Matheus
Fazia cerca de dez minutos que tínhamos entrado na casa alugada pela família de Brenda para passarmos o fim de semana. Eu não tive muito tempo de observar o primeiro andar, porque a minha falsa namorada logo me puxou lá para cima, junto com as nossas malas, dizendo que todos os quartos ficavam lá e que precisávamos analisar a situação.
Ela disse que a casa havia passado por uma reforma recente e que as fotos no aplicativo de aluguel de casas para a temporada eram anteriores a essa mudança, portanto, tudo o que ela sabia sobre a reestruturação dos cômodos, era pelo que ela havia conversado com o proprietário, mas não por fotos.
Em nossa busca, por entre os cinco quartos, identificamos na porta do fim do corredor, a suíte presidencial, com chuveiro e pia dupla, banheira, cama king, sacada lateral, que dava a visão perfeita para a piscina da casa e tudo mais o que se tinha direito. Nada mais justo do que esse ser o quarto dos pais de Brenda, durante a nossa curta estadia.
Encontramos outro quarto com cama king, logo em seguida. Ele era menor e ficava na parte de trás da casa, não tinha banheiro e seu armário era pequeno, porque a cama já tomava uma boa parte do espaço. Brenda nomeou aquele como o quarto de Bento, seu irmão mais velho, e Laura, sua cunhada. Ela estava grávida, então espaço extra na cama não seria nada m*l, ainda mais se as crianças decidirem se infiltrar no meio de seus pais, bem no meio da noite.
Naquele mesmo lado do corredor, havia mais duas portas. Todos aqueles três cômodos davam para o fundo da casa, portanto, sem sacada para não invadir a privacidade do vizinho de trás. Ali estavam localizados um banheiro espaçoso, para os dois quartos daquele lado, que além da falta de sacada, também não tinham banheiros, e um quarto infantil, com área de brinquedos e duas daquelas caminhas pequenas, com grade de p******o para que eles não caíssem enquanto dormiam. Era óbvio que aquele quarto seria de Bella e Benjamin, sobrinhos de Brenda e filhos de Bento e Laura.
Faltavam duas portas, do outro lado do corredor. Cada uma delas nos levou para suítes, com sacada e uma vista de tirar o folego para o mar em nossa frente. Uma delas contava com um beliche e, apesar de parecermos tentados a nos hospedarmos naquele quarto, que seria mais confortável para nós dois, sabíamos que todos estranhariam se escolhêssemos um quarto que nos obrigasse a dormir em camas separadas, havendo outro disponível com uma cama de casal. Por isso, sem sobrar muita escolha e nos acostumando com uma possibilidade que não aconteceria só hoje, mas em todas as vezes em que tivéssemos que dormir no mesmo cômodo, por conta da farsa, optamos por nos hospedarmos no quarto com a cama de casal, pelo bem do nosso namoro falso.
—Você pode dormir na cama, tem um colchonete dentro do armário e eu fico com ele, eu me deito aqui do lado— Brenda me falou, assim que entramos no quarto que íamos dividir e começamos a organizar as coisas. Passaríamos pouco tempo para haver necessidade de desfazer as malas, então estávamos apenas deixando-as abertas em um canto que não atrapalharia a passagem.
—Isso está fora de cogitação, Brenda! Eu realmente não me importo em dividir a cama contigo, somos adultos, sabemos nos comportar e não vamos poder escapar disso em outros momentos. Não temos como garantir que vamos arrumar um colchonete na casa dos seus avós, por exemplo! De qualquer forma, se você ficar incomodada em dividir a cama, eu durmo no chão e você fica com ela, sem problema nenhum!
Antes que Brenda pudesse me responder, o interfone tocou no andar de baixo e ela precisou sair correndo para receber as pizzas que tinha comprado para o jantar. Ela gritou o meu nome, me chamando para comer, segundos depois.
—Bento ainda vai demorar mais de uma hora para chegar, Laura mandou a gente ir comendo— ela falou, lendo uma mensagem no celular. Olhei para a pilha de seis caixas de pizza e peguei a de calabresa para a gente comer, enquanto ela ia atrás de copos para o refrigerante.
—Não está muito gelado, mas acho que dá para beber sem gelo— eu falei, servindo os nossos copos, enquanto eu puxava uma fatia de pizza de dentro da caixa e apoiava em seu prato.
—Tudo bem, a parte da gente dividir a cama. Não tinha parado para pensar sobre como será a organização no Natal— ela falou.
—A casa dos seus avós deve ser enorme, para abrigar tanta gente.
—Na verdade, eles moram em um apartamento pequenininho, em Petrópolis. A gente até deve passar algumas horas por lá, não sei se vamos esperar o resto da família ou algo do tipo.
—E para onde vamos, depois? Seus avós alugaram algum lugar, também?
—Quando o meu avô se aposentou, a família estava começando a crescer consideravelmente. Eles moravam na mesma casa onde minhas tias e minha mãe tinham crescido, mas estava se tornando grande demais para apenas eles dois e pequena demais para receber a família. Eles decidiram vender a casa, comprar um apartamento pequeno e investir suas economias em Itaipava, um distrito de Petrópolis. Eles compraram uma propriedade grande, como um sítio, com vários chalés e decidiram montar um hotel. Há uma casa grande, no meio, onde funciona o restaurante que serve as refeições inclusas nos pacotes que eles fazem e toda a parte de recepção e administração. Eles contrataram funcionários e, meus avós mesmo, só vão para lá aos fins de semana. Não é nada extraordinariamente grande, mas é o suficiente para gerar uma renda extra para eles e para acomodar toda a família, nessas ocasiões. São quinze chalés no total, se eu não estou enganada. Alguns ainda acabam ficando vazios, porque eles sabem que a família vai continuar crescendo, então planejam aumentar conforme a nossa necessidade, para que sempre haja espaço para todos, nas comemorações familiares.
—Isso é incrível, deve ser muito legal ter uma família grande. Eu até tendo uma, mas está tão longe de mim, literalmente em outro continente, que é difícil sentir todo esse aconchego familiar, mesmo quando estamos fisicamente próximos.
—Eu não consigo me imaginar sem estar cercada de gente, mesmo que isso às vezes me irrite!
—O ponto chave é que você, além de ter tias, primos e avôs, ainda tem três irmãos e sobrinhos, tudo isso me parece exaustivamente divertido.
—Essa é a definição perfeita, Matheus. Exaustivo, muitas vezes estressante e confuso, mas acolhedor e divertido, na mesma proporção. Agora, como você se sente? Acredito que Bento e Laura já estejam chegando, com as crianças, e não deve faltar muito mais tempo até que meus pais também cheguem, com Benício e Brenno.
—Eu estou nervoso, mas menos do que eu pensei que estaria. Acho que escolhemos uma boa tática, temos tudo planejado milimetricamente, além disso, fiquei mais tranquilo quando você me contou que essa parte da sua família não é invasiva e não vai ficar tentando extorquir informações de nós. Fora tudo isso, acho que o que mais me deixou tranquilo foi justamente agir como eu agiria se tudo isso fosse real, é isso que estou colocando em minha cabeça, estou me sentindo nervoso como me sentiria se nós realmente namorássemos e, excluindo todo o medo de ser pego e descoberto na mentira, isso já tira um peso gigante de minhas costas, já me faz bem tranquilo. E eu prometo, enquanto alguém estiver nos olhando, vou agir como se realmente estivéssemos namorando, como se eu fosse perdidamente apaixonado por você, custe o que custar. Daqui a alguns meses, Tuane vai estar fora da empresa e eu nunca mais precisarei olhá-la, então, se somos descobertos por ela, me importaria muito menos. Não devo nada a ela, não tenho vínculos com ela. Mas com você e sua família é diferente, eu sei que é. Você não pode simplesmente deixar de ser família deles, de vê-los e de escutar as piadinhas, caso a nossa farsa desmorone. Então prometo que estou cem por cento empenhado para dar o meu melhor e não deixar nenhuma mísera brecha para que descubram a verdade, sobre nós dois.
—Isso me deixa muito mais tranquila, Matheus. De verdade, muito obrigada por tudo o que você está fazendo por mim! E eu sei que, se pesarmos, se colocarmos em uma balança, não é justo, porque o que eu preciso fazer por você, mesmo que seja um trabalho diário, é de formiguinha, é um pouquinho por dia, em um ambiente onde sempre vamos poder usar a desculpa de ser de trabalho, onde sempre vamos ter um porquê para evitarmos toques e tudo isso. Eu sei que estou te pedindo, exigindo de você, muito mais do que estou dando a você e eu realmente sinto muito por isso!
—Brenda, quando você concordou ir comigo até Belo Horizonte, para ver a minha família e os meus parentes que vem passar férias do Líbano aqui, você concordou em me agradar, em mentir por besteira, apenas para me deixar menos desconfortável, apenas para me ajudar a conquistar um status que eu não preciso, que ninguém está me cobrando. Se você concordou em acrescentar tantos dias em nosso plano, apenas para ser legal comigo, porque eu não concordaria em me esforçar um pouco mais, para conquistar e passar confiança para a sua família? É até uma questão de honra, quero impressioná-los, quero que eles gostem de mim. E, no fim do dia, nós dois sairemos com vantagens, de tudo isso, porque só entramos nesse acordo porque nós dois precisávamos de um namoro falso, não só você, não só eu. É uma via de mão dupla e nós aprendemos a fazer as ultrapassagens seguras, portanto, fique tranquila, está tudo sobre controle e eu te prometo que, se eu sentir que estou ultrapassando algum limite meu, irei te avisar para a gente decidir a melhor forma de agir, a partir de então!
—Muito obrigada, Matheus! Você é uma pessoa muito especial que a vida colocou em meu caminho e eu nem sei se mereço tanto! Espero que, quando tudo isso acabar, possamos nos tornar amigos e manter o vínculo que, querendo ou não, estamos nos forçando a criar!
—Já estamos nos tornando amigos, Brenda! Não tenha dúvidas com relação a isso!