Capítulo XVII

1701 Words
Brenda Passei mais um dia de trabalho sem cruzar com Matheus, nos corredores do escritório. Tudo bem, cumpríamos funções muito diferentes, trabalhávamos em uma empresa de Publicidade e Marketing, eu era formada em Publicidade e Propaganda, portanto estava em um cargo de prestação de serviços. Atendia clientes, desenvolvia projetos, me reunia com a equipe para compartilhar ideias, traçava projetos e trabalhava com a parte criativa da coisa. O serviço de Matheus era estrutural, igualmente essencial, mas vindo de outra base. Qualquer empresa média ou grande que desejasse se desenvolver no mercado, que quisesse estar em harmonia com os seus funcionários, precisava manter um departamento de Recursos Humanos bem composto e desenvolvido. Raíssa fazia um trabalho exemplar na frente do setor e, sendo sua amiga, posso garantir que apesar de ser um trabalho pouco valorizado dentro dos escritórios, visto como menos necessário, era extremamente árduo e detalhista. Quanto ao meu falso namorado, não sei se Marcos sempre prezou em manter serviço psicológico disponível, em todos os seus empreendimentos, mas sei que para nós funcionava muito bem e contribuía para um ambiente de trabalho respeitado. Trabalhando aqui, éramos ouvidos e tínhamos as nossas necessidades atendidas, graças a maravilhosa equipe dedicada somente ao nosso bem-estar. E eles trabalhavam, realmente, em prol disso, porque aqui não éramos instruídos a nos tornarmos sanguessugas, era um ambiente de trabalho humanizado. Por toda a divergência de funções, eu pouco esbarrava com Matheus, o que justificava os anos em que trabalhamos na mesma empresa, sem ao menos nos conhecermos. Mesmo assim, em todas as manhãs que chegamos juntos, subíamos junto com Tuane, o que me deixava um pouco mais tranquila, porque eu tinha medo de que o plano só estivesse funcionando para mim e que eu pudesse estar sendo desatenta quanto a atuação dentro da empresa. Naquele fim de tarde de sexta-feira, porém, tudo pareceu se encaixar perfeitamente em nosso favor. Descemos junto com Fernanda, Mariana e Tuane, sim, ela conseguiu se enfiar na caixa metálica, segundos antes das portas se fecharem, parecendo ansiosa para ir embora dali. —Você é quem vai dirigindo? —a minha melhor amiga me perguntou. Fiz que sim com a cabeça, enquanto os andares desciam— Dormiu bem essa noite? —Muito bem, não se preocupe! —Acho que você esqueceu da prancha, madrinha— Mariana me falou, fazendo Matheus levantar as sobrancelhas, ao nosso lado. —Meu irmão vai levar uma nova para mim, por isso não estou levando— falei, dando de ombros. —Curtam Angra por nós— Fernanda começou a dizer e Tuane não disfarçou o seu olhar em nossa direção. — E Matheus, fale para a mãe da minha madrinha dar um jeito no pé do seu cabelo, porque não sei em que barbeiro você foi, para arrumar um corte torto desse jeito— Minha afilhada disse. —Mariana! —sua mãe a reprendeu. Coloquei a mão no pescoço de Matheus, fingindo i********e e girando um pouco a sua cabeça, até ter a visão de sua nuca e perceber que as coisas não estavam tão perfeitas por ali. —Até eu resolvo isso, rapidinho— falei, afinal de contas, não era possível que em anos praticamente vivendo em um salão de beleza, durante a minha infância, eu não tenha aprendido nada. As portas do elevador finalmente se abriram na garagem e eu me despedi das duas, avisando que voltaria para casa no domingo a noite e que elas nem sentiriam a minha falta. Tuane deu mais algumas passadas junto com a gente, em completo silencio, porque o seu carro estava próximo do meu. —Seus pais já saíram de casa? —Matheus me perguntou assim que eu entrei no carro e passei o cinto de segurança pelo meu corpo. —Vou ligar para eles, para perguntar— falei, enquanto olhava para o banco traseiro, apenas parar para pensar se eu tinha pegado tudo o que precisava. Coloquei a minha bolsa no banco do meio, na parte de trás, ela era um pouco maior das que eu usava para trabalhar normalmente, mas foi a escolha perfeita para acrescentar a minha necessaire de produtos pessoais e outra de maquiagem, já que eu passaria o fim de semana fora. —Eles vão mesmo pegar a Ponte Rio Niterói? Porque, se não me engano, tem um caminho da Região dos Lagos até a Costa Verde que não precisa passar pelo Rio. —É que esse é o caminho que eles conhecem melhor e, como pensaram na possibilidade de esbarrarem comigo por aqui, se planejaram a vir por esse. O tempo para eles é praticamente o mesmo, passando por aqui, Itaguaí e Mangaratiba, é o caminho que nós vamos fazer, também— falei, finalmente tirando o carro do estacionamento. —Eles vão vir em dois carros, no de Bento e o do meus pais, então devem ter passado em Saquarema para buscar Benício. —Será que chegamos lá em três horas? —Ele questionou, olhando para o relógio em seu pulso. Encarei o painel do carro, era cinco e meia da tarde. —Acho que sim, de repente até mais cedo— dei de ombros— Vou ligar para eles— falei, apertando os botões da multimídia e chamando pelo número do telefone da minha mãe, já que provavelmente era o meu pai que estava dirigindo. —Oi filha! —ela deu um gritinho animado, do outro lado da linha. —Oi mãe, você está no vivo a voz— Já avisei logo, para que eles não falassem nada constrangedor. —Que bom, porque você também! Eu, seu pai e Brenno estamos aqui. —Ainda não buscaram Benício? Ou ele vem sozinho? Eu e Matheus já saímos do trabalho e eu já estou dirigindo. —Ainda não conseguimos chegar em Saquarema. A rodovia está em obra, os carros m*l andam— meu pai explicou. —E Bento está vindo direto? —perguntei. —Ele saiu de Búzios depois de nós e ia nos encontrar na casa de Benício, mas com esse trânsito, mandamos ele ir na frente, por causa das crianças e para Laura não ficar muito tempo com as pernas para baixo, ela anda inchando— Foi minha mãe quem falou, mais uma vez. —Laura acabou de me mandar uma mensagem dizendo que eles estão passando por Rio Bonito agora, mas que é para você ir na frente, Brenda— Brenno, meu irmão caçula, me instruiu. —Ok. Vou me adiantar até para pegar as chaves da casa e tudo isso, para quando eles chegarem com as crianças, tudo já estar resolvido. Vão me dando notícias, quando conseguirem buscar Benício. —Tá bom. Nos avise quando chegar em Angra, dirija com cuidado e tenham uma boa viagem— Meu pai foi quem falou comigo, dessa vez. —Obrigada, amo vocês! —desliguei a chamada, após ouvir suas respostas. —Eu não falei absolutamente nada, será que eles estão achando que eu sou um m*l-educado? —Matheus se questionou, ao meu lado. —Relaxa, qualquer coisa eu digo que você estava dormindo. Agora, acho melhor relembrarmos os detalhes do nosso relacionamento falso— falei. E foi exatamente isso que fizemos pelos próximos cento e cinquenta minutos. Enquanto a noite caia e eu mantinha os meus olhos muito atentos na estrada, para que não nos colocasse em qualquer tipo de perigo, já que as carretas pareciam correr mais que o normal, naquele dia, repassamos cada detalhe do nosso plano. Como nos conhecemos, quando foi o nosso primeiro esbarrão por aí, o primeiro encontro, o primeiro beijo, o pedido de namoro. Relembramos detalhes sobre a vida um do outro que, com certeza, um casal de namorados saberia, como alergias, comentos marcantes na infância, na faculdade, questões familiares, sonhos... Era tudo um compilado de informações que queríamos não precisar usar. Sinceramente, eu não achava que iríamos, pelo menos não naquele fim de semana, com meus pais e irmãos que, honestamente, sinto que preferiam não saber de certos detalhes pessoais. E eu também preferia que não soubessem, porque montamos uma história que faria todos acreditarem, não a que era mais agradável para os ouvidos, então se alguém fosse descarado ao ponto de perguntar quanto tempo demoramos para irmos parar na mesma cama, responderíamos que aconteceu logo no primeiro encontro. Para nós, seria mais importante mostrar que tínhamos uma química explosiva e que m*l conseguíamos nos segurar, perto um do outro, do que parecermos frios (não só por esse não ser um traço genuíno de nossa personalidade, mas porque seria mais fácil de desconfiar que tinha algo de errado naquele relacionamento com tão poucos toques). Entendi, naquele momento, que era muito mais fácil fingir dentro da empresa. Era cotidiano, diário? Sim, mas era apenas por algumas horas e em um ambiente profissional, onde não ficaríamos nos tocando, nos agarrando, nem se estivéssemos em um relacionamento falso. Mas nossas famílias? Essas sim buscariam por momentos românticos e faíscas. Em duas horas e meia de estrada e muita conversa, finalmente chegamos ao nosso tão esperado destino: Angra dos Reis. Meus pais tinham gostado de uma casa, um airbnb, que ficava em um condomínio com acesso a uma praia privativa. Na verdade, todos gostamos da ideia, pela estrutura da casa e do condomínio em si, para as crianças, da proximidade com o mar e é, claro, pela segurança de estarmos em um local monitorado. A casa era toda tecnológica e a maçaneta era digital, mas mesmo assim, assinei alguns papéis de entrada e saída do condomínio, na portaria, antes de finalmente adentrar e procurar a casa alugada por nós, pelas ruas que pareciam todas iguais. Quando finalmente encontrei a construção de dois andares, que misturava os estilos moderno e praiano, bem de frente para o mar, abri um sorriso e encarei Matheus, que parecia igualmente satisfeito. Estacionei o meu carro logo de frente para a casa e saí do veículo, sentindo o vento, a brisa, a maresia e tudo o que eu mais amava no mundo. —Bem, acho melhor explorarmos a casa, contarmos a quantidade de quartos e escolhermos o melhor para nós. Também precisamos pedir comida, porque com certeza todos vão chegar morrendo de fome— falei, olhando a senha no celular e desbloqueando a porta de entrada.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD