— Você está mais preocupada com onde você está do que com quem você é? Perguntou o homem, inclinando a cabeça como se analisasse cada uma das reações dela.
A pergunta a deixou paralisada. A sua respiração ficou irregular, e uma pontada no peito a lembrou de quão frágil ela se sentia naquele momento. As mãos feridas dele chamaram a atenção dela. A unha de um dos dedos estava quebrada, e manchas de sangue seco contrastavam com o cinza das roupas que ele vestia, uma vestimenta simples, suja e surrada, semelhante a um uniforme de hospital. Ela olhou para seus pés descalços e machucados e então agarrou uma mecha de cabelo que caía sobre o seu peito rígido e emaranhado.
— Quem sou eu? Ela perguntou num sussurro quase inaudível, como se temesse a resposta. As suas memórias eram uma bagunça, um abismo que ela não conseguia acessar. Onde? Quem?
A sua respiração acelerou ainda mais, e ela colocou uma mão trêmula no peito, tentando acalmar as batidas violentas do seu coração. Os seus olhos voltaram-se para o homem à sua frente.
— Quem sou eu? Repetiu ela, dessa vez num tom mais urgente.
— Venha, prinkípissa. Ele disse, estendendo gentilmente a mão. Aquela palavra estranha, dita com um sotaque peculiar, causou-lhe um arrepio na espinha. — Venha, por favor.
Ela franziu a testa profundamente, desconfiada. O seu olhar voltou-se para os soldados ainda na sala, atentos, mas imóveis. Com uma breve ordem do homem, todos deixaram o local, restando apenas a mulher que o acompanhava inicialmente. Ela engoliu em seco e, por um momento, os seus olhos vagaram para a sacada, onde o som do mar mais uma vez chamou a sua atenção. No entanto, ela decidiu recuar para o escritório, mantendo distância.
Quando ela parou na frente do homem, os seus olhares encontraram-se. Os seus profundos olhos verdes pareciam perfurá-la, enquanto ela estendia cautelosamente a mão. Ele m*al conseguiu tocar a mão dela quando tudo mudou.
— Não! Ela gritou alto ao sentir como ele, num movimento ágil, a agarrou. O braço forte dele envolveu o tronco dela, imobilizando-a completamente.
Antes que ela pudesse resistir, a mulher que ainda estava na sala rapidamente se adiantou e enfiou uma agulha no pescoço da jovem. Ela engasgou, o seu corpo tremeu e logo a sua força começou a abandoná-la. A sua visão ficou turva, as vozes ao redor dela se tornaram um murmúrio distante. Ela sentiu o sangue correndo nas suas veias e o ar escapando lentamente dos seus pulmões. Antes de perder a consciência, o seu olhar avistou um par de botas militares se aproximando dela.
Quando ela abriu os olhos novamente, tudo era uma névoa de luzes amarelas ondulando nas paredes. Ela se sentia desconectada de seu corpo, como se cada mem*bro estivesse flutuando separadamente dela. Ela tentou concentrar os ouvidos, mas m*al conseguia entender a língua em que duas pessoas, um homem e uma mulher, conversavam ali perto.
O som familiar de uma cela fechando o assustou. Ela foi carregada para uma cama dura, e o roçar dos dedos nos seus cabelos a fez prender a respiração.
— Lá fora, os lobos vão te comer, princesa. Sussurrou uma voz masculina.
Ela o observou ir embora e percebeu uma folha de papel cair do bolso de trás do homem. Com um esforço titânico, ela rastejou pelo chão até agarrar o papel. De volta à cama, ela desdobrou o documento com as mãos trêmulas. Os seus olhos caíram na primeira página do que parecia ser um jornal. A imagem de uma mulher de cabelos castanhos a encarou, e algo nela parecia estranhamente familiar.
— Sou eu? Ela perguntou para o ar, a sua voz quase um sussurro que se perdeu no silêncio da cela.
Melina olhou atentamente para a folha de papel, mas os parágrafos escritos nela pareciam confusos para ela, como se um véu cobrisse o seu entendimento. Foi então que os seus olhos captaram um nome que a fez franzir a testa.
— Melina Krykos. Ela leu suavemente, como se estivesse testando as palavras nos seus lábios. — Melina Krykos, vinte e cinco anos...
Ela continuou a desvendar as linhas, procurando por algum significado oculto que lhe trouxesse clareza, até que uma palavra capturou completamente a sua atenção.
— Sequestrada? Ela repetiu ele com a voz trêmula.
A jovem olhou para a folha de papel, como se quisesse ter certeza de que não era um erro. Ela engoliu em seco e continuou com uma resolução incipiente: eu sou Melina Krykos, tenho vinte e cinco anos e fui sequestrada...
Ela repetia essas palavras na sua mente como um mantra, agarrando-se a elas com um desespero quase infantil, com medo de que aqueles fragmentos escapassem, como aparentemente havia acontecido com o resto das suas memórias. Sentindo que a sua consciência estava começando a desaparecer, ela cuidadosamente dobrou o papel e o escondeu debaixo do colchão da sua cama. Ela então se deitou em posição fetal, olhando para as grades da cela. Com a voz quase um sussurro, ela continuou murmurando: eu sou Melina Krykos, tenho vinte e cinco anos e fui sequestrada...
...
Enquanto isso, a quilômetros de distância, um homem estava abrindo as cortinas grossas do seu quarto de hotel. Ele suspirou enquanto olhava para as nuvens cinzentas se formando no horizonte, pesadas e ameaçadoras, como um prenúncio de uma tempestade iminente. Ele franziu a testa quando um clarão à distância, perto de uma montanha à beira de um penhasco, chamou a sua atenção. Sem pensar, ele abriu as portas da sacada e saiu, deixando a brisa fria e úmida bater no seu rosto. Ele apoiou-se no corrimão, apertando os olhos para tentar distinguir o brilho bruxuleante que parecia desafiar a luz fraca do sol.
— E essa é a última? Perguntou uma voz atrás dele.
Willian virou a cabeça para o interior do quarto, onde o dono da pousada, um homem baixo e de comportamento amigável, o observava com um sorriso curioso. Ele era o gerente, carregador de malas e cozinheiro da pequena pousada, um homem que fazia tudo.
— O que você está fazendo aí fora, Sr. Voss? Ele perguntou em tom preocupado. — A chuva está chegando. Você vai ficar doente.
Willian deu uma última olhada em direção ao penhasco antes de entrar.
— Achei que tinha visto alguma coisa. Disse ele enquanto fechava as portas da sacada. — Existe alguma estrutura naquele penhasco?
O homem do albergue olhou pela janela, balançando a cabeça enquanto agitava as mãos exageradamente.
— Anos atrás, muitos anos atrás. Respondeu ele em tom teatral. — Havia um hotel de luxo lá, para pessoas muito ricas. Mas faliu. Chamava, Colina.
— Entendi. Alguém se importa com o lugar ou mora lá?
— Não, está desocupado, livre. Ninguém chega perto. O anfitrião fez uma pausa e acrescentou com um sorriso caloroso. — Vou deixá-lo descansar, Sr. Voss. Admito que é estranho ter turistas nesta época do ano. Mas entendo que é para economizar alguns centavos.
— Não sou turista. Respondeu Willian, dando de ombros. — Bom, eu não sou daqui, isso é óbvio. Estou aqui para passar um mês de férias. Uma licença do meu trabalho.
O dono do albergue olhou para ele com curiosidade enquanto Willian explicava: meu veleiro está no porto. Pretendo sair daqui e explorar algumas ilhas no Mar Egeu. Nada muito arriscado.
— Tem uma tripulação? Perguntou o anfitrião, levantando uma sobrancelha.
— Eu não preciso disso. Não pretendo ir muito longe nem fazer nada perigoso. Talvez eu pare em ilhas famosas ou passe algum tempo no meio do mar, longe de tudo.
O homem caiu na gargalhada com a confissão de Willian, e ele também riu, embora com um toque de melancolia. Quando o anfitrião fez uma reverência amigável, Willian o dispensou com um aceno de cabeça.
— Bem-vindo à Grécia, Sr. Voss.
— Obrigado. Ou, como dizem aqui, ef-jaristó polý. Ele tentou pronunciar com cuidado, mas, o seu sotaque provocou uma risada no homem, que respondeu: um muito obrigado é o suficiente.
Quando ficou sozinho, Willian suspirou. O vento batia com mais força nas janelas e a chuva começava a ficar mais intensa. Ele foi até suas malas, pegou o seu celular e tirou algumas fotos da paisagem. O mar e o céu se fundiam no mesmo tom acinzentado, refletindo o estado de espírito que o acompanhava desde a sua chegada. A Grécia o recebeu com um humor tão sombrio quanto os seus próprios pensamentos.
Ele passou pouco tempo na Espanha, apenas o suficiente para se perder na companhia de duas jovens recepcionistas depois dos seus turnos. A mais nova, com sua aparência ingênua, havia se mostrado um furacão na cama, levando-o a explorar recantos do seu desejo que ele julgava esquecidos. Mas não era isso que ele tinha vindo procurar.
Ele não estava na Grécia para uma vida de festas, nem para se tornar uma "prost*ituta", como a sua cunhada havia sarcasticamente sugerido. Ele estava lá para encontrar algo que lhe devolvesse o seu propósito. Ele queria se livrar da culpa que o consumia desde o que aconteceu com a sua esposa. Embora ele não recusasse o contato humano se este se apresentasse, sua missão era diferente.
— Esquecendo que, aos quarenta, a sua vida perfeita foi para o infe*rno. Murmurou para si mesmo, com um misto de resignação e auto piedade.
Ele voltou para a sacada e tirou mais fotos. Foi então que o clarão no penhasco chamou a sua atenção novamente. Sem hesitar, ele focou a câmera naquele ponto brilhante, escondido entre as árvores varridas pela chuva, e capturou a imagem.
Uma pressão persistente no peito o deixava desconfortável, uma sensação da qual ele não conseguia se livrar desde que chegara a Atenas. Ele acreditava, sem saber exatamente por quê, que na Grécia encontraria respostas para perguntas que ainda não ousara fazer. Talvez, com sorte, ele encontrasse um novo motivo para seguir em frente, para se reconciliar com o seu trabalho e a sua vida. Ou talvez ele encontrasse alguém que o lembrasse de que ele ainda merecia ser amado, apesar da traição da mulher que um dia foi seu mundo.