Meu filho acabou de completar cinco anos, minha relação com Adam praticamente acabou depois da descoberta. Eu sei que meu marido tentou, ele fez o que conseguiu para parar com a droga e a bebida, sim, porque durante a abstinência da cocaína, Adam começou a beber e aí fomos apenas ladeira abaixo.
— Papai está demorando, mãe... quero mostrar a ele meu novo brinquedo que o vovô me deu.
Oliver falou, ele e o pai ainda tinham a mesma relação, eu nunca deixei que meu filho visse Adam quando ele chega do trabalho, primeiro ele toma banho e depois vai brincar com o filho. Hoje ele realmente está demorando.
— Ele vai chegar em breve, meu filho. –Eu o respondi sorrindo.
Minha mãe nunca veio me visitar, no começo era por motivos de dinheiro e depois que eu descobri a verdade sobre Adam, eu nunca quis que ela viesse, mesmo com o dinheiro que conseguimos, ela queria conhecer Oliver pessoalmente e eu estava considerando fortemente ir embora para o Brasil e viver longe daqui.
— Oliver, o que acha de conhecer a vovó Maria? A mãe da mamãe. – eu perguntei a ele. Oliver sorriu acenando freneticamente.
-Eu quero, ela liga para mim e diz que ela faz muitos doces e que eu deveria comer quando estiver lá. Eu gosto de doces e da vovó, mãe.
Ensinei a Oliver desde cedo a falar português também, ele tem um pouco de sotaque e as vezes esquece alguma palavra ou outra, mas consegue se comunicar muito bem com minha mãe.
Olhei mais uma vez para o relógio e nada de Adam chegar, comecei a ficar nervosa, ultimamente eu não ando confiando nele, sempre brigamos porque eu o acuso de chegar tarde por estar bebendo ou se drogando.
Bateram na minha porta quando estava dando quase 23:00 da noite, eu fui abrir e eram dois homens, m*l encarados e vestidos de roupa social, pareciam guarda costas.
— Senhora Simpson? – um deles perguntou.
— Sim. – eu respondi com a sobrancelha levantada.
O mesmo que falou retirou uma papel de dentro do paletó e me entregou.
— Trabalhamos com Adam, a senhora não gostaria de entrar e nos ouvir? – ele perguntou indicando o caminho.
Eu saí da frente e dei passagem aos dois, Oliver veio até mim quando os dois entraram e abraçou minhas pernas. Um deles levantou e ofereceu a mão a Oliver.
-Pode me mostrar onde fica o banheiro? – ele olhou para mim e eu ia negar, mas o rapaz apontou para a carta e fez sinal de segredo com a mão.
— Pode ir, querido. – eu autorizei e meu filho levou o rapaz.
Sentei no sofá e fiquei de frente para o que falou primeiro.
-Senhora Simpson, somos amigos de Adam e ele nos pediu para entregar essa carta a senhora se algo acontecesse a ele... – ele começou contido.
-Como assim? Cadê meu marido? – eu ia abrir a carta mas ele fez sinal de não com as mãos.
— Espere para abrir quando formos embora. O Adam vinha passando por estresse ultimamente e não aguentou, ele usou muito hoje e nós... nós o achamos desmaiado no local onde trabalhamos todas quartas, levamos ao hospital, mas... ele teve uma overdose e não conseguiu...
Fiquei encarando o homem na minha frente de boca aberta, tentando crer naquelas palavras, mas estava bastante difícil, deixei o papel cair da minha mão. Abri e fechei a boca várias e várias vezes.
-Cadê meu marido? –meu lábio tremeu e eu tentei segurar as lágrimas, mas foi muito difícil.
— Eu sinto muito, eu e meu amigo vamos sair e a senhora pode ler a carta sozinha. Eu sinto muito. –Ele disse mais uma vez.
O amigo dele veio com Oliver e os dois estavam rindo, o homem se despediu do meu filho e os dois foram embora depois. Eu não queria cair na frente do meu filho, por isso o coloquei para dormir primeiro.
— Oliver, vá dormir, está tarde e amanhã você vai sair cedo para a escola. Seu pai vai chegar só amanhã... por favor me obedeça.
Meu filho é tão bonzinho que apenas acenou e subiu as escadas, quando eu estava sozinha na sala, abri a carta dele e sentei no sofá. Minhas mãos tremiam tanto que eu achei que não fosse capaz de segurar o papel.
Linda Karina, escrevi essa carta há muito tempo, mas como eu sei que sou fraco, sei que a droga vai me levar algum dia e sinto que esse dia está muito perto. Nosso casamento esfriou mas eu ainda sinto tanto respeito e admiração por você, se não me perdoar, pelo menos tente lembrar de como somos uma boa dupla pelo menos como amigos. Por favor me perdoe por não conseguir cumprir as minhas promessas, eu amo você e nosso filho, cuide dele por mim e se puder, deixe-o longe dos meus pais, volte ao Brasil e use todo o dinheiro que eu tenho escondido no chão do nosso quarto, volte para casa e crie nosso filho bem, ou termine sua faculdade primeiro, mas saia de perto das pessoas aí, não confie em ninguém, se alguém perguntar por mim, diga que eu nunca a amei e escolhi partir por vontade própria. Mesmo sendo uma mentira porque só de imaginar deixa-la sozinha eu me sinto um merda. Eu te amo, linda Karina. Seja forte.
Ps. Não abra o meu caixão, não quero que me veja como um usuário que cheirou até morrer, se apague as lembranças do começo do nosso casamento.
com amor, A.S”
Ainda bem que Oliver subiu para dormir, porque eu não sei ainda como vou explicar essa situação ao meu filho. Não consegui me conter e corri para o quintal para chorar em paz. Meu corpo inteiro doía, eu estava absolutamente fraca e vomitei tudo no chão.
Talvez eu e Adam não nos amássemos mais como marido e mulher, mas eu ainda amava sua vida, ele era pai do meu filho, o Adam tão gentil do começo, eu tinha que tentar pelo menos me apegar a isso.
Foi difícil, eu não consegui aceitar aquilo por muito tempo, os meses passavam e eu chorava horrores, na primeira semana Oliver ficou irritado e perguntando pelo pai, até que eu criei coragem e expliquei ao meu filho o que aconteceu.
Expliquei que o papai foi morar no céu e que ele agora seria uma estrela que estaria com ele. Mas Oliver foi tão inteligente e na hora sacou o que estava havendo, meu filho me abraçou e disse que estava com saudade do pai. Em alguns momentos, vejo meu filho brincando e me pergunto como vou cria-lo sozinho.