Capítulo 2 - A dançarina

1690 Words
*Mayra PoV* O espelho fica embaçado pelo vapor da água quente do banho e eu o limpo com a mão. Meu rosto está horrível, tenho olheiras profundas. Acho que é isso que o desespero e o estresse fazem com a gente. Não tenho uma boa noite de sono há semanas. Vou ter que fazer um milagre com a maquiagem. Força, Mayra, você precisa pagar as contas. Meu quarto e sala é simples e pequeno, porém me serve muito bem. Enquanto eu puder pagar por ele. Visto a roupa do show, que não passa de um top, um short curtíssimo que deixa quase nada para a imaginação, meia arrastão e botas, tudo em vermelho. Depois, começo a me maquiar. Faço tranças em meus cabelos para fazer jus ao pseudônimo que escolhi para me apresentar: Medusa. A combinação é um pouco exótica, meus cabelos são naturalmente ruivos, em um tom quase cor de ferrugem, herança do meu pai. Pelo menos, tenho os olhos de minha mãe, praticamente dourados. As sardas é que me incomodam um pouco. Fico com cara de menina e é difícil ser levada a sério quando você aparenta inexperiência, mesmo que o meu conhecimento seja vasto nos meus vinte e seis anos de existência. Hora de um pequeno aquecimento, nunca tenho tempo de fazê-lo depois que entro naquele lugar. O apartamento não tem muita coisa. Um quarto pequeno com uma cama e um guarda-roupas embutido. Um banheiro e uma cozinha americana na lateral da sala. Esta sim foi a razão de eu ter escolhido esse lugar. Ela é ampla, tem um bom piso de madeira. Não tenho sofá ou poltronas, muito menos televisão. Sem tempo para assistir qualquer coisa. Sento-me para as refeições em um dos bancos da bancada que separa a cozinha da sala. Porém, bem no centro de tudo, está um poste de pole dance. Parece que o ambiente todo gira em torno dele. Faço um rápido alongamento e começo com giros simples ao redor dele. Nunca estou satisfeita comigo mesma, com meus movimentos. Sempre estou à procura da perfeição, por isso instalei um espelho em uma das paredes. Quase caio do poste quando escuto o alarme do celular. Olho para a grande vidraça que cobre uma parede quase toda do apartamento. O sol se pôs e eu nem percebi. Droga! Estou atrasada! Essa minha mania de perfeição ainda vai me fazer perder aquela porcaria de trabalho. Pego o celular e a bolsa que estavam sobre a bancada. Vou para o quarto e pego no guarda-roupa um sobretudo preto, longo até os joelhos, para cobrir minha “roupa de trabalho” e saio. Levo cerca de uns vinte minutos andando, o que não é muito confortável com essas botas. Porém, eu prefiro isso a ter que me vestir na pocilga que eles oferecem como camarim. Não duvido que tenham até buracos ou câmeras para que os tarados de plantão vejam as garotas trocando de roupa. “Boca do inferno” é o nome da boate onde trabalho, dançando nas noites de quinta, sexta e sábado. Eu gosto de dançar. O problema é que, nesse tipo de lugar, os clientes sempre querem mais e assumem que você está disponível. Não faço programas, no máximo, danças particulares com a regra de que o cliente não encoste as mãos em mim. Isso irrita terrivelmente o dono do lugar: Cougar. Com certeza ele ganharia mais dinheiro se eu me prostituísse como as outras. Não me acho melhor que elas, apenas não consigo me vender de forma tão baixa. Ao entrar pelos fundos da boate, dou de cara com o próprio, extremamente irritado. ㅡ Então, a donzela resolveu aparecer. ㅡ Ele olha para o relógio dourado de pulso ironicamente. ㅡ Com apenas vinte e cinco minutos de atraso. ㅡ O trânsito não estava favorável. ㅡ Deixe de conversa. Sei que vem andando, você nunca chega de carro. Vá assumir sua posição, enquanto eu te anuncio. Já tem gente reclamando sobre o atraso da atração principal, no caso, você. Ah, o Régis vai querer a dança particular de sempre. Eu torço o nariz e suspiro. Ótimo! Régis é um senhor decrépito na casa dos sessenta anos que adora garotas mais novas. Com a minha cara de boneca de porcelana sardenta, caí em suas “graças” desde a primeira vez que colocou os olhos em mim. Foi ele quem deu ao Cougar a ideia de me tirar do número geral com um monte de garotas e criar um show à parte. Não sou tão baixa nos meus 1,75 centímetros de altura e Cougar percebeu que meu porte no palco traria mais clientes. Não tinha nada a ver com o meu talento. Então, os problemas maiores começaram. Na cabeça pervertida dele, eu deveria tirar a roupa no palco. Nunca o fiz, o que sempre causou decepção geral e muitos aborrecimentos para mim. Há dias em que eu simplesmente desejo fechar os olhos e não abri-los nunca mais. Sigo para minha posição atrás do palco, coloco meu pendrive no aparelho de som e aguardo ser anunciada. Respiro fundo, me concentrando. Sempre acho graça quando ele diz que sou russa. Meus pais são russos. A família do meu pai mudou para o sobrenome Hills para fugir de uma perseguição política. Eu nasci na América. Assim que ele se retira do palco, eu aperto o play e entro. Como de costume, ignoro a plateia. Sempre é composta por lobos famintos esperando para devorar um pedaço de carne. Eu, no caso. Não estão aqui pelo show. Se eu me esmero tanto, é apenas para mim. Ninguém se importa. A música que escolhi hoje talvez reflita minha desilusão. “Hallelujah”, mesmo sabendo que não é adequada para o ambiente. Ando afastada de Deus desde a morte de minha mãe. Hoje senti a extrema necessidade de me reaproximar dela, mesmo sendo através da dança. Ela era bailarina, dançar era toda sua vida. Então, após estar de cabeça para baixo no poste, faço algo que nunca havia feito antes. Foi como um chamado. Corro meus olhos pela plateia e é quando o vejo pela primeira vez. Um jovem senhor distinto, com um cabelo castanho curto requintadamente cortado, vestindo um terno nitidamente caríssimo, assiste minha apresentação de sua mesa no canto da boate. Ele parece estar gostando da minha dança. Talvez, esteja encantado pelo meu corpo também, porém não é assim que ele se comporta. Os homens que normalmente frequentam esse lugar ficam gritando, falando baixarias e oferecendo notas para enfiar por debaixo da minha roupa. Porém, não ele. Um brilho metálico intenso domina aquele olhar acinzentado. Não é luxúria o que vejo em seus olhos. É admiração. Pelo resto do espetáculo, procuro seu rosto sempre que posso e ignoro todo o resto. Mais ninguém além daquele homem parece gostar do meu número. Afinal, novamente, não tiro a roupa ou aceito os agrados utilizados como desculpa para me apalpar. Até sou vaiada. Bando de animais. Pelo menos, aquele único cliente fez o esforço valer a pena, já que ele me aplaude quando termino. Já no backstage, sigo para uma das inúmeras salas do estabelecimento para me prestar a mais um papel odioso: A dança particular do Régis. Ele já me espera ansioso, sentado em uma poltrona. Eu ligo o som e me dirijo para um poste de pole dance no meio da sala. ㅡ Lembre-se da regra, Régis. Nada de contato físico. ㅡ Claro, minha querida. Isso acordado, começo a dançar. Sinto uma diferença enorme do olhar desse homem babão para o daquele cavalheiro. É naqueles olhos da cor de um céu tempestuoso que me concentro. Não sei porque ele me comoveu tanto. Talvez, porque tenha demonstrado não ter visto apenas um pedaço de carne. Ele viu a artista em mim. Quando giro em torno do poste, em posição fetal, percebo que Régis se levanta e se aproxima. Sua ousadia culmina em uma passada de mão no meu traseiro. Eu acabo me assustando, perco o equilíbrio e caio com tudo sobre o chão. Quase quebro a bacia. Levanto-me furiosa, alisando meu quadril dolorido. ㅡ Que inferno! O que deu em você? ㅡ Estou cansado de só olhar! Paguei um extra para o Cougar e quero serviço completo! Ele segura um de meus braços e o torce para a parte de trás do meu corpo dolorosamente. Com a mão livre, segura meu queixo brutalmente e me choca contra a parede. Ele se esfrega no meu corpo e tenta colocar sua língua nojenta na minha boca. Quero vomitar. Cuspo em sua cara e ele sorri sadicamente. Ele é forte, apesar da idade, então uso um golpe baixo para me livrar. Acerto-lhe uma joelhada bem nas partes íntimas e corro para fora, enquanto ele grunhe e se contorce no chão. Pego meu sobretudo e o visto, recolho minha bolsa e sigo para a saída do backstage. Que se dane essa porcaria de lugar! Posso ir morar na rua, porém aqui não volto nunca mais! Cougar aparece no meu caminho e me impede de sair. ㅡ Onde está o Régis? Achei que fossem demorar dessa vez. ㅡ Seu desgraçado! Com que direito você me oferece em uma bandeja para aquele porco? ㅡ Ah, Medusa... Não me diga que você não o agradou? Ele pagou uma boa quantia por você. ㅡ Ele teve o que mereceu! ㅡ Escute aqui, sua v@dia. Você trabalha para mim e ele é um cliente importante! ㅡ Eu não tenho culpa se você só atrai gente ignorante e nojenta para esse lugar! ㅡ Essa gente ignorante e nojenta paga as suas contas! Você está aqui para dar o que eles quiserem! ㅡ Não sou uma prostituta! Você me contratou para dançar! Então, Régis aparece, ofegante e enfurecido. Pergunto-me o que fiz de tão errado para ser humilhada desse jeito. ㅡ Cougar, como vai ser? Eu paguei por ela, quero minha dança particular com serviço completo ou me devolva o dinheiro! Esse caf&tão barato tenta contornar a situação com seu cliente e eu me sinto valer menos que um centavo furado. ㅡ Medusa, ou você atende o pedido desse cliente ou eu quebro as suas pernas! ㅡ Vai pro inferno, Cougar!
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD