e isso era, sem sombra de dúvidas, algo que me agradava. A possibilidade de, no fim das contas, nos tornarmos amigos, me fazia entender que toda essa loucura tinha um porquê. E eu sempre fui muito de procurar sentido nas coisas, de atrelar razões para cada acontecimento. Isso, de certa forma, me poupou de muitos sofrimentos, porque eu sempre estive lá, acreditando que as coisas estão seguindo o melhor curso possível, mesmo quando elas parecem se desenhar da pior maneira de todas, para mim. A frustração é natural, mas encarar as coisas dessa forma me fez conseguir me livrar dela em muitas situações.
E bem, aquela semana, que se iniciou exatamente assim, frustrada, acabou por se desenhar de uma maneira muito positiva. Na terça-feira, dia quatro, eu fui a motorista da rodada e fui até o apartamento de Matheus, buscá-lo para que, mais uma vez, chegássemos juntos ao trabalho. Também encontramos Tuane ainda na garagem e, dessa vez, tive a sensação de que ela parecia um pouco mais desequilibrada do que na noite anterior, mas ela não nos dirigiu a palavra, para a nossa sorte.
Com o recesso de fim de ano, que era dado por Marcos a todos os funcionários, chegando, eu passaria os dias úteis de dezembro atolada de trabalho, tentando me adiantar para não sair no prejuízo, nem precisar me m***r de trabalhar, quando voltássemos ao escritório, em janeiro.
Eu tinha alguns projetos em andamento e, não importava quão grandiosos eles eram, queria conseguir finalizar todos até o início do período de férias coletivas. Passei aquele dia inteiro dentro da minha sala, tentando organizar as minhas ideias e tocar os trabalhos para frente.
Não fui eu quem dei carona para Matheus, na volta para casa. Ele me mandou uma mensagem na metade da tarde, dizendo que seus afazeres para aquele dia já tinham acabado e que ele acompanharia João Pedro ao hospital, porque seu amigo estava com uma forte crise de enxaqueca, que ocasionou um desmaio.
Prontamente mandei uma mensagem para Fernanda, alertando que o seu encontro da noite anterior estava com problemas e de repente ela poderia ajudar. Fiquei sabendo que, na noite anterior, quando estavam em um restaurante que somente ela conhecia, o cara pediu para que ela escolhesse o seu pedido e o surpreendesse.
Acontece que creme de leite é um dos principais causadores das crises de enxaqueca de João Pedro e Nanda havia escolhido para ele um delicioso estrogonofe de camarão, já que sabia que ele era apaixonado por frutos do mar. Parece que o coitadinho ficou super sem graça de dizer que já vinha enfrentando a cefaleia há alguns dias, sem que os remédios fizessem efeito, e mandar mais “veneno” para dentro não parecia uma boa escolha.
Ele comeu sem reclamar e só revelou o problema depois de ver o prato vazio em sua frente, mesmo assim, só admitiu porque as dores passaram a causar um formigamento pelas suas mãos. Nanda o levou em casa e pediu para que ele avisasse, caso sentisse qualquer coisa e precisasse de ajuda, mas JP achou que já estava recuperado para trabalhar no dia seguinte, o que, bem, não foi o que aconteceu.
Não sei exatamente até onde ia o novo relacionamento da minha amiga, mas sei que, acabado o expediente, ela me pediu para levar Mariana para a minha casa e foi atrás de João Pedro e de Matheus, no hospital.
Levei minha afilhada comigo e, descobrindo que na noite anterior ela tinha feito Marcos (esse mesmo, o nosso chefe) dar uma carona para ela, porque sua mãe só aceitou ir a um encontro se sua filha não precisasse voltar para casa de ônibus, na perigosa escuridão da noite, pedi um sushi para a gente comer e passei o fim daquele dia queimando umas calorias na academia, para depois subir e acabar com tudo o que tinha feito, assistindo a um filme e comendo sorvete com Mari.
Na quarta de manhã, acordei com um delicioso café da manhã, preparado pela minha afilhada. Toda vez que eu a hospedava em minha casa era a mesma coisa, ela me enchia de comida, da mesma forma que a minha avó fazia, quando eu ia a Petrópolis.
Eu já tinha avisado para Matheus que não iria com ele naquele dia, porque deixaria Mariana na escola. Assim fiz, dirigi primeiramente até o bairro em que ela estudava, deixando-a lá. Ainda era cedo e Mari fazia o caminho entre o colégio e o escritório, onde trabalhava como jovem aprendiz, de metrô. Depois de deixá-la lá, aproveitei para passar no supermercado e comprar algumas coisas que estavam faltando na minha dispensa e que poderiam ficar, sem problemas, dentro do meu carro até o fim da tarde.
Foi mais um dia pesado de trabalho, no fim da manhã, meus olhos já estavam revirando de cansaço. Fui almoçar com Raíssa, Fernanda e Mariana e, para a minha surpresa, nosso chefe, Matheus e João Pedro também estavam incluídos na nossa programação.
Ninguém ousou tocar em nosso acordo, enquanto comíamos. Não sei se estavam todos envergonhados de falar sobre aquilo fora de nossos grupos de amizade (o que não acredito, pelo menos não vindo de Raíssa, a pessoa mais cara de p*u que eu conheço) ou se era porque aquele restaurante era o mais próximo do escritório e acabava sendo frequentado por grande parte dos funcionários, então todos conhecíamos os garçons, além de sempre surgir algum conhecido, quando menos esperávamos. Naquele lugar, as paredes tinham ouvidos.
Não tive muito tempo de falar com Matheus naquele dia, mais uma vez. Apenas nos sentamos ao lado um do outro, para que, dependendo de quem passasse por ali, conseguisse nos enxergar como um casal e não sair por aí espalhando notícias que nos prejudicariam.
Voltei para casa sozinha, naquele dia. Mas antes de rumar ao meu apartamento, aproveitei para passar no shopping que ficava perto do trabalho e comprar algumas coisas que eu estava precisando e que queria levar para a viagem.
Na quinta, fui e voltei com Matheus. Nós havíamos decidido que conversaríamos sobre a minha família e os detalhes do nosso plano no caminho de ida para Angra, assim, as informações ficariam frescas em sua mente. Então, evitando falarmos sobre o nosso relacionamento falso, acabamos por partilhar nossos gostos um com o outro. Descobrimos que somos fãs dos mesmos atores, adoramos o mesmo estilo de livros, filmes e séries (as amadas e clichês comédias românticas) e que temos um gosto musical muito parecido.
Parecia bobeira conversar sobre isso, quando havia tanta coisa mais importante, que deveríamos aprender um do outro, para fazer esse acordo dar certo e as pessoas não desconfiarem. Acredito, porém, que criar uma relação de amizade era uma parte indispensável de tudo isso, criar um clima leve, ter i********e, se sentir à vontade. Tudo isso só surgiria se tivéssemos momentos exatamente como aqueles. Além do mais, aqueles detalhes também eram importantes para o nosso plano: como conseguiríamos entender e conhecer os sentimentos mais profundos um do outro, os segredos familiares, os podres, os traumas e tudo isso, se não tivéssemos tempo e curiosidade de saber as coisas mais básicas, sutis e fúteis?
No caminho de volta, assim que saímos do trabalho e antes que qualquer assunto pudesse surgir, passamos por uma barraquinha de cachorro-quente (ou o famoso podrão, como chamamos no Rio de Janeiro) que me deu água na boca. Comentei com Matheus, completamente sem intenção ou esperanças que ele parasse, mas sem que eu precisasse pedir, apenas dizendo que fiquei com vontade, ele encostou o carro e me chamou para descer e comer com ele.
Tivemos um momento muito divertido, falamos de trabalho, das pessoas que convivem conosco e até mesmo compartilhamos algumas opiniões polemicas sobre o nosso modo de pensar e com relação a algumas das pessoas que dividem escritório com a gente.
O assunto foi fluindo, acabamos conversando bastante sobre as nossas experiências escolares e os nossos tempos de faculdade. Matheus era um cara muito legal, tinha um papo tranquilo e era ajuizado. Não achava que ele fazia muito o meu tipo, porque eu tinha dedo podre e só atraia, e me sentia atraída, por garotos problemas. Vai ver era por isso que nenhum dos meus relacionamentos tinha dado certo, porque invés de eu me apaixonar pelos bonzinhos, sempre fazia o caminho errado e acabava querendo os homens mulherengos e que eu sabia que não valiam nada.
Não comentei nada com ele, sobre isso, obviamente. De qualquer maneira, sabia que não podia ter encontrado cara melhor, para me ajudar com o meu plano infalível. Além de que, por ser algo mútuo, nenhum de nós dois sentia que estava fazendo caridade, assim como também não achávamos que estávamos prejudicando o outro por colocá-lo em uma situação como aquela, justamente porque nós dois precisávamos um do outro. Além disso tudo, Matheus era um pouco do que minha família sempre esperou e quis que eu encontrasse, mas achou que eu nunca conseguiria por conta do meu bendito m*l gosto. Seria uma forma de tranquilizar meus pais, irmãos e avós, quanto a minha escolha de parceiros. Mas ao mesmo tempo, seria um t**a na cara de tia Sandra, principalmente, que acha que só a filha perfeita dela sabe escolher bem.
E ainda assim, não era que eu estava desejando algo r**m não, longe de mim. Mas tinha algo muito estranho no relacionamento de Maria Rita (filha de tia Sandra) e Fabrício. Nunca seria eu a levantar essa bandeira, mas ela parecia não ter muita voz ali dentro do relacionamento e eu me preocupava com como as coisas correriam para ela, com o passar dos anos.
Matheus me deixou em casa no fim daquela noite e eu, me sentindo mais leve por ter adiantado o que precisava dos meus trabalhos e encontrado um tempo para jogar conversa fora. Ele tinha me dito que já tinha encontrado um tempo para ir fazer as suas compras das roupas que ele precisava, na noite anterior, mas falou que teria que ir logo para casa, porque ainda precisava arrumar as suas malas, já que amanhã partiríamos direto do trabalho.
Combinamos de ir com o meu carro e marquei de pegá-lo, junto de suas malas, para irmos juntos para o escritório, na manhã seguinte. Eu também precisava fazer as minhas malas, então aproveitei que já tinha comido e organizei o que levaria, conseguindo dormir cedo.