Ele colocou a arma no cofre ao entrar na cabine, jogou o casaco de lado e guardou a arma na cintura, determinado a não andar por aí sem ela pelas próximas horas. A sua cabine era confortável, com todas as comodidades básicas de um quarto comum, incluindo um armário onde ficavam as suas roupas. Ele pegou uma camiseta, uma calça de moletom e uma toalha limpa e foi até o banheiro para pegar os seus produtos de higiene.
Ele pegou o celular e se perguntou se seria uma boa ideia ligar para a única pessoa em quem confiava para compartilhar essa verdade: Adam. Ele estava convencido de que estava diante da herdeira perdida. As perguntas que passavam pela sua mente estavam além do seu controle, mas, ao mesmo tempo, o enchiam de uma energia que só um bom caso, como os que ele costumava resolver, poderia causar. Ele continuou dizendo a si mesmo que era muito arriscado, mas sabia que não havia como voltar atrás.
Ele balançou a cabeça, decidindo ligar para Adam somente quando estivessem fora da área. Ele retornou à cabine onde a jovem estava deitada, agora olhando o mar pela pequena janela. A sua figura era pequena, talvez não mais alta que 1,70 m. A sua pele pálida contrastava com os hematomas e feridas, e aquela combinação de cabelos escuros e olhos claros sem dúvida a tornava atraente... muito atraente.
Havia algo no olhar de Melina que fez Willian parar de pensar demais, embora, ao mesmo tempo, o enchesse de mais dúvidas. Se fosse real, se aquela bela jovem fosse a famosa herdeira Melina Krykos, não havia nada na sua mente que pudesse conceber o m*al que eles lhe causaram, muito menos justificar por que eles fizeram isso.
— Parece que a tempestade não vai passar.
— Os meus funcionários diriam que Zeus está bravo. Respondeu Willian. Ela olhou para ele confusa. — Eles são gregos de nascimento e falam com mitologia nas suas palavras.
A jovem assentiu, acalmando-se enquanto olhava para ele.
— Trouxe uma camiseta e uma calça para você tentar dormir depois do banho. Elas certamente serão grandes demais para você, mas...
— Eu ficarei confortável. Ela interrompeu, e ele assentiu.
— Bom. precisa de ajuda? Caminhar deixa você desconfortável?
— Não, não tanto.
Embora caminhar doesse, principalmente nos pés, cobertos de bolhas estouradas, e ligamentos danificados pelo tempo que passou correndo no cativeiro, Melina se fortalecia a cada minuto que passava longe daquela cela, daquela rotina, da bandeja de comida e dos homens armados que a ameaçavam de que os lobos lá fora a devorariam.
Ela seguiu o homem alto e forte que se apresentou como Willian e que, naquele momento, ela sentiu ser seu salvador. Ela o seguiu para fora da cabine e até o banheiro. Não era muito espaçoso, mas era confortável, com uma área de chuveiro onde ele deixava os produtos de limpeza. Ele colocou as duas toalhas na pia.
— Tome um banho. A água pode estar um pouco fria porque o barco está praticamente fechado por motivos de segurança. Disse ele. Ela olhou nos olhos dele. — Se for desconfortável, pode…
— Não, está tudo bem assim. Ela respondeu. Eles se olharam. — Você vai me assistir?
Willian franziu a testa.
— Devo fazer isso, Melina?
Ela piscou rapidamente, sentindo a pele do ombro arrepiar com a maneira como ele disse o seu nome. Então, sem aviso e quase sem pensar, ela tirou a camisa suja e ensanguentada que estava usando.
Era uma vestimenta semelhante aos pijamas cirúrgicos, como os usados pelas enfermeiras, mas feita de um tecido mais fino. O olhar de Willian deslizou pelo torso feminino exposto diante dele, algo que ele não esperava. Ele engoliu em seco quando o seu primeiro e menos prudente pensamento foi que ela era linda, muito linda. No entanto, os seus olhos logo encontraram a realidade de Melina: ela havia sido ferida de muitas maneiras.
O seu abdômen, peito e pescoço apresentavam hematomas. Acima do umbigo havia uma cicatriz que parecia estar em processo de cicatrização. Incapaz de se conter, Willian estendeu a mão e passou os dedos sobre a pele delicada da área, traçando o contorno da cicatriz. Melina soltou um suspiro suave, mas logo os seus olhares se encontraram.
— Se eu seguisse as instruções, eles não me machucariam, mas se não... Ela disse, olhando-o diretamente nos olhos. — Tentei escapar muitas vezes.
Ele balançou a cabeça e tirou a mão do corpo dela.
— Tome um banho. Agora acho que a sua mente precisa descansar… Ele disse enquanto se dirigia para a porta. Ele parou na porta e, virando-se por cima do ombro, acrescentou: e nunca mais faça isso, Melina. Eu te ajudarei, mas não preciso ver o seu corpo nu, mesmo que seja para conhecer as suas cicatrizes e feridas. Entendido?
— Sim.
Ele saiu do banheiro, deixando-a com a respiração um pouco difícil e a pele arrepiada. Quando ele estava no corredor, ele levou as duas mãos ao rosto e depois as passou pelos cabelos, balançando a cabeça. Naquele momento ele lembrou-se não apenas da suas regras como agente, mas também das suas próprias regras como homem, pois sabia melhor do que ninguém que Melina Krykos não tinha a idade que ele procurava numa mulher e que, além disso, ela não só era proibida, como poderia se tornar perigosa se as coisas se confundissem na solidão daquele veleiro.
Ele foi até o quarto que havia preparado para a jovem, arrumou a cama e trocou os lençóis. Ele fechou as pequenas cortinas das janelas e, para evitar que qualquer atividade dentro da embarcação fosse notada, usou a iluminação do seu equipamento enquanto arrumava as roupas que havia deixado na beirada da cama. Ele pegou o celular e, sem mais hesitação, fez a ligação.
— Uhm, segunda ligação em algumas horas… você está sentindo muita falta de mim ou já voltou? A voz de Adam parecia divertida. Ele sabia que era cedo em Los Angeles, mas Willian não conseguia guardar isso para si.
— Willian… você está aí? Juro que se eu ouvir os seus gemidos, vou arrancar os meus tímpanos e...
— Estou aqui. Respondeu Willian, tentando não parecer nervoso. — Aqui estou eu, tentando organizar os meus pensamentos antes de expressá-los.
—Hum, tudo bem. Adam respondeu, suavizando o tom. — O que aconteceu? Não me diga que você foi para a cama com uma gostosa e ela acabou se revelando um gostoso.
Apesar do caos mental, Willian não conseguiu deixar de sorrir levemente.
— Então, você tran*sou com uma garota com menos de vinte e oito anos? Adam continuou.
— Adam, por favor, pare de falar sobre se*xo. Ele se levantou com um suspiro. — Estou em Atenas. Cheguei ao porto há algumas horas, mas há uma tempestade terrível que me impediu de desembarcar do veleiro.
— E você está entediado.
— Fique quieto e deixe-me falar.
— Está bem, está bem.
Willian suspirou profundamente antes de se sentar na beirada da cama.
— Como eu disse, uma forte tempestade me recebeu aqui. M*al conseguimos ancorar quando chegamos, mas nem Alexios nem Dimitrios, que estavam comigo, conseguiram prendê-lo completamente até algumas horas depois. Assim que a tempestade diminuiu um pouco, eles partiram. Estamos na área do hostel onde fiquei hospedado nos primeiros dias; o dono é parente dos Petrakis. A ideia era que eu descesse quando a tempestade passasse para dormir mais confortavelmente no albergue esta noite, mas... Ele levou a mão ao rosto. — Adam, algo aconteceu.
— Com você, com o veleiro ou com os Petrakis?
— Com nenhum desses, mas é sério. Ele disse, o suspiro pesado do amigo ecoando na ligação. — Eu estava deitado na minha cama, convencido de que dormiria no veleiro esta noite, quando ouvi um tiro à distância. Willian continuou a explicar.
— Claro, pensei que poderia ser algo do porto, talvez um transformador explodindo ou até mesmo fogos de artifício. Algo diferente do que realmente era. Mas logo ouvi rajadas.
— Que? Que dia*bos, quem eles mataram?
— Ninguém. Ele engoliu em seco. — As rajadas vinham do hotel que mencionei a você, aquele que me chamou a atenção durante a minha primeira semana aqui. A atividade lá fora, apesar da tempestade, era intensa. Nesse momento, desliguei tudo no barco para fingir que não havia nada nem ninguém, mas por dentro eu estava alerta, com a arma na mão, para garantir. A sua voz mudou um pouco. Observei veículos pesados se movendo por aquela rua estreita, alguns até saindo de uma área muito lamacenta. Ouvi cães latindo…
— Eles eram policiais?
— Não sei, Adam, mas temo que não. Ele respondeu com firmeza. — A atividade durou cerca de vinte ou trinta minutos e depois parou, mas tenho certeza de que eles ainda estão vasculhando a área para encontrar quem escapou. Ele permaneceu em silêncio antes de confessar a verdade. — Aquele que fugiu deles… Aquele que agora está comigo.
— Que dia*bos, Willian Voss?! O que você está falando?
Willian enxugou os olhos cansados e cerrou o punho antes de aliviar a tensão e olhar para sua mão.
— A pessoa que escapou daquele lugar, que não sei onde está, veio até o meu veleiro. Ela é uma mulher, jovem, ferida, muito ferida e com quase nenhuma lembrança. O silêncio de Adam pesava sobre ele. — Encontrei-a escondida no meu porão, assustada, como um gatinho molhado e trêmulo entre as minhas latas de comida.
— Você tem uma prisioneira no seu veleiro, Willian?! A afirmação de Adam foi direta. — Diga-me que você vai chamar a polícia e que não fará nada estú*pido como se envolver com ela, muito menos se oferecer para ajudá-la. Por favor, diga-me que esta ligação é para me dizer que depois disso você deixará aquele lugar e retornará para casa. Se você quiser mulheres, iremos para qualquer estado, mas, por favor, me diga que você vai voltar.