Capítulo 1

2234 Words
Com o cabelo preso em um coque alto e despojado, que insistia em soltar fios rebeldes, e vestindo um pijama de algodão branco — uma peça tão velha que o tecido quase perdia a cor original —, eu estava sentada no chão da sala, cercada por uma fortaleza de livros de literatura inglesa. O silêncio da noite, apenas interrompido pelo som das teclas do meu notebook, foi subitamente invadido pelo estalo da porta do banheiro se abrindo. Segundos depois, um aroma intenso, amadeirado e inconfundivelmente masculino, tomou conta de todo o apartamento, tornando o ar quase sólido. ​— Sinto cheiro de perfume novo — comentei, sem desviar os olhos da tela, elevando o tom de voz para que Mateo, meu melhor amigo e colega de apartamento, pudesse ouvir. — Pelo visto, o bonitão tem um encontro importante esta noite, hein? ​— Não posso ficar cheiroso para você, por acaso? — a voz dele veio do quarto, carregada de uma falsa inocência que eu conhecia como a palma da minha mão. ​— Claro que pode, Mateo, mas nós dois sabemos muito bem que esse aroma não é para mim — respondi, tirando os óculos e deixando-os sobre o teclado, um gesto de quem estava pronta para o embate. — Se fosse, você não estaria impecável. Estaria usando aquele seu moletom cinza que está pedindo socorro, sentado aqui no sofá, comendo um resto de pizza e reclamando amargamente que eu estudo demais e que não dou a atenção que você acha que merece. ​— Me machuca profundamente saber que você pensa isso de mim — ele dramatizou, a voz aproximando-se à medida que caminhava até a sala. Seus passos pararam exatamente atrás de mim. Eu não precisava virar para saber que ele estava ali, parado com aquela pose de galã de catálogo. — Nem sempre fico no sofá reclamando; na maioria das vezes, estou na cozinha preparando o seu jantar porque você esquece de comer. ​Analisei-o com um olhar crítico enquanto ele entrava no meu campo de visão. Mateo tinha feito uma escolha certeira para a noite: calça jeans preta, botas de couro do mesmo tom, uma camisa branca impecável sob uma jaqueta de couro preta. Era muita informação para um homem só, mas era inegável que o preto realçava o azul gélido de seus olhos e o corte perfeito do seu cabelo castanho, penteado para trás com um charme displicente. Sem falar na mandíbula marcada, que parecia ser o ponto final de qualquer conversa. ​— Gostando do que vê ou vai continuar me secando? — ele provocou, com aquele sorriso de canto que sempre me dava vontade de revirar os olhos. ​— Nem um pouco. Estou apenas avaliando os danos — fiz uma careta para ele. — Como diria Camila Cabello: "...Um pouco mais velho, uma jaqueta de couro preta, uma má reputação e hábitos insaciáveis...". Será que alguma das suas ex-namoradas escreveu essa música pensando em você? Ela se encaixa tão perfeitamente que chega a ser um pecado. ​— Você não cansa de tentar ferir meu ego, não é? — ele se jogou na poltrona, levando a mão ao peito em um gesto teatral de ofensa, fingindo uma dor lancinante. ​— Com quem você vai sair hoje, afinal? — inclinei-me na direção dele, mantendo o tom de conspiração. — Felicity ou a Juliana? A dúvida me corrói. ​— Vou sair com a Felicity. Ela descobriu que esta noite é minha folga e insistiu, praticamente me sequestrou para sair — ele suspirou, jogando a cabeça para trás, como se fosse uma vítima das circunstâncias. ​— Não sei o que você viu nela, Mateo. Sou muito mais a Juliana. Ela tem classe. ​— Felicity tem o que a Juliana não tem, e a Juliana tem o que a Felicity não tem — explicou ele, como se fosse a obviedade do século, girando o dedo no ar. ​— Ah, me poupe! Com certeza, a Juliana tem toda a bondade que a Felicity não tem, e a Felicity tem todo o veneno que a Juliana não tem. Não suporto essa namoradinha sua. Ela olha para este apartamento como se estivesse analisando um crime. ​— Você tem ciúmes de me ver com ela — ele provocou novamente, o olhar fixo no meu, um desafio silencioso. ​— Seria ciúmes se eu não quisesse que você estivesse com ninguém, mas, neste caso, o meu problema é apenas a Felicity. Adoro quando você traz a Juliana aqui; ela me inspira. É tão jovem, tem sua própria clínica veterinária... Diga-me, quando você vai parar de ficar um dia com uma e no outro dia com a outra? Está esperando elas se encontrarem na portaria e descobrirem a existência da outra? ​— O acaso é uma coisa engraçada, Chanel. Mas elas nunca saberão. — Ele suspirou, levantando-se. — Estou indo para o encontro. ​— Você poderia ser um cavalheiro e mostrar o quanto me ama passando no McDonald’s no caminho de volta, né? — pedi, passando a mão na barriga em um apelo dramático. — Estou morrendo de fome. ​— Posso passar, mas você sabe que vai demorar. O trânsito de Seattle à noite é um pesadelo. — Ele se abaixou e depositou um beijo carinhoso na minha testa, ignorando meu resmungo sobre a fome. ​— Tudo bem, enquanto você não chega, me contento com salgadinhos. — Mandei um beijo no ar, voltando a focar nos livros. ​— Divirta-se... estudando. Tchau, Chanel. ​— Tchau, Mateo. Tente não ser atropelado pelo seu próprio charme. ​Assim que a porta se fechou, suspirei, colocando os óculos de volta. Meu nome é Chanel Brook, vinte e um anos, terceiro ano de Literatura Inglesa. Não era a minha primeira opção, mas, depois que assisti Cinquenta Tons de Cinza, a paixão de Anastasia pela literatura e o cenário de Seattle me fisgaram de uma forma que não consegui ignorar. Com 1,65 m, olhos avelã e cabelos longos e ondulados, eu era apenas mais uma estudante sonhadora em meio à chuva da cidade. ​Quando decidi vir para cá, Mateo veio comigo. Nossas famílias são amigas de longa data e ele se tornou o meu melhor amigo desde que me entendo por gente. ​O Histórico de Uma Amizade Persistente ​Lembrar de Mateo é como folhear um álbum de fotografias onde as páginas estão manchadas de grama e suco de uva. Nossas mães adoram contar a história da nossa primeira "união". Eu tinha cinco anos e ele sete. Ele, em sua fase de garoto introspectivo que preferia brincar com soldados de chumbo a se misturar com crianças "menores", me ignorava solenemente. Ele tinha um clubinho na casa da árvore — na verdade, era apenas um galho baixo de uma velha mangueira — onde garotas não eram permitidas. ​Eu não aceitava aquela exclusão. Lembro-me claramente de ter passado uma tarde inteira sentada na base da árvore, com um livro de histórias ilustradas, lendo em voz alta apenas para irritá-lo. Eu sabia que ele estava ouvindo. Quando ele finalmente desceu, todo emburrado, reclamando que eu estava estragando o clima de guerra dele, eu apenas sorri e ofereci metade do meu chocolate. Ali, naquele momento, Mateo descobriu que eu era o único ser humano capaz de invadir suas fortalezas sem precisar de armas. ​Anos depois, aos doze, quando ele teve sua primeira desilusão amorosa no colégio, quem estava lá? Eu. Ele passou a tarde inteira chorando no meu quintal, não por causa da menina, mas por ter sido humilhado na frente dos outros garotos do time de futebol. Eu, com toda a minha sabedoria precoce de quem lia romances demais, expliquei que ele era maravilhoso e que aquela garota não tinha visão. Ele olhou para mim, limpou o rosto na manga da camisa e disse: "Chanel, você é a única pessoa que realmente me entende". Aquela frase, dita com a voz ainda oscilante pela puberdade, selou o nosso destino. ​Reflexões Internas: O Peso do "Quase" ​Enquanto tentava me concentrar no texto de Jane Eyre no meu notebook, percebi que minha mente insistia em desviar para o Mateo. Havia algo estranho naquela noite. Normalmente, ele não se esforçava tanto para se vestir quando saía com Felicity. Ele costumava usar apenas jeans e uma camiseta básica. Aquela jaqueta de couro? Era nova. O perfume? Parecia um convite. ​Senti um aperto no peito que não tinha nada a ver com a fome. Será que estou apenas acostumada com a presença dele aqui, como um móvel fixo que, de repente, percebo que pode ser levado embora? Mateo não é apenas meu colega de apartamento; ele é o meu porto seguro. Quando chegamos a Seattle, sozinhos, sem a rede de proteção das nossas famílias, houve noites em que dividimos um pacote de macarrão instantâneo no chão desta mesma sala, enquanto discutíamos se tínhamos feito a escolha certa. ​Mateo é o tipo de homem que faz qualquer um pensar: "Nossa, que lindo", e logo em seguida: "Problema". Aos 24 anos, com 1,83 m, um corpo atlético e aquele toque final de charme — a mandíbula marcada — ele era o centro das atenções. Mas ele é também o homem que me cobre com um cobertor quando adormeço estudando. É o homem que sabe exatamente como gosto do meu café, sem que eu precise pedir. ​Eu me pergunto, às vezes, se a nossa amizade não é um escudo. Eu não namoro porque estou sempre "ocupada estudando", mas, na verdade, quanto de mim eu guardo para ele? É uma dança perigosa. Se eu o perdesse, quem seria eu em Seattle? Sem a sua risada alta na cozinha, sem as suas provocações matinais, sem a segurança de que ele está apenas a um quarto de distância... eu seria apenas uma estudante de literatura solitária em um apartamento silencioso. ​Mateo Groham é a minha melhor decisão e, ao mesmo tempo, a minha maior interrogação. ​A Chegada e o Conflito ​Meu telefone vibrou. Na tela, o nome "Príncipe" piscava. ​— O que foi? Já está com saudades? — atendi, deixando no viva-voz. ​— Também — sua voz rouca soou do outro lado. — Mas trouxe o seu lanche. Desça, estou na portaria. ​— Já estou indo! — Desliguei e, para não perder tempo, vesti um casaco comprido preto dele por cima do pijama, calcei meus chinelos de pelinho e saí. ​No hall, o Sr. José, o porteiro, sorriu ao abrir o portão. Do outro lado da rua, a BMW preta de Mateo brilhava. ​— Não consegui sair sabendo que você estava passando fome — ele disse ao baixar o vidro, entregando-me o saco do McDonald’s e um milk-shake. ​— Boa noite, Felicity — disse, educadamente, forçando um sorriso. ​— Boa noite, Chanel — ela forçou o dobro, com aquele olhar de quem queria estar em qualquer lugar, menos ali. ​— Não demore, Mateo — avisei, já voltando para o prédio. ​[°°°] ​A noite seguiu, mas o sono veio inquieto. Acordei com o calor excessivo do verão de Seattle. Sem conseguir dormir, prendi o cabelo num r**o de cavalo alto e fui até a cozinha buscar água. ​— Que delícia — sussurrei quando o gelado desceu pela garganta. ​— Chanel? — a voz de Mateo ecoou na sala. ​Levei um susto ao vê-lo no sofá, ao lado de Felicity, que parecia visivelmente desgrenhada. ​— Eu não sabia que vocês já tinham chegado — falei, tentando manter a compostura. ​— Acabamos de chegar — explicou ele, com um olhar tenso. ​— Você sempre anda assim pelo apartamento que divide com um homem? — Felicity disparou, apontando para minha camisa de pijama. ​Senti meu rosto arder. Era uma mistura de vergonha e uma pontada de raiva. O apartamento era nosso, a i********e era nossa. Quem era ela para questionar o meu conforto dentro da minha própria casa? ​— Não, mas já estou voltando para o meu quarto. E, se eu fosse vocês, faria o mesmo. Este lugar não é um motel. ​Passei por eles e voltei para o meu santuário. ​— Estou levando a Felicity para casa — ouvi Mateo dizer, a voz firme, quase como uma ordem. ​— Tudo bem — respondi da cama, ouvindo o barulho das chaves e a porta sendo fechada. ​Enquanto tentava inutilmente voltar a dormir, refleti sobre o ocorrido. O peso do casaco dele que eu usara minutos antes ainda parecia aquecer meus ombros. O "Príncipe" tinha voltado para a sua rainha temporária, mas deixou o ar do apartamento carregado com a sua presença. Será que, em algum momento, o nosso "quase" se tornaria um "tudo"? Ou eu deveria apenas aceitar que, na história da nossa vida, eu sempre serei a melhor amiga que fica em casa, enquanto ele busca aventuras por aí? ​O relógio marcava quase três da manhã. Eu era Chanel Brook, uma garota de vinte e um anos, cheia de sonhos, em um apartamento em Seattle, dividindo a vida com o homem que eu conhecia desde sempre. E talvez, apenas talvez, o fato de eu sentir tanto ciúme da Felicity fosse apenas o sinal de que, entre as páginas da minha vida, Mateo nunca foi apenas um coadjuvante.
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