A dor excruciante era demais e lágrimas queimavam os olhos de Savvy. Ela fez o possível para não gritar enquanto suas unhas afundavam na superfície de madeira da mesa da biblioteca.
"Que filho da mãe!", ela rangeu os dentes, acalmando Athena o melhor que podia. As duas eram Alfas; elas não iriam chorar por um homem, mesmo que fosse o companheiro delas. Mesmo que ele estivesse machucando-as. Especialmente sabendo que tipo de homem era o companheiro delas.
Savannah odiava como o vínculo do companheiro funcionava. Quando descobriu a traição de Zack e escapou dele com a lista de matilhas traidoras que tramavam matar seu irmão, ela se certificou de tentar rejeitá-lo quando chegou a uma matilha vizinha de lobos transformistas, onde estaria segura. Mas Zack não aceitou sua rejeição. Ela ainda se lembrava de como ele estava lá, na fronteira, nu e com raiva, seus olhos cor de castanha perfurando sua alma. E ela cuspiu as palavras apenas para ele se recusar a fazer pelo menos isso por ela. Ele não queria libertá-la, mesmo sabendo que não seria um verdadeiro companheiro para ela.
Infelizmente, uma vez que eles eram verdadeiros companheiros escolhidos pela própria Deusa da Lua, para que o vínculo deles fosse quebrado, ela precisava que ele aceitasse a rejeição. E até que ele fizesse isso, eles estariam ligados um ao outro para sempre. Savvy odiava isso. Companheiros deveriam cuidar um do outro, se amar incondicionalmente e fazer tudo pelo bem um do outro. Mas seu companheiro só a via como uma boa opção para criar filhotes fortes e obter mais poder. Isso era tudo o que ela significava para ele, e ainda doía mais do que qualquer outra coisa. Ela queria amar e ser amada, mas tudo o que ele queria era uma esposa troféu. Isso era uma coisa para a qual Savannah não estava preparada.
Depois de tudo o que aconteceu, Zack desapareceu porque sabia que sua máscara tinha sido revelada e que Gideon estaria preparado se eles atacassem. Então ele escapou, e eles nunca mais se viram. Mas, após cerca de um mês, ela começou a receber esses pequenos lembretes de sua existência. As dores ondulavam por seu corpo em ondas afiadas e torturantes. Como se alguém estivesse enfiando uma faca em sua carne repetidamente, e então girando, girando, girando...
A primeira vez que ela experimentou isso, quase desmaiou, e foi Zara quem a encontrou. Mas foi Athena quem explicou a ela o que estava acontecendo.
"É ele", disse a loba, tentando ao máximo não uivar de tanta dor, "É o Zack. Ele está..."
Ela não precisou terminar a frase, já que Savvy era inteligente o suficiente para entender. Seu companheiro estava tendo relações sexuais com alguém. Era tão doloroso em tantos níveis, mas ela acabou rindo entre lágrimas. Ela ria e ria enquanto suas garras compridas deixavam marcas no chão de concreto. Enquanto Zara a segurava e perguntava se ela precisava chamar ajuda, Savannah apenas balançou a cabeça, apertando os olhos fechados. Ela não queria a compaixão de ninguém. Também não queria que sua família se preocupasse com ela. Todos eles já tinham problemas demais. Então, ela fez Zara guardar o segredo dela, e essa foi uma das razões pelas quais elas se aproximaram nos últimos meses.
Com o tempo, ela aprendeu a tolerar aquela dor, a lidar melhor com ela. Ela estava quase acostumada. Felizmente, os momentos íntimos de Zack com outras eram curtos. Apenas alguns minutos no máximo. Nada parecido com a primeira noite deles juntos, onde eles não conseguiam ter o suficiente um do outro.
Mas Savvy se deu um tapa no momento em que deixou sua mente ir para lá. Eles tinham acabado. Companheiro ou não, ela teria que matá-lo para conseguir sua liberdade se ele continuasse teimoso. Savannah jurou que nunca mais se encontraria em seus braços...
Dois braços fortes e desconhecidos a abraçaram com mais força, e essa foi a hora em que a dor finalmente se tornou enfadonha.
Mãos? Não deveria haver mãos!
"O quê? Quem é você?", Savvy resmungou frustrada, tentando focar sua visão nebulosa no homem ao seu lado.
"A terra chamando a criada", ela ouviu uma voz grave e familiar e piscou algumas vezes. O que estava acontecendo?
Savannah se viu encarando o rosto do jardineiro que ela havia conhecido antes, seus olhos azuis-claros a observando atentamente, as sobrancelhas franzidas enquanto ele examinava suas características faciais em busca de alguma explicação. Levou algum tempo para ela voltar a si, e ela apertou os lábios quando o fez, percebendo que ele era testemunha de sua fraqueza. Foi r**m que ele a visse tão perto dessa vez. Ele ainda pensava que ela era uma criada, e isso era bom, mas logo ele a reconheceria como uma princesa. Era inevitável. E quem sabe o que ele iria contar para as pessoas então? Era uma maneira fácil de escândalo.
"Me dê espaço, jardineiro", ela o afastou e se levantou, arrumando suas roupas. Pelo menos ela parecia decente. Neste momento, a raiva por Zack encheu seu coração conforme a dor desaparecia completamente. Ele tinha acabado, e ela também.
Antes, ele costumava se divertir durante as horas escuras; agora, ainda era pleno dia. Foi por isso que ela foi tão descuidada e foi sozinha para a biblioteca. O que por sua vez, levou a esta situação.
"O que foi aquilo?", o rapaz se sentou na mesa de madeira que ela usava anteriormente e traçou as marcas que ela deixou na superfície com seus grandes dedos calosos. "Você estava... fora de si..."
"Não termine essa frase!", ela ordenou com sua voz de princesa, apenas depois lembrando que estava fingindo ser outra pessoa. O jardineiro não pareceu satisfeito e desceu da mesa para ficar acima dela.
"Ou o quê?", ele perguntou, seu hálito quente acariciando sua pele e seu cheiro terroso envolvendo-a.
Ele era muito maior do que a princesa, muito mais alto. Com uma aura de confiança ao seu redor que os jardineiros em seu reino não possuíam. Ele também era rude e ainda nem mesmo parecia limpo.
"Ou você se arrependerá disso", ela sorriu, cruzando os braços no peito. "A seção de jardinagem é por ali", Savvy apontou com o dedo indicador. "Ande logo. Suas rosas definitivamente precisam de cuidados."
"Só porque alguma mulher maluca as destruiu", ele riu, divertido com a mudança repentina de personagem dela.