A tempestade parecia poderosa, sem nenhum sinal de que iria parar a qualquer momento, mas ele permaneceu alerta, e não necessariamente pela forma como os raios e trovões cruzavam o céu, mas por causa daquela rajada de tiros que ele tinha certeza de ter ouvido na área onde ficava aquele hotel abandonado.
Ele permaneceu armado, pronto para agir se necessário. A jaqueta que ele usava não era apenas à prova d'água, mas também uma vestimenta especial fornecida pelo FBI, com proteção embutida em seus fios que a transformava em um colete à prova de balas em caso de emergência. Ele não havia saído da cabine e não tinha intenção de fazê-lo naquele momento.
Ele sabia que a melhor coisa que podia fazer era fingir que não havia ninguém no barco, sem se comunicar com ninguém, mesmo que o rádio e o celular estivessem perto dele. Ele não tinha ideia do que tinha acontecido, mas mesmo com o barulho da tempestade ele podia ouvir tiros e latidos de animais que pareciam muito nervosos.
Já passava da meia-noite e ele tinha certeza de que algo grande e muito importante havia acontecido naquela área. Ele temia pela vida dos irmãos Petrakis, ele não ne&gava, mas naquele momento ele priorizava sua própria sobrevivência acima de qualquer outra. Ele franziu a testa ao ouvir o movimento dos cilindros. Ele imediatamente se pressionou contra a porta da cabine, tentando discernir se o barulho vinha de seu próprio veleiro ou de algo externo. No entanto, ele não sentiu nenhum movimento lá fora.
Ele levantou a arma para o teto quando ouviu um baque alto. Àquela altura, ele sabia que alguém havia arrombado seu veleiro. Lentamente, ele moveu a maçaneta da pesada porta, abrindo-a com muito cuidado para não fazer nenhum barulho. Com uma arma em punho e uma pequena lanterna da equipe de segurança do navio, ele deixou a cabine, movendo-se com a perícia que seu treinamento lhe concedeu.
Os raios eram a única coisa que iluminava aquele lugar, pois desde o primeiro tiro ele havia desligado todos os sistemas e motores para simular que o veleiro estava vazio. Ele andou cautelosamente pelo corredor. O veleiro tinha três cabines e era totalmente equipado para aventuras em alto mar, incluindo um pequeno porão localizado perto da proa.
Através de uma grande janela que oferecia vista para a costa, ele notou o movimento de caminhões pesados indo em diferentes direções. As luzes brilhavam através das árvores e dos negócios vazios e escuros da área. Eles estavam procurando por algo ou alguém, ele tinha certeza disso, embora à distância fosse difícil discernir se as pessoas eram policiais ou outra coisa. No entanto, era evidente que havia muitos deles.
Ele desviou o olhar quando ouviu o movimento dos cilindros novamente. Ele sabia que tinha guardado oxigênio para mergulho no porão, junto com outros suprimentos de pesca e segurança. Abandonando a vigilância pela janela, ele avançou em direção à porta do porão com sua arma firmemente em punho e abriu com cuidado.
Sua figura alta e furtiva parecia a de um gigante, um espectro de escuridão que poderia intimidar qualquer um. Willian sabia que estava no meio de algo muito importante, e seu palpite o levou a essas histórias de poderes, famílias e desaparecimentos. No entanto, outra parte dele o forçou a se concentrar no que realmente importava: permanecer seguro. Embora seu instinto de agente estivesse ativado, ele sabia muito bem que não era seu lugar, sua jurisdição ou seu caso.
No centro do armazém, ele observou a área cuidadosamente. Ele notou uma caixa de ferramentas caída, a possível fonte do barulho alto que ouvira, e um par de cilindros no chão, embora parecessem ter sido colocados com cuidado. Guiado pela iluminação da tempestade, embora à primeira vista tudo parecesse estar em ordem, ele sentiu que algo ou alguém estava lá dentro.
Ele deu um passo à frente, notando como, com o ranger do chão, uma mão pálida se movia no canto. Ele imediatamente levantou sua arma e se moveu cautelosamente em direção à área, onde havia alguns botes salva-vidas e caixas de comida enlatada preparadas para emergências. Tudo estava protegido com um grande plástico preto, que ele imediatamente removeu.
— Eu sei que você está aí. Ele disse com uma voz profunda. Saia agora mesmo e eu prometo que não vou te machucar.
Ele manteve uma posição segura, sua arma apontada para executar um tiro direto e preciso, se necessário. No entanto, como não obteve resposta, ele não apenas jogou o plástico para o lado, como também moveu um dos salva-vidas, jogando-o para trás. Foi então que o olho esverdeado, que parecia espreitar das sombras, apareceu diante dele quando ele o iluminou com a lâmpada.
— Saia daí. Ele ordenou, dando um passo em direção às caixas e empurrando uma delas com firmeza para o lado.
Sua impressão foi imediata quando percebeu que era uma mulher. Ela estava encharcada, com olhos brilhantes que pareciam esverdeados e dourados ao mesmo tempo. Seus cabelos pretos pingavam água, mas suas feridas eram tão óbvias quanto o medo que a envolvia.
— Saia daí. Ele ordenou novamente, sem abaixar a arma ou abandonar sua posição segura, embora não conseguisse esconder seu espanto com o que havia encontrado.
Ele deu alguns passos para trás e só então percebeu como ela se levantou, saindo pelo pequeno espaço que havia encontrado ao descobrir o porão aberto. Ela embarcou no veleiro mais próximo para escapar de seus captores. Ela manteve os olhos grandes abertos, atenta ao homem desconhecido à sua frente.
Ele não se parecia com os outros. Ele não usava o mesmo uniforme, embora manuseasse a arma com igual habilidade. No entanto, ela sentia que ele não pertencia a eles. Havia algo claramente diferente em seus olhos, que pareciam cinzas. A jovem levantou as duas mãos quando finalmente saiu, revelando seus ferimentos, suas roupas sujas e seu corpo encharcado. Willian engoliu em seco enquanto a olhava da cabeça aos pés, mas quando seus olhares se encontraram, ele suspirou profundamente.
— Venha até mim. Ele ordenou, sem abaixar a arma, embora seu tom de voz soasse um pouco mais suave.
Ela balançou a cabeça e logo seus olhos se encheram de lágrimas. Willian engoliu em seco novamente. Ele sentia como se a conhecesse, como se já a tivesse visto antes, em algum momento da sua vida. Ele até achava que sabia seu nome, mas não conseguia se lembrar. Ele a viu pular quando um raio pareceu cair muito perto deles. Ele soltou um suspiro e, ainda apontando a lanterna para ela, finalmente abaixou a arma, colocando-a de volta no coldre. Diante dos olhos femininos, ele estendeu uma de suas mãos grandes e fortes.
— Venha até mim.
Havia algo em seu tom, em seu gesto, que conseguiu acalmar a jovem assustada e ferida. Depois de engolir, ela deu um passo à frente. Willian continuou a iluminar o seu corpo e, ao observá-la mais de perto, percebeu não apenas suas feridas, mas também uma beleza que permanecia mesmo sob a sujeira, a umidade e o sangue. Ele deu um passo em direção a ela, fazendo com que a jovem se assustasse e levantasse a mão.
— Calma, calma. Ele disse com uma voz conciliadora. — Não se preocupe. Eu sou o Willian…
Ele franziu a testa.
— Você tem um nome? Qual o seu nome?
Ele ficou confuso quando a viu pegando sua mão. Ele notou uma mancha preta em uma das palmas das mãos. Ele já tinha visto isso antes, mas de longe pensou que fosse terra. Agora ele percebeu que parecia tinta, como se fosse de algum marcador. Ela piscou confusa ao ver a mesma cena e então voltou seu olhar para o homem que a esperava. Ele não se parecia com os outros, não parecia cr*uel como eles, mas poderia ser alguém confiável?
— Você pode chegar um pouco mais perto de mim? Perguntou Willian, sabendo que não podia e não deveria fazer isso sem que a jovem permitisse.
A jovem deu um passo à frente e então pareceu tomar consciência de sua própria condição: pés cobertos de sujeira, com dor; braços feridos pela malha por onde havia passado; roupas manchadas de sangue e lama; cabelos molhados e duros. Ela olhou para o homem, que foi forçado a agir rapidamente quando, ao tentar dar mais um passo, ela desmaiou.
Willian a pegou nos braços, segurando-a contra o peito antes que ela caísse no chão frio de metal da nave. Ele soltou um suspiro pesado ao vê-la completamente inconsciente. Ele gentilmente afastou o cabelo dela do rosto, segurando-o em uma das mãos. Ele limpou a lama da bochecha dela, notando seus lábios secos e rachados e maçãs do rosto salientes, que indicavam fome prolongada.
Àquela altura, ele sabia que tinha cometido um erro, provavelmente o pior: tocar na vítima em potencial. Mas ele não conseguiu evitar. Ele a pegou cuidadosamente e a carregou até uma das cabines disponíveis, onde a deitou na cama. Ele não tirou suas roupas molhadas nem a cobriu com um cobertor; Ele simplesmente deixou ali, verificando uma última vez a mão onde tinha visto a tinta.
As linhas escritas estavam borradas, mas apenas duas palavras podiam ser lidas: “vinte e cinco” e “sequestrada”. Foi essa última que fez Willian engolir em seco, observando mais de perto a jovem inconsciente.