— Esse é novo — comentei, pegando uma embalagem congelada que nunca tinha visto nas prateleiras daquele mercado. Li o rótulo com atenção: — Yakisoba feito com macarrão de shoyu, óleo de gergelim, brócolis, couve-flor, cenouras em cubos e pedaços de carne e frango.
Achei a combinação interessante e, sem hesitar, coloquei duas caixas no carrinho. Uma para mim, outra para o Mateo. Não era exatamente egoísmo, era uma questão de logística e sobrevivência; se o prato fosse realmente bom, eu não teria a menor intenção de dividir. Como eu costumava dizer para mim mesma: "Não sou egoísta, sou apenas uma comilona estratégica".
Continuei avançando pelos corredores, adicionando ao nosso estoque tático pacotes de batatas fritas, hambúrgueres e outros itens que nos salvariam nas noites de quinta, sexta e sábado, quando a preguiça de cozinhar ou de esperar por um delivery vencesse.
— Olá — uma voz soou ao meu lado.
Virei-me e encontrei uma mulher loira, na casa dos quarenta anos, um pouco mais alta que eu. Ela estava estacionada ao lado do meu carrinho, quase colando o dela no meu.
— Olá — respondi, tentando ser simpática, embora estivesse genuinamente confusa com a abordagem.
— Vi quando você chegou com seu marido e notei que só comprou congelados — ela explicou, já abrindo a bolsa e retirando um pequeno cartão. — Eu era exatamente como você quando me casei: jovem e sem a menor experiência na cozinha. Achei que poderia te dar meu cartão. Podemos conversar, e eu adoraria te ensinar a arte da culinária.
Peguei o cartão, que exibia desenhos delicados de verduras e uma panela com uma colher de p*u. “Amanda Diaz, Professora de Gastronomia”.
— Professora de gastronomia? — questionei, arqueando a sobrancelha.
— Na verdade, coloquei "professora" para soar mais profissional — ela deu um sorriso tímido. — Sou apenas uma dona de casa que se preocupa com o bem-estar da família. Imaginei que muitas outras mulheres pensam igual a mim, então decidi começar a dar aulas e passar o que aprendi nessa longa jornada doméstica.
— Isso é muito gentil da sua parte — respondi, buscando uma saída elegante. — Mas aquele homem não é meu marido.
As bochechas de Amanda ficaram vermelhas instantaneamente.
— Oh, meu Deus! Me desculpe. Ouvi sem querer a conversa de vocês e, pelo carrinho cheio, pareciam recém-casados. Me sinto muito envergonhada.
— Não precisa se preocupar, ele é apenas meu melhor amigo e colega de apartamento — expliquei, rindo para aliviar o clima. — Eu estou na faculdade e ele trabalha. Quando chegamos em casa, a última coisa que queremos é enfrentar um fogão. Por isso o carrinho está tão... "congelado".
— Compreendo perfeitamente. O erro foi meu, mil desculpas! — ela sorriu, mais relaxada. — Mas, se um dia quiser aprender, saiba que minhas aulas são para todos. Você se surpreenderia com a quantidade de mulheres que moram sozinhas e querem cozinhar. E, se quiser trazer seu amigo, também recebemos homens que desejam se aventurar na cozinha.
— Quem sabe nas férias da faculdade? — respondi com a cortesia padrão. — E Mateo adoraria aprender receitas novas.
Nos despedimos e, após ela sair apressada, guardei o cartão na capa do meu celular, bem ali, atrás do Stitch.
Pouco depois, Mateo surgiu por trás de mim, posicionando-se tão perto que pude sentir o calor do seu corpo contra minhas costas enquanto ele acomodava alguns itens no carrinho.
— Parece que a senhorita está fazendo a festa, hein? — ele provocou.
— Vamos aproveitar que o mercado está vazio e levar tudo de uma vez — respondi, saindo debaixo do seu braço. Passei a vez de empurrar o carrinho para ele, que assumiu o comando com naturalidade. — E não é só para mim, estou comprando coisas para nós dois.
— Claro, você é uma boa menina. Estou orgulhoso — ele disse com aquele risinho de lado que eu tanto conhecia. — Já pegou tudo aqui?
— Sim. Agora, vamos atrás dos sucos, refrigerantes e do leite.
Quando chegamos à ala das bebidas, ele empurrava o carrinho com uma facilidade irritante, enquanto eu decidia o que levar. Depois de garantirmos os itens básicos, fomos para a seção de higiene. Deixamos o carrinho em um canto e nos separamos para buscar o que faltava.
Minutos depois, nos reencontramos no caixa. O movimento estava tranquilo, o que tornou tudo mais rápido. Mateo passou as compras pela esteira enquanto eu as organizava nas sacolas. Quando o carrinho já estava quase vazio, a funcionária totalizou o valor.
— Débito — dissemos em uníssono, estendendo nossos cartões simultaneamente.
A moça do caixa piscou, sem saber qual aceitar.
— Mateo, você pagou no mês passado — lembrei, empurrando o braço dele. — Agora é a minha vez.
— Eu quero pagar esse mês também — ele insistiu, empurrando o meu braço de volta.
— Mateo, para com isso! É minha vez.
— Chanel, você ainda estuda — ele disse, com uma seriedade que não admitia discussão. Ele tomou o cartão da minha mão e o guardou no bolso da minha calça. — Guarda seu dinheiro para o que você realmente precisa. Quando você começar a trabalhar, eu deixo você pagar o que quiser.
— Você é um teimoso — reclamei, mas ele já estava entregando o cartão dele para a funcionária.
Revirei os olhos, mas, no fundo, ele sabia que eu acabaria cedendo. Enquanto caminhávamos para o estacionamento, ouvi sua risada baixa atrás de mim.
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Ao chegarmos no apartamento, despejei as sacolas na bancada da cozinha.
— Vou trocar de roupa e já volto para te ajudar a guardar tudo — avisei.
— Tudo bem, só não demora. O almoço não vai se fazer sozinho — ele respondeu.
Entrei no meu quarto, ignorando estrategicamente a cama desarrumada, e fui direto ao guarda-roupa. Troquei o vestido por um macacão preto de tecido leve e curto. Estar em casa com o Mateo exigia conforto; se eu estivesse de vestido, teria que me preocupar em sentar "como uma moça", e, com o calor que fazia, eu só queria liberdade. Prendi o cabelo num laço prático e saí.
“Hora de ser uma ótima assistente”, pensei. Afinal, se eu queria que o Mateo cozinhasse, o mínimo que eu podia fazer era ser uma sous-chef eficiente.