Willian engoliu em seco e se levantou ao notar a figura feminina, toda molhada e enrolada numa toalha fofa, entrando no quarto. Ambos se olharam ao mesmo tempo.
— Willian! Adam gritou desesperadamente do outro lado da linha.
— Não posso te dizer algo que eu não vá fazer...
— Mer*da, cara, me*rda!
— Eu sei quem ela é. Disse Willian. Melina o ouviu atentamente. — A alma que foi vendida ao dia*bo está viva, e não posso ficar parado sem fazer nada quando ela chega até mim. Melina sentiu a tensão nos seus músculos ao ouvir as suas palavras. — Tenho que ajudá-la e preciso que o meu melhor amigo me ajude.
Houve um silêncio pesado, daqueles que você sente no meio do peito. Willian ficou ali, observando Melina, que se agarrava à toalha enrolada no seu corpo. O seu rosto, levemente inchado e com pequenos arranhões, parecia quase sedoso depois do banho. Agora cheirava a ele, depois de usar os seus produtos. Algo que Willian pensava ter morrido, algo que ele achava que nunca mais sentiria depois da deslealdade da mulher que amava, começou a vibrar dentro dele.
— Willian. Disse a voz de Adam. — Por favor, diga-me, eu imploro, que você não acha que está olhando para Melina Krykos.
— Não posso te dizer algo que eu não...
— Willian! Não, não, não, não, não, não. Adam estava perdendo o controle. — Não, cara, você não pode fazer isso! Você está de férias na Grécia, procurando curar a ferida de uma infidelidade, procurando... buc*etas para fo*der até cair. Como você se envolveu em algo tão profundo e obscuro como esse caso? Eu disse para você ficar parado! Eu disse para você não deixar o seu instinto de agente levar a melhor, porque eu conheço você! Ele grita. — E agora você vai arriscar a sua vida por alguém que acabou de conhecer e que claramente fugiu dos sequestradores!
— Preciso que você respire, Adam.
— Não consigo respirar, porque agora só consigo pensar em quão grave é o perigo que você corre! Pensei que essa garota estivesse morta!
— Eu também pensei, mas não é bem assim... Ele disse, balançando a cabeça enquanto olhava para Melina, que continuava no mesmo lugar. — Me dê cinco minutos e eu te ligo.
— Willian Voss, eu juro para você…!
Ele desligou a ligação, pois a agitação do amigo não ajudava em nada ao que ele próprio já estava sentindo. Ao olhar para Melina, a jovem ajustou firmemente o nó da toalha ao corpo. Willian franziu a testa ao notar que o seu pescoço estava coberto de hematomas, marcas que pareciam ser de perfurações e não de pressão ou aperto. A reação dele foi rápida e instintiva, tanto que Melina estremeceu completamente ao senti-lo roçar nas marcas. A proximidade entre eles gerava uma energia palpável. Eles se encararam por alguns segundos, até que Willian se afastou abruptamente, tão rápido quanto havia se aproximado.
— Melina, eles injetaram em você no pescoço? Ele perguntou, franzindo a testa.
Ela olhou para ele confusa, mas antes que pudesse responder, ele balançou a cabeça.
— Não, as perguntas serão amanhã… ou depois. Você precisa descansar agora, e eu tenho que cuidar de algumas coisas. Ele disse enquanto se virava em direção à cama. — Troquei os lençóis e deixei as roupas lá. Você não precisa se levantar nem fazer mais nada. Tente dormir o máximo que puder e, por favor, não olhe pela janela nem acenda nenhuma luz ou abajur. A ideia é continuar fingindo que não tem ninguém aqui, caso eles voltem, o que tenho certeza que vai acontecer.
A jovem assentiu, mas quando abriu a boca para falar, Willian olhou para ela.
— Você quer me dizer alguma coisa?
— O seu amigo, aquele que pode te ajudar… está na Grécia?
— Não, é nos Estados Unidos, em Los Angeles, para ser exato. Respondeu ele calmamente. — Há algo estranho nas informações que circulam neste lugar sobre uma pessoa. Uma pessoa que eu acho que é você. Mas, como eu disse, agora as nossas mentes estão exaustas e sobrecarregadas com muitas coisas. O melhor é dormir. Você precisa dormir.
Ela deu um passo em direção a ele.
— Eles fizeram. Ela disse, olhando para baixo.
Willian franziu a testa.
— Que?
— Toda vez que eu tentava escapar, eles injetavam algo no meu pescoço e eu quase sempre acordava numa cela nova. A minha mente está nebulosa... densa e escura, não me permite ir além do que experimentei esta noite: a minha necessidade de sair dali e o meu desespero para encontrar a liberdade. — Eu sei o que fiz. Ela confessou com uma voz delicada. — Eu sei que atirei num homem e o matei. Um homem que vinha frequentemente à minha cela avisou-me que os lobos lá fora me devorariam e que ele sempre me chamava de princesa.
Àquela altura, Willian não tinha muito a dizer. Ele só notou como ela olhou para sua altura, depois por alguns segundos para sua boca, antes de retornar para seus olhos. Havia algo no olhar de Melina Krykos, um brilho hipnótico, quase místico, que fazia a sua pele arrepiar e, ao mesmo tempo, acalmava a sua alma agitada.
— Você se lembra de algo em particular sobre aquele lugar, sobre aquelas pessoas? Perguntou Willian.
— Eles eram altos e fortes como você. Eles usavam uniformes escuros, botas militares e carregavam muitas armas. As balaclavas me impediram de saber se eram várias, mas decorei alguns olhares. Ela respondeu, dando um passo na sua direção. — Havia mulheres, como enfermeiras. Eles me davam banhos quando autorizavam, e todos os dias vinham medir os meus sinais vitais, mas não me davam mais nada. Se eu ficasse parada, me ofereciam livros e comida fresca. Se eu tentasse escapar, era trancada em pequenas celas e recebia apenas pão e água.
Willian cerrou o maxilar para ela.
— Havia um penhasco… Melina continuou.
Com essas palavras, Willian suspirou. Eram detalhes suficientes para começar a entender de onde a jovem havia escapado.
— Uma dessas vezes que eu fugi, cheguei numa espécie de escritório. Tinha uma varanda com vista para um penhasco e o mar rugia a seus pés. Pensei em me matar naquele dia.
Foi ele quem deu um passo em direção a ela dessa vez.
— Você se lembra de mais alguma coisa, Melina? Alguma coisa além da sua luta esta manhã para se salvar? Alguma coisa pode me orientar sobre onde devo investigar? Um detalhe que alivia a dúvida que existe dentro de mim?
Naquele momento, apenas um passo os separava. Ele, forte e imponente nas suas roupas escuras. Ela, pequena e delicada, ainda enrolada na toalha que pingava água. O ar estava carregado de uma tensão nascida do medo, uma eletricidade que ambos sentiam, mas nenhum deles conseguia explicar completamente. Essa energia aumentava cada vez que eles olhavam nos olhos um do outro.
Melina levantou a sua mão delicada. Não havia mais vestígios de tinta, mas havia uma lembrança. Na névoa dos seus pensamentos, algo permanecia firme, algo que ele não queria esquecer. Ela fechou os olhos, e Willian, num movimento automático, deu um passo na sua direção. A jovem sentiu a sua mão pousar num peito forte e acelerado, mas não abriu os olhos. Ela abriu a boca ligeiramente, deixando escapar as palavras que havia memorizado como um mantra, sua única verdade.
— Eu sou Melina Krykos. Ela disse, como se as palavras estivessem presas na sua garganta, liberando espaço para oxigênio. — Tenho vinte e cinco anos e eu era… A sua voz falhou. — Eu fui sequestrada.
Diante do seu choro profundo, carregado de dor humana e intensa, Willian não conseguiu ficar ali, imóvel. A jovem viu-se envolta nos seus braços, refugiando-se no seu peito. O calor daquele corpo forte a fez sentir-se como há muito tempo não sentia: segura.
As palavras que saíram da boca de Melina dissiparam qualquer suspeita no agente. Ele podia sentir os chamados insistentes do seu melhor amigo no seu celular, imaginando-o agitado, chateado e furioso. Mas naquele momento, tudo o que Willian se importava era em conter a dor de uma vítima, da mulher ferida que agora estava nos seus braços.