O som da porta da frente batendo foi o sinal para o início do segundo ato daquela farsa. Alberto entrou bufando, a marca do tapa de Manu ainda vermelha em seu rosto, ferindo não a pele,mas o seu ego
gigantesco.
Felipe estava sentado no sofá, com um curativo m*l colocado na testa e uma expressão de mártir.
•Pai? Você o encontrou? Ele... ele admitiu o que fez?
perguntou Felipe, a voz trêmula, fingindo medo.
*Aquele infeliz está cercado de gente da laia dele, Felipe!
esbravejou Alberto, andando de um lado para o outro.
*Uma mulher me agrediu!Ele lavou as mãos, disse que não tem família. Pode esquecer que um dia teveum irmão. Para mim, ele morreu!
Felipe baixou o rosto para esconder o brilho de satisfação nos olhos. Estava funcionando perfeitamente
O quarto estava impecável. Eli tinha o hábito de deixar tudo em ordem um contraste absoluto com a zoná que Felipe deixava por onde passava. Simone sentou-se na beira da cama e sentių o cheiro suave de incenso e de tinta que ainda pairava no ar. Ela abriu a gaveta da mesa de cabeceira e encontrou um caderno de desenhos que ele havia
esquecido.
Ao folhear, ela começou a soluçar. Não eram desenhos de "marginais". Eram retratos dela. Desenhos dela sorrindo, dela dormindo no sofá, de momentos em que ela achava que ninguem estava olhando. Em cada traço, havia um amor que ela nunca soube retribuir a altura.
Lá embaixo, os berros de Alberto
continuavam:
*Ele vai pagar pelo carro, Simone! Eu vou tirar cada centavo daquela,conta que ele ainda usa! Eu vou acabar com a vida desse moleque!
Simone fechou o caderno e, pela primeira vez em décadas, o medo que sentia da autoridade do marido foi substituído por um nojo profundo. Ela olhou para a porta, ouvindo a voz mansa e calculista de Felipe tentando "acalmar" o pai,e percebeu que estava vivendo com dois estranhos, enquanto o seu verdadeiro filho estava lá fora, sendo abraçado por quem realmente o conhecia.
Ela se levantou, limpou as lagrimas e caminhou até a janela. Lá embaixo, o jardim estava escuro.
•Ele tem razão, Alberto.
sussurrou ela para o quarto vazio.
•Ele não tem família. Porque nós não somos uma família. Somos apenas cúmplices da sua cegueira.