Capítulo 4

1135 Words
Bianca Marino Senti o cheiro de café recém-passado e pão quentinho antes mesmo de abrir os olhos — e meu estômago roncou faminto. Abri os olhos devagar e me assustei ao perceber que estava deitada na cama de Roco. Bianca — Como vim parar aqui? Falei, sentando-me depressa. Olhei ao redor do quarto, agora iluminado pelo sol que entrava pela janela aberta. Não havia ninguém ali. Pensei que talvez ele estivesse no banheiro, mas não ouvi nenhum barulho vindo de lá. Olhei o relógio na parede: quase dez horas. Pulei da cama, assustada. Não me lembro da última vez que dormi até tão tarde. Acho que nunca aconteceu. Onde estaria o meu sequestrador gostoso? Que ele nunca descubra que penso assim. Com a bexiga cheia, fui ao banheiro, fiz minhas necessidades e usei uma escova nova que estava sobre a pia para escovar os dentes. Olhei para o chuveiro, desejando um banho quente. Há muito tempo não sabia o que era isso. Na minha casa, só tomávamos banho frio. Ponderei por um instante. Não queria abusar da hospitalidade, mas também não havia pedido para estar ali. E eu precisava tomar banho em algum momento. Decidi que sim. Mas primeiro ia tomar café — meu estômago já doía, e o cheiro estava me chamando. Voltei ao quarto e vi a bandeja de café da manhã sobre a mesa: pão quentinho, ovos mexidos, frutas, suco e, claro, café. Ainda bem que estava sozinha. Assim ninguém veria o desespero com que comi. Quando terminei, a bandeja estava vazia e eu, completamente satisfeita. Fazia tempo que não comia tão bem assim, e não ia desperdiçar nada. Depois voltei ao banheiro e tomei um banho demorado, adorando a água morna. Aproveitei e lavei os cabelos com os produtos dele. Que não reclame. Não fui eu que me sequestrei. Ao terminar, sequei os cabelos com uma toalha, penteei-os e fui ao closet vestir outra camisa daquele i****a. Precisava urgentemente de calcinha e sutiã. Sentia-me muito desconfortável usando apenas aquela peça. Fiquei sentada de frente para a janela, olhando a paisagem, nem sei por quanto tempo, até ouvir a porta ser destrancada. Roco entrou acompanhado de uma empregada que trazia outra bandeja com comida. Eu a reconheci na hora. Era uma das que viviam suspirando por ele e que se gabava de ter ficado com ele na despensa. Não passou despercebido o olhar de raiva que ela me lançou. Mas, se dependesse de mim, ela poderia ficar no meu lugar. Eu preferia mil vezes a minha liberdade. Roco — Pode ir. Ordenou assim que ela colocou a bandeja sobre a mesa e pegou a vazia. Durante todo o tempo, ele não tirou os olhos de mim. Vi a garota sair, não sem antes me encarar uma última vez. Assim que ficamos sozinhos, Roco caminhou até mim e parou a poucos centímetros de distância. Meu coração disparou quando aqueles olhos cor de mel se fixaram nos meus. Roco — Então... dormiu bem, futura senhora Esposito? Perguntou com um sorriso provocador nos lábios. Bianca — Como fui parar na sua cama? Roco — Eu te coloquei. Você dormiu tão pesado que nem percebeu. E passou a noite toda agarradinha em mim. De repente, aquela sensação que pensei ser um sonho voltou. O colchão macio. O abraço quente. Aquele perfume delicioso. Droga! Era ele. Meu rosto queimou de vergonha. Odiava que ele pudesse ver o quanto fiquei sem graça. Roco — Confesso que também não dormi tão bem há muito tempo. Sério, foi difícil pra caramba ter que me levantar hoje cedo. Bufei. Bianca — Pois não vai se acostumando. Não vou ficar dividindo a cama com você. Ele deu mais dois passos e chegou perto o suficiente para me pegar no colo. Bianca — Ei! O que pensa que está fazendo? Roco — Te levando para almoçar comigo. Disse e me levou até a mesa, onde a comida já estava posta. Acomodou-me em uma cadeira e sentou-se à minha frente. Só então notei os pratos de lasanha, duas taças de vinho e as sobremesas. Parecia ser tiramisu. A fome que sentia passou de uma hora para outra. Bianca — Já disse que não vou me casar com você! Falei, cruzando os braços. Roco — Ah, vai sim. A não ser que queira que eu vá atrás dos seus pais e os mate. Meu corpo ficou tenso. Roco — Já devia ter feito isso há muito tempo. Seu pai deve dinheiro à Cosa Nostra e, em vez de nos pagar, fugiu, deixando a própria família lidar com o estrago. Ele fez uma pausa. Roco — E a sua mãe... bem, digamos que ela não merece esse título. Não depois de ter nos entregado você para quitar a dívida. Ouvi-lo dizer aquilo doeu. Eu sabia que meus pais não mereciam consideração depois de tudo o que haviam feito, mas, ainda assim, não queria que morressem. Eram tudo o que eu tinha. Além disso, conhecia os Esposito o suficiente para saber que eles nunca faziam ameaças em vão. Bianca — Por favor... não faça nada com eles. Pedi, sentindo as lágrimas transbordarem. Roco — Você ainda os defende? Depois de tudo? Bianca — Eles são os meus pais. Foram eles que me deram a vida. Falei, sentindo a lágrima que eu tentava segurar escorrer pela minha bochecha. Roco levou a mão ao meu rosto e a secou com o polegar. O toque simples queimou minha pele e fez uma onda de eletricidade percorrer todo o meu corpo. Roco — E essa foi a única coisa que eles fizeram de bom por você. Bianca — Nem sempre foram assim. Quando eu era pequena, as coisas eram diferentes... éramos felizes na nossa vila. Lembrei-me do tempo em que meu pai era pescador e minha mãe, lavadeira. Essas eram as lembranças às quais eu me agarrava. Em algum momento, eles se perderam, e tudo mudou. Nunca entendi o porquê. Só sei que foi depois que nos mudamos para a cidade. Roco — Ainda acho que não merecem o seu afeto. Mas gosto que você se importe. Ele sustentou meu olhar. Roco — Porque isso significa que não quer vê-los mortos. Meu coração apertou. Roco — Então você vai aceitar se casar comigo. Olhei para ele por alguns segundos. Eu não queria aquele casamento. Não queria abandonar minha vida. Não queria ser obrigada a viver com um homem que havia decidido meu futuro sem sequer perguntar o que eu desejava. Mas também não podia permitir que meus pais morressem. Mesmo depois de tudo. Bianca — Vou... mas me prometa que não fará nenhum m*l a eles. Concordei, sabendo que estava assinando a minha sentença. Na máfia, não existe divórcio. E, a partir do momento em que eu dissesse "sim" diante do altar, Roco e eu estaríamos ligados pelo resto da vida.
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