Capítulo XVI

1697 Words
Matheus Sexta-feira havia chegado e isso anunciava mais do que o fim de semana, mas também a minha viagem com a família de Brenda. Ela me buscaria em meu apartamento pela manhã e seguiríamos viagem logo após o expediente. Não eram muitas horas de viagem até Angra, mas naquele dia, acordei um pouco mais cedo, tomei um banho fresco e com calma, eu era um homem vaidoso e normalmente tirava um dia do meu fim de semana para cuidar melhor de mim, mas como passaria o sábado e o domingo longe do Rio, escolhi abrir mão de algumas horas de sono para fazer aquilo logo na sexta. Removi os pelos do meu corpo, porque sinceramente, não era um fã deles. Detestava me sentir como se eu fosse um lobisomem. Sentia coceira e pinicava, ainda mais durante as estações mais quentes, então fiz questão de raspar até a barba rala que eu andava nutrindo. Como não teria tempo de ir ao barbeiro, dei um jeito na minha sobrancelha, aparei o meu cabelo, como aprendi a fazer durante a pandemia, apenas para segurar as pontas por mais um tempo, resolveria ele antes do Natal, para parecer bem apresentável para toda a família de Brenda e porque gostava de estar impecável na época do fim do ano. Aparei com a máquina as laterais do cabelo e cortei dois dedos da parte de cima, que acabava caindo para o lado e que já estava começando a ficar grande demais. Peguei meus objetos de higiene pessoal, guardando-os em uma necessaire e colocando-os dentro da minha mochila. Eu sempre a levava para o trabalho, mas naquele dia, em especial, ela estava um pouco mais pesada por conta dos meus aparelhos eletrônicos, carregadores e mais uns objetos pessoais que levaria para a viagem. Puxei a minha mala de mão, com as coisas que eu precisaria, até a porta e apoiei a mochila em cima dela. Segui para cozinha, preparando para mim mais uma das receitas de cafés da manhã saudáveis e cheios de frutas e nutrientes. A minha mala já estava consideravelmente cheia, para uma viagem de poucos dias (ainda mais para a praia, onde quase não usávamos roupas além das de banho e as muito leves), então não queria precisar levar mais uma muda para trocar no escritório, antes de pegar a estrada. Optei, então, por me vestir com uma calça de brim branca, que não era a mais fresca de todas, mas daria conta do dia, dentro do ar-condicionado. Vesti uma blusa de malha, mas acabei me sentindo desarrumado demais para um dia no escritório e a troquei por uma de botões e listras, em preto e branco, que era de manga curta e me obrigava a usar uma regata clara por baixo. Calcei os meus tênis brancos, únicos que eu levaria para Angra e então percebi que eu tinha demorado um pouco mais para escolher como me vestir, naquele dia. Olhei meu celular, Brenda tinha me avisado que estava me esperando há cerca de cinco minutos. Não queria fazê-la passar muito tempo apenas me aguardando, por isso, me apressei a fechar todas as janelas do meu apartamento, trancar a porta e descer pelo elevador. O porteiro me avisou que “minha namorada” já estava me esperando, lá na frente. Parece que a nossa farsa estava dando certo, pelo menos superficialmente. Entrei no Jeep Renegade de Brenda lhe dando essa boa notícia. —Espero que a gente também consiga enganar quando abrirmos a boca para falar— foi a primeira coisa que ela me disse naquele dia, com um sorriso no rosto. Brenda parecia radiante dentro daquela calça verde e branca, larga e com estampas e blusa também branca, acho que estava mais animada do que o normal, justamente por estar prestes a encontrar a sua família. Brenda tinha os cabelos presos em um coque baixo, seus fios loiros eram muito longos e seu cabelo era encorpado do início ao fim, tanto quando estava liso, quanto quando parecia naturalmente ondulado. Me perguntava como ela conseguia amarrá-los em um coque não tão grosso e quanto tempo ela gastava cuidando de seus fios, porque eles não ficavam mais finos conforme caiam pelas suas costas. —O que foi? Consigo ouvir as engrenagens enferrujadas na sua cabeça— ela disse, quando percebeu que eu estava a encarando fazia algum tempo. —Você é naturalmente loira? —perguntei, do nada. —Não, mas meu cabelo é castanho claro e tem tendencia a abrir para o loiro dourado, por causa do sol. Mas ele é dessa cor porque minha mãe descoloriu para mim. —Há, esqueci que sua mãe é cabeleireira! Isso explica o porquê de seu cabelo ser muito bem cuidado! —Obrigada pelo elogio, eu acho! E você, cortou o seu? —Eu tentei dar um jeito, não tive tempo de ir ao barbeiro. Se tivesse me lembrado que a minha sogra é cabeleireira, teria pedido para ela cortar para mim... —Está treinando chamar meus pais de sogro e sogra? —ela voltou a me questionar. —Nos conhecemos a tão pouco tempo e acho que você já sabe muito de mim, Brenda! —Então eu acertei, não é? —É. Talvez, se eu ficar chamando-os de sogro, sogra, cunhado e por aí vai, na minha mente, pareça mais fácil e natural chamá-los assim, em voz alta, quando eles estiverem na minha frente. —Então acho melhor você começar a me chamar de namorada, amor, paixão, bebê e qualquer outro apelido clichê que você consiga inventar. —Está deixando essa responsabilidade toda em minhas mãos? E se eu criar um apelido que você odeie, mas o usar pela primeira vez na frente de seus pais e você sentir vontade de jogar uma melancia na minha cabeça? —Você é criativo, Matheus! E não se preocupe, não vou ser muito exigente, me considero pouco problemática. E não vou querer jogar uma melancia na sua cabeça, não se preocupe! —Ufa— falei. —Está mais fácil querer te atropelar com um caminhão. A melancia pode não ser eficaz o suficiente— Ela disse, claramente brincando. Gargalhei, antes de falar: —Isso me deixa bem mais tranquilo, Brenda. Acho que vai ser super fácil conviver contigo, desde que eu não faça nada de errado, é claro. —Qual é, surpreendentemente nos damos bem e temos uma certa harmonia, não acho que vai ser tão difícil assim. —Sendo honesto e falando sério, agora, também acho que não. Imaginei que ficaria pisando em ovos, sem saber o que dizer e sem nenhum pingo de i********e. —Aquele climão estranho, né? Também pensei que ele fosse reverberar por pelo menos algumas semanas— ela admitiu, parecendo feliz pelas coisas terem acontecido de forma diferente. —E seus pais vão ter que passar aqui pelo Rio, não é? Eles vão nos encontrar aqui? —Primeiro eles falaram que iriam sair no início da tarde, então passariam aqui bem antes da gente sair do trabalho e acabariam chegando lá em Angra bem mais cedo, mas depois mudaram de ideia e decidiram sair no fim da tarde, então acredito que já vamos ter saído do Rio, quando eles passarem por aqui. Vamos acabar chegando lá cerca de uma hora e meia a duas horas antes deles. —Isso é bom, assim teremos mais tempo para nos preparar. —Sim, vamos atualizar e relembrar as nossas histórias durante a viagem, para não ficar nenhuma ponta e nem sermos pegos de surpresa. Mas a minha família é bem tranquila, meus irmãos vão acabar questionando um pouco de você, da sua vida particular, de seus pais, porque eles são mais preocupados e ciumentos, vão querer ter certeza de que você é uma boa pessoa. Agora, não acredito que vão perguntar muito sobre o nosso relacionamento, em si, sabem que trabalhamos juntos e isso já fala por si só, o máximo que vão fazer é perguntar a quanto tempo estamos juntos e outras coisas bem superficiais. É para o Natal que devemos nos preparar melhor, porque meus avós são as pessoas mais fofoqueiras que eu conheço, adoram saber de cada detalhe da minha vida, na melhor das intenções, e minhas tias Sandra e Solange vão querer investigar tudo, procurando qualquer furo. —Então acho que esse fim de semana vai ser um bom treino, vamos poder colocar a nossa atuação em prática em um momento mais tranquilo e sem tanta pressão. Sem falar que, chegando em Petrópolis, para o Natal, já conhecendo uma parte de seus parentes, ainda mais sendo os com laços sanguíneos mais próximos, vou me sentir mais confiante e seguro para estar, e mentir, para o resto de seus parentes. —Tente conquistar os meus irmãos. Se conseguir fazer isso, te garanto que eles te defenderão com unhas e dentes de qualquer acusação das minhas tias. Esse foi outro motivo para eu confirmar a sua presença nessa viagem, porque agradar mesmo eu quero aos meus pais e irmãos, ao resto da minha família, eu só quero mostrar que não estou solteira, esfregar na cara mesmo, mesmo que seja uma mentira, mas na realidade, não estou nem aí para a aprovação deles com relação ao meu relacionamento. Quero ver meus pais satisfeitos, meus irmãos tranquilos, como sei que no Natal vai ser uma confusão e talvez eu possa passar uma impressão errada, como talvez lá a gente precise usar de mais métodos e argumentos, mesmo que não sejam os mais justos, nada melhor do que passar a melhor impressão possível para a parte da minha família que eu realmente quero agradar, antes. Isso sem contar a parte em que você vai ter gente para te defender, vamos nos sentir mais seguros mentido e tudo isso. —Estou tentando dividir o meu nervosismo. Uma parte para hoje, outra parte para o Natal. Não quero surtar de nervoso e nem sentir medo de dar errado, mas saber que não é uma coisa de uma ou duas horas, mas de dias, me deixa um pouco ansioso. —Sinta o nervoso que sentiria se fosse um relacionamento de verdade, está indo conhecer a família de sua namorada. Ponto, vamos agir como se fosse um relacionamento normal.
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