— É melhor você descansar agora. Você está machucada, com medo e a sua mente está sobrecarregada por tudo o que você vivenciou. Estamos na Grécia.
Ela pareceu impressionada com essa verdade. — Em Atenas, exatamente. Como já disse várias vezes, o meu nome é Willian. Estou aqui de férias, mas sou uma agente do FBI. A jovem o ouviu, concordando com a sua voz firme. — Preciso que você pense em tudo o que aconteceu com você e me conte, para que eu possa ajudá-la ou levá-la comigo…
— Não, não, não, não, não. Ela implorou, assustada, pegando rapidamente a mão dele. — Não me deixe com ninguém, não me leve para ninguém. Não posso voltar para lá… A sua voz falhou. — Não quero voltar para lá.
— Onde você esteve?
Ela engoliu em seco e balançou a cabeça.
— Não sei. Lágrimas começaram a correr pelo seu rosto ferido. — Não me lembro de nada. A minha mente parece cheia de lagoas e neblina, agitada como este mar, perturbada como a própria tempestade. Mas não há nada em mim que pareça real, apenas aquela necessidade de não retornar para onde escapei.
Com cabelos escuros emoldurando o seu rosto, Willian a viu parecendo tão vulnerável e jovem que ele só conseguiu engolir em seco.
— Temos algumas horas antes do sol nascer. É claro que você estava nesta área, porque você veio ao meu veleiro. Deixe-me curar as suas feridas, lhe darei uma muda de roupa e, quando amanhecer, partiremos.
— Você está sozinho neste lugar?
— Tenho dois funcionários, mas algo me diz que eles não poderão vir conosco.
Ela logo fez beicinho, colocou o prato de lado e agarrou-se à beirada da cama antes de começar a chorar. Foi naquele momento, naquele exato segundo, quando lembrava da voz profunda daquele estranho que se sentia poderoso e, de alguma forma, bom. Que Melina Krykos entendeu que, embora estivesse livre, a sua vida ainda corria grave perigo.
O corpo feminino estremeceu quando a mão grande e forte de Willian se estendeu para pousar levemente na sua bochecha. O toque era tão delicado que parecia algo que ela não se lembrava de ter tido na vida. Ela olhou nos olhos do homem, e ele engoliu em seco antes de colocar a mão completamente na pele úmida do rosto dela, fazendo com que os soluços da jovem se intensificassem.
— Respire. Willian sussurrou, mais um pedido delicado do que uma ordem. — Você precisa respirar, porque ainda temos muito o que conversar.
Ela assentiu, embora a suas emoções fossem intensas demais para conter ou esconder.
— Você sabe o seu nome? Você sabe quem você é?
Ele a observou enquanto ela engolia em seco, soltava um suspiro e olhava para a própria mão, onde a tinta borrada m*al permitia que as palavras escritas fossem vistas. Ele percebeu a dificuldade dela em lê-los, mas então ela voltou os olhos para ele. O seu olhar parecia perdido, imerso no pouco que conseguia lembrar, naqueles fragmentos que a sua mente não se permitiu esquecer durante o tempo em que esteve confinada. Embora não soubesse quanto tinha sido, a suspeita que se instalou no seu peito indicava que tinha sido muito.
— Melina.
Willian sentiu um arrepio percorrer a sua espinha, como uma gota fria escorrendo por sua espinha. O seu instinto foi imediato: ele segurou o rosto feminino com as duas mãos, admirando-o com uma intensidade que não conseguia controlar. As mãos feridas da jovem seguraram o seu pulso, mas ele, m*al seguro da sua própria voz, não conseguiu dizer nada.
— O meu nome é Melina. É tudo o que me lembro agora. Ela sussurrou.
— É tudo o que preciso. Respondeu Willian, a sua voz saindo automaticamente.
Foi naquele momento, diante daqueles olhos claros e daquela pele marcada por feridas, que ele soube. Aquela viagem nasceu de uma necessidade profunda: curar a sua alma, redescobrir que ele ainda era muito mais do que as três facetas que sempre o definiram: agente, filho e noivo. Olhando para a jovem ferida nas suas mãos, ele entendeu que se tinha vindo para a Grécia, apesar de tudo o que havia vivido, e se tinha retornado a Atenas quando já havia prometido não fazê-lo, era porque estava destinado a ser o salvador de Melina Krykos, a mulher deitada à sua frente.
Ele iria protegê-la e ajudá-la, embora parte dele desejasse com todas as suas forças que esta não fosse também sua sentença de morte.
Ela seguiu cada movimento daquelas mãos grandes, que pareciam surpreendentemente gentis enquanto limpavam os seus ferimentos sem causar dor ou queimação. As mãos dele haviam curado os seus pés e o seu rosto, e agora trabalhavam nas suas palmas, onde ela podia sentir o algodão arrastando vestígios de tinta preta de algo que ela havia escrito, mas que, naquele momento, havia esquecido completamente.
Quando ela encontrou o olhar do homem, ela engoliu em seco. Ela o via como alguém confiante nos seus movimentos, mas também sentia que ele era um porto seguro para ela, algo que ela nunca havia tido ou experimentado antes. Ela não podia ne*gar que o achava bonito. Sua barba, com alguns fios grisalhos, indicava que ele era um homem maduro, embora ela tivesse certeza de que ele não era muito velho.
A sua mente, preenchida por aquela névoa que a fazia se sentir presa e sem respostas, ainda não avançava nem encontrava nada que a ajudasse a dar detalhes concretos sobre o seu cativeiro. Isso a manteve quieta enquanto ele trabalhava, embora ela m*al trocasse olhares com Willian. Ele apenas suspirou quando percebeu como os lábios da jovem entreabriram-se enquanto ele curava uma ferida um tanto aberta no pulso.
— Este é um pouco fundo, mas não precisa de pontos. Comentou Willian ao encontrar aqueles olhos esverdeados que, no entanto, pareciam mudar de cor. — Alguma coisa dói?
— O corpo todo.
— Imagino que sim. Ela disse enquanto guardava o que havia usado, empilhando a gaze e o algodão numa pequena pilha.
Quando ele se levantou, a jovem olhou para ele. Ele parecia enorme, como o homem em quem ela atirou para escapar. Embora Willian parecesse menos musculoso, ela não pôde deixar de notar o corpo tonificado que aparecia por baixo das sombras e curvas do suéter que ele usava.
— Vou pegar algumas roupas para você. Este quarto não tem banheiro, mas vou deixar você usar o banheiro de hóspedes. Afinal, não tenho visitas. Ela lhe deu um leve sorriso. — Não tenho certeza se você deve tomar alguma coisa para a dor. Talvez o ibuprofeno ajude você a se sentir melhor e a descansar um pouco.
— Vamos embora quando o sol nascer?
— Acho que é a coisa mais conveniente. Ele respondeu e ela assentiu. — Se você veio até o meu veleiro, é claro que você fez isso da costa. Imagino que você tenha vindo de uma área que eu suspeito, então é melhor sairmos daqui.
— Você sabe onde?
— Não, por enquanto teremos que sair sem uma direção clara, porque duvido muito que os trabalhadores que contratei consigam lidar com essa situação. Ela engoliu em seco. — Procuraremos o alto mar e algumas ilhas menos movimentadas, onde poderei fazer algumas compras e ligações.
— Você vai contar para mais alguém?! Ela perguntou, nervosa, levantando-se imediatamente.
Willian levantou as mãos, tentando acalmá-la. Era óbvio que ela estava com medo. Enquanto a limpava, ele sentiu tremores no seu corpo. Mas, ele sabia que não conseguiria lidar com isso sozinho. Ele precisava de pelo menos um pouco de orientação e segurança para continuar, porque tinha certeza de que a mulher diante dele era a herdeira que desapareceu há um ano, a famosa e amada Melina Krykos. Ele também suspeitava que o lugar de onde havia escapado era, na verdade, o infe*rno.
— Não contarei a ninguém nada que possa colocar você em perigo, mas preciso de ajuda. Disse ele calmamente. Ela olhou para ele com olhos arregalados e cheios de emoção, então Willian levou uma da suas mãos abertas até a cabeça da garota. — Você é uma estranha que arrombou o meu veleiro. Eu poderia ter matado você uma hora atrás quando te descobri no meu porão, mas não fiz isso. Ela engoliu em seco. — Neste ponto, acho que está bem claro que ambos estamos envolvidos. Então a melhor coisa que podemos fazer é confiar uns nos outros. Pode parecer loucura para você, depois de tudo o que passou, mas se você está aqui e quer ficar, tem que confiar em mim.
A jovem olhou para ele atentamente. Ela observou a sua força, a sua altura e a natureza imponente que possuía. Ela também percebeu onde estava, agora mais consciente do que estava ao seu redor. Ela viu a arma e a jaqueta perto da porta, num pequeno móvel. Apesar de tudo, depois do tratamento gentil que aquele homem lhe dera, se é que se podia chamar assim, ela sentia que ele era seu único caminho para alcançar a verdadeira liberdade. Por fim, ela acabou concordando.
— Eu confio em você, Willian. Ela finalmente sussurrou.
Ele assentiu, mas depois de lamber os lábios, balançou a cabeça gentilmente.
— Fale comigo informalmente. Embora eu perceba que há uma boa diferença de idade entre nós, nenhuma cortesia é necessária. Eu te ajudarei e você confiará em mim. Como somos completos estranhos, já tomamos uma grande decisão, então, pode me tratar por você, ok?
— Sim. Obrigado.
Ele a observou por alguns segundos, mas depois de um suspiro ele assentiu novamente e procurou a saída. Ele pegou a sua jaqueta e a sua arma, foi para sua cabine e deixou a dela com a porta fechada. A tempestade continuou a assolar o Mar Egeu, mas era a única coisa que podia ser sentida e ouvida ao redor do seu veleiro.
Ele temia que, quando o sol nascesse, encontraria um grupo inspecionando a área, revistando navios, iates e veleiros como o seu em busca de qualquer sinal da mulher que agora estava deitada na sua cabine. Ele tinha certeza de que não conseguiria enfrentar muitos sozinho, mas naquele momento ele se perguntava: por que ele já estava pensando em ir para a guerra por alguém que tinha acabado de conhecer?