Willian foi até sua cabine e trancou a porta. Ele sentou-se na beirada da cama, examinando o pequeno espaço como se esperasse encontrar algo revelador nas sombras. Ele pegou o celular e mais uma vez fez as mesmas buscas que o levaram a um beco sem saída. Ela tentou novamente com o nome de Gianella Caduff, mas o resultado foi o mesmo: um vazio absoluto.
Isso o intrigou ainda mais, alimentando a obsessão que ele tentava convencer sua mente a abandonar. Mas não conseguia. Então ele decidiu e discou um número.
— Os trinta dias já acabaram? Adam perguntou assim que atendeu a ligação, o seu tom era zombeteiro, arrancando um leve sorriso de Willian. — Boa noite, velho amigo
— Bom dia, velho amigo. Corrigiu Willian, rindo baixinho. — Como está indo esse turno?
— Intenso, uma perseguição em alta velocidade que terminou com um bando de caminhões destruídos... Willian balançou a cabeça ao ouvir isso. Sabia que ele estava sendo sarcastico. Nada de interessante estava acontecendo para o chefão por trás da tela.
Willian sabia muito bem que, embora Adam tivesse aceitado sua promoção a tenente, trabalhar atrás de uma mesa o entediava. Ele era um homem de ação, e a monotonia o sufocava.
— Qual o motivo desta chamada? Onde você está agora? Perguntou Adam.
— Ainda estou em Mykonos, mas em breve nos mudaremos para Atenas.
— De novo? Você não começou por aí? Adam perguntou surpreso.
— Sim, mas preciso verificar algo nessa área. Depois, tenho mais algumas ilhas no roteiro antes de terminar esses trinta dias.
Adam ficou em silêncio por um momento, tentando entender.
— E o que você fará em Atenas? Essa não era uma área que você já tinha visto?
— Visitar um hotel abandonado. Respondeu Willian, saindo da cama enquanto falava.
Adam soltou uma risada curta, mas não conseguiu esconder a sua confusão.
— Um hotel abandonado? Repetiu ele, incrédulo.
Willian soltou um suspiro. Ele sabia que seu amigo não deixaria essa declaração passar em branco.
— Embora eu não queira admitir e me convença de que não deveria me importar, a história de Melina Krykos chama muito minha atenção. Não só ela, mas também sua família, seu pai, sua mãe…
— Que? Adam não escondeu sua surpresa. — Espere um minuto, você está me dizendo que nas suas férias, naquele suposto retiro espiritual que você está fazendo do outro lado do mundo, você decidiu colocar sua mente de agente do FBI para funcionar? Oh, Willian, Willian… Adam continuou, exasperado. — Você não se controla. O que dia*bos você está fazendo investigando essa família? O que aconteceu com aquela garota é bem claro: ela foi assassinada e o crime foi encoberto como um caso não resolvido. E esse também não é um caso que diz respeito a você!
— Eu sei, eu sei. Respondeu Willian, tentando acalmá-lo. — Não estou dizendo que vou descobrir. Mas há coisas sobre essa família, sobre esse homem, que não fazem sentido. O desaparecimento da menina, o sobrenome Krykos… É proibido na Grécia. Um grego famoso, um multimilionário, nem sequer pode ser mencionado em seu país de origem. Você não acha estranho?
Adam soltou um suspiro pesado antes de responder.
— Sim, é estranho. Mas é como mencionar o nome de um ditador em um país que sofreu por causa dele. Olha, se fazer uma pequena pesquisa é divertido para você, faça isso. Mas tenha cuidado. Eu conheço você, Willian. Você está tão relaxado quanto gordo: nem um pouco. E se o caso começar a ficar interessante, você vai continuar resolvendo-o. Porque você é assim.
Willian soltou uma risada curta, sabendo que Adam estava certo.
— Não vou ficar e nem pretendo resolver isso. Mas eu quero entender o que aconteceu há um ano com aquela herdeira. Por que, depois de ser visto como um homem de grande poder, Leander Krykos passou a ser associado à morte?
Enquanto ele falava, o veleiro começou a se afastar do porto de Mykonos. Willian olhou pela janela, observando o horizonte se estendendo à sua frente.
— Quero te perguntar uma coisa, Adam. Por favor, envie-me todas as informações que você puder encontrar sobre essas pessoas. Uma foto, uma biografia, seja o que for.
— Enviar para você? Por que você mesmo não pesquisa na Internet? Adam perguntou, ainda mais confuso.
— Não há nada. A voz de Willian era firme, quase resignada. — E é isso que alimenta minha curiosidade. Que tipo de poder esse homem ou sua família têm para apagar seus rastros tão completamente neste lugar?
Adam ficou em silêncio por um momento, processando as palavras do amigo.
— Ok, vou te enviar o que eu encontrar. Mas ouça, Willian: se você descobrir alguma coisa nessa pequena exploração que possa colocar a sua vida em perigo, saia imediatamente e volte para casa. Ele fez uma pausa antes de continuar. — Você foi aí para se encontrar, não para procurar uma herdeira bilionária que provavelmente está enterrada em algum lugar daquela ilha há mais de um ano.
— Entendido. É só uma exploração divertida. Respondeu Willian, com um toque de ironia em seu tom.
— Divertido…Adam repetiu, não totalmente convencido.
Willian alargou o sorriso, deixando a ironia nas palavras do amigo desaparecer no ar.
— Já conversei com alguns moradores locais, Adam, mas não sou homem de acreditar em mitologia. Acho que nem acredito em Deus neste momento. Mas sim, no que é real, no que posso ver, tocar e sentir. Disse ele, enquanto finalmente pisava na proa, onde o vento começava a soprar forte. E acho que nessa busca, posso encontrar algo que me reconecte com o Willian Voss que minha ex-esposa destruiu com sua traição.
Quando o sinal começou a falhar, Willian rapidamente se despediu, prometendo ligar novamente quando chegasse ao seu destino. Finalmente, a ligação foi cortada, e ele soltou um suspiro enquanto seu olhar se erguia para o céu. As nuvens pesadas que o cobriam pareciam prever uma jornada difícil, mas algo dentro dele o impulsionava a continuar em frente. Ele sorriu para sua equipe quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
— Parece que teremos uma jornada turbulenta. Ele disse gravemente, com um tom quase divertido.
— Podemos precisar parar se a tempestade se intensificar. Respondeu Alexios, verificando o radar. Syros e Kea são as ilhas mais próximas.
— Vamos ver como o clima nos trata. Por enquanto, mantenha a velocidade em 25 nós. Ordenou Willian, balançando a cabeça com determinação. — Espero que o Mar Egeu não decida me aceitar como tributo.
O sorriso imediato de Alexios apenas confirmou o humor ácido que ambos compartilhavam. Mas Willian, por sua vez, não conseguia se livrar da sensação de que algo significativo o esperava no final desta jornada. Com Mykonos desaparecendo no horizonte, restava apenas o vasto mar, azul profundo e agitado, prometendo uma jornada turbulenta e desafiadora.
Enquanto a tempestade avançava, Willian e sua equipe se coordenavam precisamente para manter o veleiro estável. Dimitrios manuseou a máquina com habilidade, enquanto Alexios e Willian protegeram cada canto do veleiro para minimizar os riscos. Quando as ondas começaram a atingir alturas alarmantes, eles decidiram se refugiar nas cabines internas.
As horas passaram lenta e tensamente. A viagem que normalmente levaria seis horas se estendeu para quase oito. Finalmente, eles chegaram ao cais leste de Atenas, onde Willian havia atracado seu veleiro pela primeira vez. A chuva continuava caindo forte, e o céu escuro, cheio de nuvens, fazia a tarde parecer noite.
— O mar está bastante agitado, senhor. Disse Alexios enquanto baixava a âncora para apoiar o veleiro. — Devemos esperar para desembarcar?
— Sim, é melhor darmos tempo ao tempo. Talvez essa chuva torrencial acabe logo. Respondeu Willian da cozinha, onde preparava um sanduíche. — A propósito, quem é o deus da chuva na Grécia?
— Zeus é o deus do clima. Respondeu Alexios, sorrindo.
— E Poseidon? Willian perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Poseidon é o deus do mar. Eles são irmãos, senhor.
A risada de Alexios era contagiante, e Willian não conseguiu deixar de sorrir também. Então ele foi até a cozinha e sentou-se perto da janela. De lá, ele observou os pequenos barcos ao seu redor balançando e virando na água, enquanto o mar escuro rugia com avisos. No entanto, o que chamou sua atenção foi um brilho fraco no topo de uma montanha próxima. Ali estava seu primeiro alvo: o hotel de luxo abandonado que pairava como uma sombra do passado, esperando para ser explorado.
A tempestade os manteve presos por mais duas horas. Quando a tempestade finalmente diminuiu um pouco, eram quase sete horas da noite. A tripulação havia garantido o veleiro, mas a chuva persistente e o cansaço do dia pesavam sobre todos.
— Senhor, vamos encontrar nosso irmão. O veleiro está seguro. Você vem conosco ou vai ficar aqui esta noite? Parece que a tempestade não vai passar tão cedo. Disse Alexios, encharcado, mas calmo.
Willian estava prestes a atender quando sentiu seu telefone vibrar. Finalmente, tive recepção. Ao verificar suas notificações, ele viu uma série de mensagens acumuladas.
— Vou ficar aqui esta noite. Ele respondeu, com os olhos fixos na tela. — Diga ao seu irmão que eu estarei lá amanhã e para me preparar um bom café da manhã, como o que ele me serviu antes de eu partir.
— Claro, senhor. Disseram os irmãos em uníssono antes de sair.