Ao chegar em casa, Amélia começa sua segunda jornada de trabalho. Dá banho nos filhos e os ajuda com o dever como sempre. O que ela mais quer é que eles estudem bastante para terem um futuro bom e melhor que o dela. Se não fosse pela casa dada de presente pela mãe, ela talvez não saberia onde morar. Provavelmente compraria uma casa com Jason, mas não seria tão linda quanto a cabana.
Poderia ser a maior confeiteira da cidade. Mas isso nunca lhe passou pela cabeça. Sentada na mesa, com os ombros cansados e morrendo de sono, ela se lembra de que se esqueceu do pedaço de bolo dos filhos. Amélia arregala os olhos e quase caí para trás. Ela prende a respiração e entra em choque.
Eles vão ficar arrasados. Ah, não. Esqueci o bolo do Owen e da Clarinha. p**a merda. Vão ficar péssimos. O que que eu faço? Eu poderia ir buscar, mas não gosto de deixá-los sozinhos em casa. Não vou deixá-los aqui. Eu poderia levá-los ao bar do Tom, mas a essa altura já deve estar começando a muvuca da noite. Não é bom para as crianças.
Que droga. Eu saí com tanta pressa e... E... E me distraí com aquele homem enorme que nem percebi. Ah, por falar nele, era lindo. Apesar de ter um corpo bonito, é forte demais. Braços grandes demais e se ele ficasse bravo acho que poderia machucar qualquer mulher. Ah, chega. Se Jason, sonha que eu olhei para outro homem eu nem sei o que ele faz comigo.
Por sentir um enorme frio na espinha. Amélia para de pensar em como o amigo do Xerife era bonito e também em como poderia machucar uma mulher com seus braços. A realidade dela é essa. Não a permite sonhar alto e quando se depara com algo bom, ela tende a associar com algo r**m de sua rotina.
– Mãe. Acabei. – Owen a chama tocando em sua mão e ela se assusta.
Amelia aperta a mão do filho e beija em seguida pensando no quanto ama o garoto. Ele é bem inteligente e Amélia tem orgulho disso.
– Ótimo. Deixa só sua irmã terminar.
– Trouxe nosso bolo, né? – Clarinha até larga o lápis e fita a mãe com os olhos esbugalhados e brilhantes.
Amelia fica sem ter o que dizer e sente seu coração acelerar. Ela não sabe o que falar. Não quer decepcionar os filhos. Já tiveram o coração partido ontem, não vão aguentar mais uma noite.
– Esqueceu do bolo? – Clarinha pergunta bem tristinha e Amélia se apressa a dizer.
– Não. Mamãe não esqueceu. Mamãe vai fazer um bolo inteiro para vocês. Do que querem? Chega de sobras. Um bolo fresquinho e bem quentinho com cobertura só para vocês. – Diz animada por cozinhar para eles, mas arrependida.
Ela sabe que Jason vai aprontar alguma. Sabe que vai ser magoada mais uma vez. Sabe muito bem que vai dormir mais uma noite com um nó na garganta e um peso no coração, pois ele vai colocar algum defeito. E pode até destruir o bolo todo. Amélia sorri e beija os dois abraçando-os.
Ela se apressa, faz o bolo junto com os filhos, bem rapidinho, pois ainda tem que fazer o jantar e arrumar o quarto, pois Jason faz a maior bagunça quando se arruma. Sempre deixa roupas jogadas. Toalha molhada em cima da cama, sapatos jogados. Ele não é nem um pouco organizado. Jason enxerga Amélia não como esposa, mas sim como uma emprestada.
Amélia até fica incomodada, mas como já está acostumada e faz tudo com agilidade, não reclama. Também, se reclamar é capaz de apanhar ou levar uma bronca. Ah, ele é um trasgo. Então ela prefere ficar quieta e fazer, estressa menos.
Ao colocar o bolo de chocolate no forno, Amélia percebe pares de olhos esgueirando para ver a massa. Ela fecha porta e olha os dois pequenos ansiosos. Amélia pega a bandeja com alguns riscos de massa e entrega aos filhos beijando-lhes as testas.
– Vou fazer a calda. E deixo vocês rasparem a panela. – Diz sorridente, mas ao mesmo tempo, sentindo seus pés bem cansados.
Mais alguns minutos se passam em pé na frente do fogão. Ela faz a calda com amor, paciência e dedicação. É por isso que fica tão gostoso. Amélia tem mãos leves e faz tudo ficar mil vezes mais gostoso do que já é. Quando acaba, ela deixa a massa descansar, olha o bolo rapidamente, deixa os filhos conversando na cozinha e vai até seu quarto. Ela suspira ao ver a bagunça e se senta na cama cansada. Ah, como queria uma ajuda de vez em quando.
Ela queria que o marido a ajudasse. Que ele não fosse não desorganizado. Que ele fizesse o mínimo. Acho que qualquer um iria querer isso. Ainda na beira da cama, Amélia deita com os braços abertos e olha para o teto. Suspira mais uma vez e sente um sono imenso.
Minha nossa, como estou cansada. Ainda preciso fazer o jantar. Ainda tem arroz e feijão, mas preciso ajeitar a salada e a carne. Talvez um purê de batatas para acompanhar e...
A cada ingrediente, a cada ideia ela vai fechando os olhos aos poucos. Sem perceber, Amélia dorme e se desmancha em sua exaustão. Ela se rende ao cansaço. Ela chega ao seu limite do dia.
Foram só 30 minutos. Até que ela acorda com Owen a chamando. Jason acabara de chegar do trabalho, mas Owen estava mais preocupado com o bolo. Amélia toma um susto e logo se levanta. Passa a mão no rosto e se dá conta do bolo no forno prestes a queimar. Ainda com o avental, com sono, pés inchados e meio zonza por ter levantado rápido demais, vai até a cozinha correndo e desliga o fogo. Em um momento de desespero, sem pensar em nada, ela abre o forno e tira a forma com as mãos jogando em cima do fogão. Ao sentir os dedos queimados arderem ela solta um grito e os coloca de baixo da água fria. Amélia geme de dor e depois respira fundo ao sentir os dedos sendo aliviados pela água corrente da pia.
Eu não posso fazer esse bolo dar errado. Não é só uma comida, eles queriam muito isso e eu não posso estragar. É muito importante para meus filhos. Ainda mais depois do que Jason fez.
– Mamãe. – Clarinha diz abraçando sua perna e Owen se aproxima olhando para a água enquanto escorre na ponta de seus dedos.
– Está tudo bem, mamãe vai ficar bem. Salvei o bolo – Ela cai na risada para não os deixar preocupados por conta de suas lágrimas.
Ao fechar a torneira. Ela seca as mãos com cuidado e sente um par de olhos encarando seu corpo fixamente. Chega a incomodar. Jason entra na cozinha, beija os filhos e depois a Amélia. Ele percebe que ela se queimou, mas não sente um pingo de dó, preocupação ou compaixão pela esposa. Ele, na verdade, entendeu toda a situação e acha que ela mereceu. Já que ao observar o fogão e olhar a geladeira, nota que o jantar não está pronto.
– Não fez o jantar, Amélia. – Pergunta pegando a jarra de suco e bebendo direto do gargalo.
Amélia se corrói de raiva. Ela odeia quando ele faz isso. Já lhe falou mil vezes, para não fazer isso. Mas ele não aprende nunca.
– Não deu tempo, Jason. Eu vou fazer ainda.
– Não deu tempo? – Ele guarda a jarra e dá um sorriso. – Vou tomar um banho. Quero meu jantar meu pronto. Tive um dia r**m. Não me irrita hoje.
Jason faz "carinho" no cabelo de Owen, o que o faz revirar os olhos junto com a mãe quando sai como um furacão da cozinha não dando tempo de Amélia revidar.
Folgado. Muito folgado. Tudo nas costas da minha, mãe. Ela sempre tem que fazer tudo. – Owen pensa e logo depois abraça Amélia.
– Bom, eu vou fazer o jantar e...
– Eu quero pôr a cobertura no bolo. – Owen se propõe a colocar a ajudar a mãe sentindo empatia.
– Ah, eu também quero se não ele come toda a calda, mamãe. – Clarinha diz, não entendo muito bem a situação e preocupada em raspar a caneca achando ser essa a intensão do irmão.
– Tudo bem. Deixem o bolo esfriar um pouco. Aí vocês colocam a calda.
Ela se esforça, Owen se propõe a ajudar e ela lhe dá tarefas fácies. Como esquentar o arroz e depois solta-lo com o garfo enquanto ela faz a carne. Terá de ser um Strogonoff. Algo que ela faz rápido e é simples. Também ele já tinha a carne cortada em cubos para ajudar. Depois, pegou para Owen esquentar o feijão e colocar os temperos que ela escolheu. Owen leva jeito para a coisa. E ele gosta de cozinhar.
Jason é quem não o incentiva e não gosta nada de vê-lo na cozinha. Jason é do tipo bem machista e acha que cozinhar é só para mulheres. Amélia sorri ao ver o filho mexendo a panela ao seu lado. Ele prova o caldo cremoso e sorri.
– Está gostoso? – Amélia pergunta querendo um pouco. Ele pega outra colher, deixando Amélia orgulhosa por ele lembrar do senso de higiene na cozinha e não colocar novamente a colher que colocara na boca novamente na panela, e lhe dá um pouco para provar.
– Precisa de um pouco de sal, mãe. Mas está gostoso.
– Ah, eu também, quero. – Clarinha diz na ponta do pé esgueirando pra olhar.
Owen lhe dá um pouco cuidando dela e a coloca na cadeira novamente. Jason aparece na cozinha e senta na mesa da cozinha ao lado da filha. O clima fica pesado toda vez que ele chega. Todos sentem isso. Amélia faz de tudo para que o clima não tome conta, mas não tem jeito. É mais forte que ela.
– Ainda não está pronto? – Jason pergunta e Amélia despeja o creme de leite na panela.
Seus dedos ardem, estão vermelhos e muito machucados. Ela está se segurando para não chorar na frente dos filhos e ser forte. O calor não ajuda nada e a dor piora tudo.
– Meus dedos estão doendo, Jason. Já vai ficar pronto. Só falta a salada. – Ele levanta bruscamente da cadeira assustando a filha que agarra o urso e se encolhe.
Sem dizer nada, mas como uma cara nada boa, ele pega um prato no armário e vai em direção ao fogão.
– Não precisa. Até você fazer, eu já comi e já dormi. Se está com os dedos queimados é por estava fazendo o que não devia. Não mandei fazer bolo, e muito menos dormir com o fogão ligado. Podia ter colocado fogo na casa, Amélia. Irresponsável. – Diz ríspido – Podia ter matado as crianças. – Começa a colocar a comida no prato – Não tô pedindo nada demais. Só estou pedindo um jantar decente. Será que eu posso ter? Mas nem isso você está fazendo? p***a. – Amélia sente um nó na garganta. E ao mesmo tempo medo. Ela queria poder revidar. Mas sabe que ele pode ser agressivo. Então fica quieta e só espera que ele saia da cozinha. – Trabalho o dia todo pra colocar comida nessa casa, chego cansado e com fome e nem comida pronta tem. Que tipo de mulher é você? Que tipo de esposa não cuida do marido? Está deixando muito a desejar!
Jason e seu jeitão brusco percebem que deixaram todos assustados. Ele olha ao redor, passa a mão no rosto e olha com raiva para a mulher. Ele a culpa por ser bruto. Ele não acha que está errado e pensa que só é assim, pois, ela não faz nada certo.
– Desculpem. – Pede aos filhos. Abraça Owen e beija a testa de Clarinha.
Ele dá uma última olhada ríspida para a esposa e se retira. Ela respira fundo e sai do transe quando sua filha sai da cadeira e corre para seu colo. Amélia a pega no colo e beija sua bochecha dando carinho para a menina que ela tanto ama.
– Vamos desenformar o bolo, mãe – Owen pede tentando normalizar o clima.
– Vamos. Mas não querem jantar antes?
– Não. O bolo. – Clarinha diz e sorri.
– Ok. O bolo. Vamos ver se não está quente. E vamos colocar a cobertura. – Prende as lágrimas o máximo que pode e limpa uma solitária que escorre em sua bochecha.
Owen desenforma e faz tudo sozinho depois que Amélia se certifica de que ele não vai se machucar. A colher com o brigadeiro é devorada pela boquinha de Clara.
– Ah, sobremesa antes do jantar. Onde já se viu? – Diz colocando Clara na cadeira dela. – Senta, meu amor – Pede para Owen.
Amelia coloca a mesa. Serve os filhos com pedaços generosos e abocanha o primeiro pedaço. Owen e Clarinha comem com gosto e muita vontade. Amélia nota que um levemente queimado nas bordas, olha para eles e vê que eles nem notaram. Ela suspira em alivio e come mais tranquila. Especialmente quando Owen corta mais um grande pedaço para Clarinha que tem a boca toda suja de chocolate.
– Gostaram do bolinho de vocês? – Pergunta feliz.
– Está incrível, mãe. – Owen responde.
– Eu amei de montão. – Clara diz abrindo os braços demonstrando o quanto gostou.
O clima bom, leve e gostoso que os três conseguiram construir novamente é quebrado assim que Jason põe o prato na pia e põe as duas mãos na mesa encarando o bolo. Amelia desfaz o sorriso e molha os lábios respirando bem fundo.
No mesmo instante, sem ninguém perceber, Clarinha segura seu prato e a colher com força para que seu pai não arranque de suas mãos como fizera ontem à noite. Owen fica em estado de alerta pronto para agarrar o bolo e sair correndo se for preciso. É o que ele pensa em fazer.
– Hum, bolo de chocolate. – Jason pega um garfo na gaveta. Ao invés de cortar uma fatia, ele crava o garfo na ponta e arranca um pedaço de cima deixando uma cratera. Leva até a boca e Amélia aperta o maxilar. Ela sabe que ele vai dizer que está queimado. Dito e feito – Você deixou queimar. A calda está muito doce é pra disfarçar o gosto?
Antes de Jason pudesse se mexer. Owen pega a forma redonda e se levanta dando alguns passos para traz.
– O bolo é meu e da Clara. Não vai jogar fora, pai. Só por que o senhor não gostou não significa que esteja r**m. – Owen respira fundo segurando a forma. Ele nem sabe de onde tirou essa coragem. Na verdade, ninguém ali sabe de onde ele tirou toda essa coragem.
– Para de palhaçada, Owen. Coloca esse bolo na mesa, moleque. – Diz jogando o talher na pia.
Clarinha levanta de sua cadeira pega seu prato e fica atrás da mãe. Os quatro ficam se olhando em silêncio até que Amélia resolve fazer algo antes que Jason faça.
– Vem, Owen. Eu vou guardar o bolo de vocês. – Amélia diz e ele dá a volta na mesa passando pelo outro lado.
– A gente vai conversar sério hoje, Amélia. – Sai do ambiente enquanto ela põe o prato na geladeira.
Abraça o filho ficando na sua altura, toca em seus ombros magros com os dedos ainda ardendo e sorri para ele.
– Você é muito corajoso. Mas cuidado com o que faz, tá bom? – Ele assente que sim e sorri – Meu homenzinho. Agora vamos jantar. Vocês se entupiram de doces e eu aposto que não vão comer nada. – Olha para Clarinha e a põe na cadeira mais uma vez – Come, meu amor. Come seu bolo em paz.
Coloca comida no prato para os dois e janta em silêncio, mas em paz com os filhos. Amélia aproveita o momento que tem e demora máximo que pode. Ela não quer encarar Jason. Sabe que o que lhe aguarda e quer ficar longe dele. O mais longe possível. Mas quando Clara não se aguenta mais de sono e Owen boceja ela sente um enorme frio na barriga e nota que já está bem tarde. É. Eles têm que ir pra cama dormir. E ela tem que encarar Jason.
Ao colocar os dois na cama, beija suas testas e abraça cada um deles.
– Mãe. Amanhã vamos comer mais bolo, né? – Clarinha pergunta depois de bocejar pela quinta e vez e fechar os olhos. – ... E mais bolo... – Diz deixando o cansaço dominar seu corpinho.
– Vão sim. – Sussurra e vai até a cama de seu filho – Vão comer mais bolo – Diz baixinho para ele que sorri também como os olhos pesados.
Ao sair, ela encosta a porta e nota que Jason está em pé encostado no batente da porta do quarto deles. O longo corredor está escuro e ela sabe que sua cara não é nada boa. Devagar, ela anda até o quarto e é como se estivesse indo em direção a sua morte. A cada passo que dá em direção ao seu marido, ela treme. Amelia sua. Amélia sente arrepio. Amélia sente o medo dominar seu peito e suas costas. Ela está exausta dessa vida. Mas tem que aguentar. Uma boa esposa aguenta. Uma mulher forte aguenta pelos filhos.
Mal pisa os pés no quarto e já é empurrada na cama. Jason sobe em cima de seu corpo pequeno e ela se assusta. Sem poder gritar, ela chora em silêncio. Chora com os pulsos presos nas mãos dele. Ela não consegue levantar e a única fuga é olhar para o lado e esperar que ele brigue logo com ela. É isso o que ela quer. Que ele apenas brigue com ela e a deixe. É melhor.
– Os meus filhos estão com medo de mim e eu sei que tem dedo seu nisso. Você bem viu o jeito que Owen olhou para mim. O jeito que pegou o bolo. – Vocifera com sua voz áspera contra sua bochecha – Você fica falando m*l de mim para eles não fala? – Amélia não diz nada. Ao invés de dizer que ele mesmo é quem faz isso, que ele é quem afasta os próprios filhos dela, Amélia prefere ficar quieta e chorar.
Ela solta um de seus pulsos, deixando o sangue circular pelo local, mas lasca um tapa no rosto pequeno e delicado de Amélia. Ela não está surpresa. Já levou um tapa desses antes. Ela sente arder, mas não grita. Ela se sente humilhada, mas não fala. Ela chora em silêncio enquanto é torturada. Se ela soubesse o tamanho que tem. Se soubesse a força e a importância que tem. Tudo seria diferente. Jason não seria nada. Jason não tocaria em um fio de cabelo dela.
– Você vai parar de falar m*l de mim para eles. Vai parar de colocar medo neles. São meus filhos. Ou eu vou embora e levo os dois comigo. – Ameaça olhando no fundo dos olhos dela. – Engole o choro. Quero dormir e não quero te ouvir chorar. – Avisa ao largar sua pele frágil e sair de cima dela.
Com as mãos trêmulas, os pulsos doendo por conta da força que ele aplicou, com dificuldade para respirar e sua ansiedade atacando, ela senta na cama beira da cama e põe a cabeça entre as pernas se encolhendo. Amélia senta no chão ao lado cama com o coração batendo bem forte e tenta respirar fundo. Ela tenta se acalmar, mas não consegue. Começa a chorar alto e ficar sem ar. Sua crise de ansiedade está tomando conta dela e ela não consegue controlar.
Jason põe as mãos na cintura e respira fundo ficando ao lado da cama olhando a cena. Ele vê a mulher se acabar em desespero e medo. De primeira, ele pensa ser frescura, mas ele sabe bem que ela tem ansiedade e que ele é o culpado. Ele sabe mais que mais que ninguém, que ele é quem foi o responsável por criar esse transtorno nela e fazer crescer a cada dia.
– Amélia. Desculpa. Não é pra tanto. Se acalma. – Pede ao ver a mulher se levantar com dificuldade do chão.
Amélia quer pegar um de seus remédios e esperar sua crise passar. Só de pensar em ficar longe dos filhos, ela desaba. Eles são tudo o que ela tem. São o motivo de Amélia estar viva e aguentando a tortura diária dela.
Jason fica com pena e percebe a gravidade do que falara. Ele passa as mãos no rosto e anda até ela. Ele a abraça bem forte englobando todo seu corpo pequeno. Ele beija inúmeras vezes sua testa e faz carinho em seus cabelos. Amelia não sabe o que sentir. Ela fecha os olhos e as mãos com força sentindo uma faca entrar em seu peito. Ela não para de pensar na possibilidade de ficar sem os filhos.
– Desculpa. Desculpa, meu bem. Vai ficar tudo bem. Calma. Já passou. Não vou embora com as crianças, eu falei da boca pra fora. Não vou fazer isso. Se acalma. – Amélia respira fundo pela milésima vez e põe as mãos no rosto.
Devagar e com calma. Jason vai até o banheiro e pega o remédio dela. Ele a faz tomar e torna a dar seus falsos beijos e carinhos. Para ela, apesar de ter sido humilhada, são verdadeiros. Para ele, são apenas para que ela não caia na real e não o deixe de vez. É assim que eles jogam. É assim que eles fazem. Eles te machucam, te humilham e te batem, mas depois te dão carinho e um amor ilusório para manter você presa a eles. Para você não cair na real e largar o monstro que vive ao seu lado.
Mesmo humilhando, batendo e torturando psicologicamente a esposa, ele ainda a acolhe em seus momentos de crise. Amélia por ser presa a ele recebe esse acolhimento e se agarra a ele como ninguém. Ela se acalma ao receber o afeto, mas se ilude ao achar ser verdadeiro. É isso o que ele quer que ela pense. Que apesar de ser um cretino, ele não é tão r**m assim. Esse é o jogo de Jason.