Eles estavam sentados nas poltronas perto da popa. Os irmãos Petrakis trocaram cerca de cinco olhares desde que chegaram, mas foi Alexios quem, no final, sentou-se na frente do seu chefe, que apenas levantou uma sobrancelha. Àquela altura, Willian sabia que os eventos estavam se tornando intensos demais para o que ele esperava vivenciar ali. Estava claro para ele que não iria se envolver de forma alguma na resolução do caso da filha do magnata, e muito menos investigaria além do que lhe foi dito, embora estivesse começando a se arrepender de ter perguntado.
— Chegamos. Ele disse confiante, olhando Alexios nos olhos. — Ainda não entendo por que tivemos que nos esconder praticamente para falar sobre algo que está nas notícias do mundo todo. Eu realmente deveria ter pesquisado o nome no Google. Ele acrescentou enquanto se levantava. — Acho que vou procurar um bar onde possa tomar umas bebidas e...
— Leander Krykos é considerado o deus da morte, Thanatos. Ele é chamado de tantas coisas... A voz de Alexios o fez franzir a testa. Willian se virou para ele, mas acabou retornando ao seu lugar nas cadeiras. — Dizem que ele vendeu uma alma para Hades para ficar rico, e há um ano ele a entregou.
Willian franziu a testa, mas acabou sorrindo, incrédulo.
— Vamos ver, você está me dando nomes de deuses gregos. Só quero saber um pouco mais sobre esse homem. Disse ele calmamente ao seu funcionário.
— De onde você conhece o seu nome? Perguntou Dimitrios.
Willian virou-se para ele.
— O meu amigo nos Estados Unidos, mais especificamente em Los Angeles, o conheceu há alguns dias e me disse que ele era grego. Ele sabe que estou nessas ilhas. Comentou ele com indiferença. — Sei que ele possui uma rede de hotéis reconhecida em muitas partes do mundo, não apenas na Grécia. Eu queria saber o que eles sabem sobre ele localmente, mas pelo que posso ver, ele não é uma pessoa muito popular.
Os irmãos olharam-se por alguns segundos, e Willian apenas suspirou.
— O Sr. Krykos não é apenas uma persona non grata na Grécia, mas também uma pessoa perigosa, temida por muitos. Acima de tudo, a sua existência é quase ne*gada. Respondeu Dimitrios, olhando para o irmão, que suspirou antes de continuar. — A família Krykos foi uma família de pescadores de longa data. Eles tinham um pequeno posto no porto de Atenas, e Leander era o mais novo de seis irmãos. Eles viveram durante anos no mesmo lugar, na mesma casa, sem reformas ou mudanças. O seu pai era um alcoólatra violento, e sua mãe, submissa e permissiva, foi afogada pelo próprio marido.
Willian franziu a testa.
— Leander sabia de alguma coisa sobre isso? Ele perguntou cautelosamente.
— Acreditava-se que Leander sabia do plano do seu pai, mas ele não disse nada e não avisou ninguém, embora já não fosse mais um jovem quando isso aconteceu. Foi por isso que ele fugiu. Continuou Dimitrios.
— De Atenas ou da Grécia?
— De Atenas. Ele se mudou para Ática. Respondeu Alexios, assentindo antes de continuar. — Lá ele conheceu uma linda mulher que estava viajando em um cruzeiro. Muitos dizem que ela era uma charmosa herdeira suíça milionária. Ele trabalhava num pequeno bar onde ela ia com alguns amigos. Eles tiveram uma faísca, passaram uma noite juntos e ela partiu no seu cruzeiro...
— E um ano depois ela voltou com uma filha nos braços. Interrompeu Dimitrios. — A linda Melina Krykos.
A essa altura, Willian estava ouvindo atentamente. Ele tinha perguntas, mas a história estava ficando interessante.
— Leander ainda não tinha nada, ele era apenas um garçon naquele bar. Aparentemente, a família da herdeira não a ajudou depois de saber da sua gravidez. Ela veio em busca do apoio do pai da filha, com malas cheias de joias e itens muito valiosos. Explicou Alexios. — Com isso eles criaram um pequeno albergue onde também moravam. A relação do casal não era positiva, afinal, eles não se conheciam bem, e Leander tinha os mesmos vícios do pai...
— Ele era alcoólatra e violento?
Ambos os irmãos assentiram ao mesmo tempo.
— Dizem que uma vez ele vendeu a sua filha Melina para alguns estrangeiros, americanos. Disse Dimitrios. Willian suspirou profundamente. — Ela tinha cinco anos e lhe pagaram bem. Mas, a sua esposa descobriu e foi embora com a garota, buscando asilo novamente com a sua família na Suíça. Leander não a seguiu, mas muitos dizem que ele vendeu a alma para o di*abo naquela noite.
Willian levou a mão ao cabelo, bagunçando-o levemente. Ele olhou para Alexios e Dimitrios, sem entender muito bem o alcance daquele comentário.
— Como? Ele encontrou a sua filha novamente? A esposa dele voltou com ele? O que aconteceu depois? Ele perguntou, intrigado.
Alexios suspirou profundamente antes de se aproximar do limite do espaço.
— Leander Krykos fugiu da Ática e mudou-se para Rodes. Ninguém o conhecia lá, e com o dinheiro que ganhava com o que fazia com a filha, ele alugou uma casa, que mais tarde transformou num negócio de aluguel. À primeira vista, parecia um negócio simples e lucrativo. Willian assentiu, pois fazia sentido para ele. — Mas apenas um mês depois… Alexios levantou um dedo. — Leander se tornou dono de um hotel de luxo que havia sido abandonado no meio da construção.
Willian abriu os olhos em choque.
— Ele terminou? Ele perguntou, incrédulo.
— Sim, concluiu ele. Ele até acrescentou coisas que não estavam no projeto original, detalhes muito mais luxuosos. Ele o inaugurou em apenas seis meses. Foi um sucesso, o primeiro hotel cinco estrelas de luxo em Rodes: o primeiro "Olympia", que é como é chamada a sua linha de hotéis.
— Ok, pode parecer um pouco extremo e até suspeito que ele tenha montado um hotel em tão pouco tempo, mas talvez ele tenha conseguido um empréstimo... Willan arriscou, mas os dois irmãos balançaram a cabeça. — Muitas pessoas, depois de um momento difícil, reorganizam as suas vidas e prosperam. Acho que isso pode ter acontecido com ele.
Mais uma vez, os irmãos negaram em uníssono. Willian olhou para eles, incrédulo.
— Você realmente acha que esse homem ficou rico vendendo a sua alma ao di*abo? Ele perguntou com certa zombaria.
Willian apenas balançou a cabeça, olhou para o relógio no pulso e se levantou. Ele não encontrou nada de interessante, exceto um homem que foi julgado por ter enriquecido em pouco tempo. Ele conseguia entender por que havia um certo fascínio entre as pessoas, mas também sabia que histórias de sucesso abundavam no mundo. Então ele se preparou para se levantar.
— Parece que o tempo está melhorando. Se você quiser, podemos pegar um táxi até a praça para ver um pouco mais e então, à noite, nos encontraremos aqui e...
Ele ficou em silêncio enquanto Alexios estava na sua frente. A maturidade do homem, mesmo com apenas dez anos de diferença, inspirava respeito óbvio, então Willian apenas suspirou.
— Leander Krykos não vendeu a sua alma ao dia*bo. Ele vendeu uma alma. Disse Alexios com uma voz séria, profunda e grave. — A da filha dele.
Willian franziu a testa.
— Melina Krykos desapareceu há um ano, na ilha do seu pai, Ethereal. Alexios continuou, causando uma sensação desconfortável no peito de Willian. — Ela foi vista pela última vez embarcando no helicóptero da sua família em Atenas. Iates e veleiros luxuosos, como o dele, enchiam o porto local. Muitos dizem que música e celebração podiam ser ouvidas em Atenas. Durante quatro dias. Ele levantou quatro dedos. — O céu ficou cheio de fogos de artifício para celebrar a herdeira. E no dia cinco, no dia do seu aniversário, seus convidados, famosos, conhecidos e tão luxuosos quanto ela, chegaram animados ao seu quarto com um bolo enorme... e não conseguiram encontrá-la.
Willian sentou-se novamente, com o olhar fixo em Alexios, que ainda estava de pé na sua frente. O homem olhou para o céu, como se tentasse organizar seus pensamentos ou lembrar dos detalhes do que havia acontecido.
— As suas joias estavam ali, intocadas. Os seus vestidos de grife ainda estavam pendurados no armário da sua antiga casa. Até os seus chinelos estavam dispostos em fila, como se ela os tivesse tirado para dormir. A cama, disseram eles, ainda parecia reter o calor do seu corpo e o formato da sua figura esbelta. Alexios olhou diretamente para ele. — Mas a herdeira não estava lá. A sua busca foi exaustiva. Helicópteros voavam pelo céu um após o outro, desde o luxuoso pequeno helicóptero de Leander Krykos até os helicópteros da polícia.
— Eles chamaram a polícia no mesmo dia? Perguntou Willian, uma mistura de curiosidade e ceticismo.
— Para quem você liga quando uma herdeira que vale bilhões desaparece? Alexios respondeu com outra pergunta.
Willian assentiu silenciosamente enquanto Alexios se sentava em frente a eles, acomodando-se na cadeira.
— Ninguém entrou ou saiu da Grécia por uma semana. Continuou Alexios. — Voos comerciais foram cancelados em todo o mundo. As companhias aéreas ficaram chateadas, mas Krykos pagou por cada raiva e cada acusação para encontrar a sua filha. Mas todos nós sabemos o que aconteceu…
Willian estreitou os olhos, buscando compreensão.
— Hades veio buscá-la.
Willian tentou manter o rosto calmo, demonstrando respeito pela situação, mas no final apenas trocou olhares com Dimitrios e Alexios antes de dar um sorriso caloroso, quase irônico.
— Acho que podemos ter certeza de que não é esse o caso. Possivelmente a garota fugiu com alguns amigos, um namorado, ou até mesmo foi… Ele franziu a testa, sentindo que era desconfortável mencionar a possibilidade. — Somos adultos, nenhum de nós pode mais ouvir histórias infantis. É uma pena o que essa garota passou, porque ela é jovem, tem apenas 25 anos. Mas acho que agora até Leander Krykos sabe que a sua filha pode estar morta.