Depois de lavar o rosto, ele m*al conseguiu conter um bocejo enquanto se olhava no espelho do banheiro privativo da cabine principal. Ele esticou o pescoço de um lado para o outro e balançou a cabeça suavemente ao descobrir os chupões que marcavam o seu peito. Ele franziu a testa ao perceber que teria que cobri-los abotoando a camisa até o alto. As mulheres francesas. Ele pensou. Eram um turbilhão: caóticas, fogosas e totalmente devotadas a vivenciar tudo o que fosse possível, buscando guardar memórias únicas. Sem dúvida, ele havia assumido a responsabilidade de presenteá-las com um dos seus favoritos, mantendo-as entretidos até o nascer do sol.
Ele não perguntou sobre isso, e não pretendia, mas tinha certeza de que Alexios devia ter testemunhado parte do resultado. A última imagem o fez rir por ser absurda e provocativa: as duas loiras insolentes, ajoelhadas diante dele, mostrando a língua descaradamente ao receberem o fim da sua euforia. Elas não pediram mais nada depois disso. Com a mesma audácia com que chegaram, elas se vestiram, foram ao banheiro para se limpar um pouco e, quando a calmaria começou a se instalar no porto, desceram do veleiro de mãos dadas, rindo como se estivessem compartilhando um segredo que o mundo jamais entenderia.
Isso aconteceu alguns dias atrás, mas Willian ainda não tinha decidido para onde ir em seguida. Depois de enxaguar a boca, ele procurou a saída com o celular na mão e óculos escuros escondendo o rosto cansado. Ele subiu as escadas de madeira do elegante veleiro e encontrou a sua pequena tripulação na sala de jantar, preparando o café da manhã. O aroma de café e pão fresco enchia o ar, despertando um apetite inesperado.
— Bom dia. Ele cumprimentou com uma voz profunda.
— Bom dia, Sr. Voss. Os irmãos responderam em uníssono.
— Você dormiu melhor? Alexios perguntou enquanto se virava para ele.
— Não é tão confortável quanto um hotel, mas é bom. Admitiu Willian com um leve sorriso. Ele foi até o balcão e encontrou a cafeteira. — Isso é para você ou posso ficar com alguma coisa também?
— É para todos. Respondeu Dimitrios rapidamente. — Fui ao mercado cedo e comprei algumas frutas, pães e salsichas de cordeiro. Elas são ótimas grelhadas.
— Venha, sente-se conosco. Alexios convidou, apontando para a mesa que já estava posta.
Willian assentiu levemente em concordância e se juntou a eles. A cena parecia quase caseira, um contraste agradável depois de dias de excessos e festas sem fim. Os pães, molhos e frutas dispostos cuidadosamente sobre a mesa davam-lhe uma estranha sensação de normalidade que, ele admitia para si mesmo, estava começando a sentir falta.
— Ficaremos em Mykonos por muito mais tempo, senhor? Dimitrios perguntou enquanto enchia o seu prato.
— Não, acho que é hora de ir. Respondeu Willian. O seu tom firme, mas relaxado. — Aproveitei bastante as férias.
Alexios olhou para ele e, com um sorriso sarcástico, e acrescentou: percebemos isso há alguns dias.
A risada de Willian foi imediata. Ele pegou a sua xícara de café e tomou um gole antes de dar de ombros. Ele não era alguém que se envergonhava dos seus encontros ínti*mos, embora sempre tenha se considerado mais interessado em intim*idade e romance. No entanto, ele não podia ne*gar que havia gostado daqueles momentos selvagens.
— Como eu disse, já estou farto. Agora é hora de decidir para onde ir. Disse ele enquanto pegava um pedaço de pão sírio. — Estava pensando entre Rodes e Santorini, mas ainda não decidi. Talvez vocês possam me ajudar a escolher.
Os irmãos trocaram olhares cúmplices antes de responder.
— Se você quer história e museus, Rodes é a melhor escolha. Disse Alexios.
— Se você procura algo mais moderno e turístico, pode ir para Santorini. Acrescentou Dimitrios. — Embora Paros também seja interessante, especialmente se você gosta de esportes aquáticos. As suas praias são espetaculares.
— Ou Skiathos. Alexios interrompeu. — Areia dourada, ambiente tranquilo, ideal para relaxar por alguns dias.
Willian ouviu atentamente as sugestões enquanto continuava comendo. Apesar das opções atraentes, ele ainda não tinha certeza do que exatamente estava procurando. Uma parte dele até considerou retornar a Atenas e partir mais cedo.
— Vamos comer primeiro. Ele disse finalmente. — O meu cérebro ainda está meio adormecido. Preciso de combustível para pensar.
O café da manhã ocorreu num ambiente descontraído. Embora estivessem compartilhando o veleiro por pouco mais de dez dias, os irmãos Petrakis conseguiram fazer com que Willian se sentisse confortável. Depois de um tempo, ele olhou para Alexios, lembrando-se de algo que estava na sua mente há dias.
— Tenho algumas perguntas sobre a história que você me contou da última vez. Disse Willian, com o rosto pensativo. A história dos Krykos continuava na sua mente, como um quebra-cabeça que ele precisava resolver. — Sobre a família, cujo sobrenome não vou citar, embora saiba que estamos num círculo de confiança. Ele acrescentou, observando os irmãos trocarem um olhar fugaz, daqueles que escondem um misto de cumplicidade e desconfiança. — Posso?
— Claro, senhor, claro. Respondeu Alexios, levando a sua xícara de café aos lábios antes de continuar. — Que dúvida ou perguntas você teve desde a nossa última conversa?
— Na verdade, há muitas delas. Esclareceu Willian, recostando-se ligeiramente na cadeira enquanto apertava as mãos sobre a mesa. — Mas digamos que algumas delas, especialmente aqueles relacionados ao caso da jovem herdeira, não me interessam tanto assim. Ele deu de ombros, sugerindo que a suas perguntas nasceram mais da curiosidade pessoal do que da mentalidade metódica de um agente do FBI. — No entanto, há algo que não está claro para mim: como esse homem e a sua filha se reencontraram? Você me disse que a mãe dela a levou para a Suíça. Alexios assentiu gravemente. — Depois de descobrir o que o seu marido fez... vendendo a sua filha quando ela era apenas uma criança.
— Sim. Alexios confirmou com um suspiro suave, recostando-se na cadeira.
O homem pegou um pedaço de pão e mergulhou-o levemente no café, mastigando silenciosamente enquanto os seus olhos pareciam viajar para algum ponto distante. Willian percebeu como o silêncio carregava o ambiente de tensão, como se as palavras que estavam prestes a sair pesassem mais que os fatos que estavam narrando. Enquanto isso, a sua mente começava a se encher de perguntas. Havia algo nessa família que transcendia a mera riqueza de um hotel. Um poder oculto que parecia enraizado em segredos e lealdades intangíveis.
Por fim, Alexios falou: Melina voltou para o pai quando tinha doze anos. O tom de sua voz era lento, como se ele estivesse escolhendo cuidadosamente cada palavra. — A menina chegou num avião particular. Ela parecia curiosa, fascinada por ver o seu país natal e também feliz. Pelo que foi dito, algo aconteceu com ela que a fez esquecer como ela saiu dali e por que ela e a sua mãe fugiram de Leander.
Willian assentiu, processando a informação.
— Bom, ela tinha cinco anos quando tudo aconteceu, então é natural. Nessa idade, o cérebro ainda não está desenvolvido o suficiente para reter memórias traumáticas. As crianças funcionam quase mecanicamente nessa época. Disse ele, tamborilando os dedos na mesa. — Mas o que não entendo é por que ela voltou. O que aconteceu com a sua mãe? Ela ainda está viva?
— Gianella Caduff, esse era o nome dela, certo? Alexios consultou o seu irmão Dimitrios, que mastigou em silêncio e assentiu sem olhar para o mais velho. — A alta sociedade suíça, sim. Continuou Alexios. — Depois que ela foi embora com a filha, não se ouviu mais nada sobre ela. Era como se ela tivesse desaparecido do mapa. Quando Leander retornou à Grécia com Melina, ninguém teve permissão de se aproximar dela. A sua equipe de segurança era enorme e a tratavam como uma princesa.
Willian franziu a testa, intrigado com a imagem que se formava em sua mente. Alexios continuou: ela era uma menina gentil, muito mais que o pai. Mas essa gentileza a condenou. Onde quer que Melina fizesse amigos, Leander fazia questão de cortar quaisquer laços. Ele a movia constantemente. Acredito que, assim como você, ela visitou quase todas as ilhas gregas antes de completar treze anos.
— Você já a viu? Xander perguntou, genuinamente curioso. — Ela a... Melina?
— Claro. Melina era conhecida por todos na Grécia. Ela era linda, e o seu rosto aparecia em todos os cantos do país. Respondeu Alexios.
— Ainda mais longe. Interrompeu Dimitrios, colocando o seu prato de lado. — Ele estava modelando. Quando não estava nos hotéis de luxo do pai, ele viajava pela Europa no seu jato particular. Participou de passarelas em Milão e Londres e foi imagem de diversas marcas, tanto de luxo quanto menos conhecidas.