Willian assentiu lentamente. Estava claro que a vida de Melina tinha sido pública de muitas maneiras, mas esse contraste com o desaparecimento absoluto de sua mãe a deixou ainda mais desconfortável. Como era possível que alguém tão visível pudesse, ao mesmo tempo, ter lacunas tão profundas em sua história?
— Então, não se tem notícias da mãe desde que ela foi embora com a filha... Willian resumiu, juntando os pedaços da narrativa em sua mente. — Ela fez isso porque descobriu que Leander havia vendido a sua filha, certo? Para os americanos?
Alexios assentiu solenemente.
— Exato.
— Se Melina tinha cinco anos quando isso aconteceu e voltou quando tinha doze, isso significa que ela ficou com a mãe por sete anos. Mas não há informações claras sobre o que aconteceu durante esse período. Suíça, você disse?
— Possivelmente a Suíça, mas ninguém sabe ao certo. Admitiu Alexios, enquanto Dimitrios olhou para Willian, ciente de que o assunto estava longe de terminar. — Não, senhor, não há informações concretas, mas especula-se que a família de Gianella, ao saber o que havia acontecido com sua neta, a acolheu de volta e permitiu que ela ficasse com eles. Explicou Alexios calmamente.
Para Willian, isso fazia algum sentido.
— Houve um boato de que a senhora morreu em um acidente espetacular. Dizem que a jovem também estava a bordo e sobreviveu, mas perdeu a memória. Acrescentou Dimitrios, fazendo Willian franzir a testa.
— Alguns até afirmam que Leander ordenou a execução de Gianella, tudo para recuperar sua filha e os bens que Melina Krykos havia acumulado até então.
Willian soltou um suspiro pesado, apoiando um cotovelo na mesa enquanto ponderava.
— Sinto que estão atribuindo a esse homem um poder muito intenso e até mesmo sombrio.
— Ele é um poder sombrio e intenso, senhor. Respondeu Dimitrios, olhando para o americano. — Meu irmão deixou de fora algo importante quando falou sobre Leander Krykos. Não só fechou os seus hotéis, sites e cancelou reservas, como também houve um número excessivo de desaparecimentos de ex-funcionários que trabalhavam naqueles vinte e sete estabelecimentos.
Willian engoliu em seco com essas palavras. Dimitrios continuou em um tom quase sombrio:
— Sem distinção. Mulheres, homens, jovens ou quase aposentados, não importava. De repente, aquelas pessoas simplesmente não estavam mais lá. Quando as suas ausências começaram a ser notadas, as pessoas começaram a chamá-lo de demô*nio, o deus da morte. Porque, mesmo longe do seu centro de operações, ele conseguia executar com apenas uma ordem.
Willian estreitou os olhos, deixando sua mente processar as informações. Agora, mais do que nunca, o nome de Leander Krykos parecia estar ligado a redes de poder oculto. Ele começou a suspeitar que o hoteleiro tinha conexões com clãs da máfia. Tudo se encaixa: um homem pobre, com vícios, sem habilidades aparentes para o trabalho, que é forçado a fazer negócios obscuros. Talvez, se ele realmente vendeu a filha para redes de tráfico, ao não cumprir os acordos, ele tenha sido forçado a usar a imagem dela e seus hotéis como fachada para lavar dinheiro.
— Talvez sua ascensão meteórica como magnata da hotelaria não passasse de uma fachada. Ele pensou em voz alta. — Some-se a isso o desaparecimento de sua filha, o silêncio absoluto sobre sua esposa e o fato de ele ter fugido do país que o viu se tornar um poderoso empresário, e tudo fica envolto em mistério. Porque?
Dimitrios e Alexios trocaram olhares, e foi este último quem respondeu: aquele homem condenou a sua vida, e ele sabe disso. Não importa onde ele vá ou quanto tempo viva, a dor que ele causou à filha sempre o seguirá. Disse Alexios com uma firmeza que quase soou como uma frase. — Porque a Srta. Melina nunca, jamais deveria ter tido que viver um destino tão trágico.
Willian terminou seu café e pegou algumas uvas da bandeja de frutas, mas então se levantou desconfortavelmente. Algo naquela história o intoxicou com uma mistura de fascínio e desconforto. Talvez fosse o mistério, aquela necessidade intrusiva de expor a verdade, como ele havia feito em tantos casos anteriores.
— É certamente uma história pesada. Ele admitiu, olhando para os irmãos. — Mas agradeço novamente pela informação. Esclareceu algumas dúvidas para mim. Espero... Acrescentou ele em tom sério. — Que se Leander realmente teve algo a ver com o que aconteceu com sua filha, a justiça chegue até ele em breve.
Ele não se moveu imediatamente, pois Alexios também se levantou.
— Ele tem tudo a ver com o que aconteceu com sua filha. Alexios afirmou com firmeza, seus olhos fixos nos de Willian. — Melina pagou as consequências dos pactos obscuros que seu pai fez. Ele deu um passo em direção a ele, o seu olhar se intensificando. —Seus gritos ainda podem ser ouvidos no ar. Já faz um ano que a Grécia não é mais a mesma.
Willian olhou para baixo e balançou a cabeça suavemente antes de apertar o ombro de Alexios com uma mão. Ele suspirou e finalmente apontou para a saída.
— Vamos para o albergue do seu irmão. Ele disse com uma voz séria. Alexios franziu a testa.
— Você quer voltar para lá? Ele perguntou.
— Ficarei aqui por alguns dias para resolver algumas coisas e depois partiremos para Rodes. Santorini e Atenas serão minhas últimas rotas antes de voltar para casa. Ele disse decisivamente. — Meus dias neste lugar estão contados e não quero perder tempo ouvindo gritos no ar.
Os irmãos se entreolharam enquanto Willian saía da sala. Alexios retornou ao seu lugar, mas percebeu o olhar persistente de Dimitrios sobre ele.
— Você sabe que ele pode desaparecer como os outros fizeram se ficar muito curioso. Dimitrios avisou calmamente. — Afinal, ele é um policial, certo?
— Agente do FBI. Corrigiu Alexios, sem tirar os olhos da porta pela qual Willian havia saído. — Mas isso só se aplica ao país deles, aos estados deles. A Grécia é um mundo diferente, e já avisamos ele. Ele decidirá se ignora ou não esses avisos. Ela pegou um pedaço de fruta. — Porque nós dois sabemos que qualquer um que tentar encontrar a herdeira de Krykos declarará imediatamente sua sentença de morte.
Os irmãos só conseguiram apertar os lábios, trocando um olhar repleto da cumplicidade que desenvolveram depois de anos trabalhando juntos em grandes navios como aquele. Apesar das inúmeras personalidades que conheceram em suas jornadas, nenhum dos ricos proprietários a quem serviram se parecia com o Agente Willian Voss. Havia algo nele que o destacava: uma mistura de carisma, firmeza e, acima de tudo, uma curiosidade insaciável que o levava além dos limites convencionais.
Alexios, em particular, não conseguia ignorar aquela sensação incômoda em seu peito, um pressentimento que se tornara quase tangível. Ela sabia que Willian não era o tipo de homem que deixava pontas soltas, principalmente quando algo o incomodava. E o caso da herdeira desaparecida, com toda a sua teia de mistérios e tragédias, parecia ter acendido uma centelha na mulher de quarenta anos que seria difícil de apagar.
— Ele não vai ficar quieto. Alexios finalmente murmurou, quebrando o silêncio enquanto seu olhar permanecia fixo na porta pela qual Willian havia saído momentos antes.
— Eu sei. Dimitrios respondeu cruzando os braços. — Ele é um homem que cheira a místerio como um lobo cheira a sua presa. Mas, a Grécia não é o seu terreno, e este não é um caso que ele possa resolver com um computador e um arquivo.
Alexios assentiu lentamente, mas, o seu semblante permaneceu sério. Ele conhecia bem a história de Krykos, mas do que gostaria. Ela tinha ouvido os sussurros nos portos, as histórias a luz fraca das tabernas, e tinha visto com os seus próprios olhos a extensão do poder de Leander Krykos, um poder que não parou diante das fronteiras da lei.