*Mayra PoV*
ㅡ Oh, meu bom Deus! Preciso fazer algo com esse cabelo!
Observo minha figura no espelho do banheiro. Apesar dos cachos estarem lutando contra a gravidade, não consigo deixar de sorrir. Acho que não deixei de sorrir desde aquele dia em que encontrei com Ethan McGregor. Ele praticamente me tirou da sarjeta. Lembro-me do meu benfeitor com carinho e admiração. Um calor invade meu peito ao me lembrar de seu olhar sobre mim. Provavelmente imaginei, porém havia algo especial. Gostaria tanto de vê-lo novamente.
Volte para a terra, sua tola. Ele é o homem mais poderoso do país. Você deu sorte dele estar naquele lugar quando você mais precisou. Não é como se ele fosse ser seu guia na empresa. Haverá uma pessoa para isso.
Tenho que estar apresentável, afinal, hoje é meu primeiro dia e a McGregor Corporation é uma empresa renomada. Roupa não é um problema, tenho dezenas de conjuntos de escritório da época em que trabalhava na imobiliária. No entanto, manter uma roupa no armário não tem o mesmo custo que os cuidados de um cabelo volumoso. Não podia me dar ao luxo de um salão. Foi uma das razões principais em adotar as tranças para dançar. Porém, para o meu próximo ambiente de trabalho, não seriam adequadas.
ㅡ Bom, Mayra... Faça um bom serviço e poderá voltar a frequentar um salão. Por hora, um coque bem apertado vai servir. Irá disfarçar as pontas ressecadas e a falta de corte.
Eu não quero chamar a atenção, não sei quem serão meus colegas de trabalho. Cores neutras, sem decotes ousados é a pedida. Escolho uma blusa bege e um conjunto de calça e blazer pretos. Sapatos pretos bem altos. Não sou baixa, porém gosto de estar na ponta dos pés. Acho que é o meu lado que ama a dança que pede. Já que a maquiagem não é forte, eu ouso no batom. Um vermelho-sangue bem vivo.
Estou feliz com o resultado ao me observar diante do espelho. Eu poderia cantar de alegria. Não só por me sentir um ser humano novamente, mas por resgatar minha dignidade.
Tudo irá melhorar, Mayra. Só mostre do que é capaz. Você consegue!
Pego sobre a bancada da cozinha o meu relicário com a foto da minha mãe dentro. Eu o beijo delicadamente e o coloco no pescoço. Nunca me separo dele, a não ser para dançar. É uma joia delicada, toda trabalhada em ouro branco e um receptáculo oval para a foto. Foi a única coisa de valor que não vendi. Não poderia. Preferiria passar fome do que me separar dele. Foi herança da minha mãe, a única lembrança que sobrou dela. Meu pai tratou de destruir todo o resto.
Sacudo a cabeça para dispersar esses devaneios. Está na hora de sair, não posso me atrasar logo no primeiro dia. Pelos meus cálculos, devo até estar uns quinze minutos adiantada. Fecho a porta do apartamento e grito de susto ao dar de cara com a senhora Ribas. É uma idosa baixinha e rechonchuda, cabelos lisos e pretos em uma longa trança. Olhos negros e severos. A vida não lhe foi gentil. Perdeu o marido e o filho para o crime. Ela é a dona do lugar e deve estar querendo o pagamento do aluguel. Felizmente, eu havia sacado no dia seguinte o cheque que meu chefe me dera.
Meu chefe...
Sinto um orgulho tão grande por isso. Ter um chefe, um emprego. A expressão m*l-humorada da minha senhoria é incapaz de me aborrecer. Sorrio educadamente e dou-lhe o dinheiro. Iria fazer isso de qualquer forma, por isso já estava com ele em minha bolsa. Retiro-me quase saltitando pelas escadas, cantarolando do quarto ao primeiro andar.
O ar da manhã está um pouco frio ainda, porém o sol irá aquecer tudo em breve. Os dias costumam ficar mais quentes nessa época do ano. É meu clima preferido, sinceramente, odeio quando neva. A paisagem é triste. Prefiro quando as flores e as folhagens exibem suas cores. Caminho alguns passos na calçada e paro aturdida.
Não posso crer...
Um pouco adiante, vejo uma limusine prateada e reconheço o chofer encostado na lataria de braços cruzados. Robbins é o tipo que dá medo. Mesmo com seu terno escuro, dá para perceber como é forte. Os olhos negros combinam com o cabelo preto rebelde, que mais parece ter sido arrumado com a mão que com um pente. Ele tem uma cicatriz na lateral direita do rosto, descendo desde a ponta da sobrancelha até quase a linha do queixo. É de arrepiar. Ao me ver, ele desencosta do carro, colocando as mãos cruzadas atrás de si, e acena levemente com a cabeça. Engulo com dificuldade.
Ainda devo estar dormindo e isto certamente é um sonho...
Corrijo minha postura para não parecer uma deslumbrada e caminho a passos seguros até o veículo. Paro diante do motorista e sorrio.
ㅡ Bom dia, Robbins.
ㅡ Bom dia, senhorita Hills.
Ele abre a porta do passageiro gentilmente. Posso ver meu novo patrão sentado, mexendo na tela do celular. Ele imediatamente o baixa ao me ver e sorri.
ㅡ Bom dia, senhorita Hills. Sempre é tão pontual assim?
ㅡ Bom dia, senhor McGregor. Tenho essa neurose com horários. ㅡ O que é uma baita mentira, porém juro que farei um esforço. Não vou perder essa oportunidade de jeito nenhum. ㅡ Perdão pela curiosidade, mas o que o senhor faz por aqui?
ㅡ Estava de passagem. Achei que talvez gostasse de uma carona até a empresa. Também quero apresentá-la à sua gerente.
Abro minha boca em surpresa e pisco algumas vezes. Eu sei que Ethan McGregor mora no Upper East Side. Hell’s Kitchen com certeza não é caminho, já que está na direção oposta. Mesmo que fosse, por que o dono da empresa iria se preocupar em me levar ao trabalho e me apresentar?
ㅡ Não precisava se incomodar.
ㅡ Não é incômodo algum. Podemos?
Só então percebo que ainda estou parada como um poste do lado de fora da limusine, atrasando esse homem em seus compromissos. Apresso-me em entrar e me sentar ao seu lado. Robbins assume sua posição ao volante e seguimos para a empresa.
Não sei o que lhe deu para vir até aqui me buscar sem aviso. Ficamos em silêncio, a curiosidade remoendo-me por dentro. Porém, não ouso perguntar nada. Ele está concentrado nas mensagens de seu celular. Esse homem deve trabalhar vinte horas por dia. O que sobra é para dormir e comer. É um ritmo pesado.
Tento não demonstrar meu nervosismo, com certeza é algum tipo de teste. Ele me tirou de um antro nojento, deve querer se certificar que não cometeu um erro. Tomo um susto quando ele estica o celular na minha direção.
ㅡ Poderia colocar seu número na minha agenda? Frequentemente faço solicitações sobre funcionários à senhorita Smith. Alguns são de última hora, infelizmente. Não posso perder tempo, por isso o celular é essencial. Como sua secretária, na ausência dela, poderei recorrer à senhorita.
ㅡ Ah, sim, claro... Só há um problema... Meu aparelho resolveu morrer afogado na sexta-feira...
ㅡ Como um celular resolve se afogar? ㅡ Ele pergunta com uma sobrancelha erguida.
Torço a alça da minha bolsa, esperando que ele não me ache uma tola.
ㅡ Estava travando mais uma batalha com meus cachos quando esbarrei nele. Ele foi direto para dentro do vaso sanitário. Vou providenciar um outro aparelho assim que receber.
Ele solta uma gargalhada e eu me assusto.
Pronto. Virei piada diante dos olhos do meu chefe. Lastimável.
ㅡ Perdão, senhorita Hills. Porém, não deixa de ser uma história no mínimo inusitada.
ㅡ Pois é...
Dou-lhe um sorriso tímido e o silêncio se instaura novamente, já que ele retorna aos seus afazeres no celular.
Ao chegarmos na empresa, fico abismada com o requinte do prédio. Eu nunca havia visitado a sede em Nova Iorque. Portas de entrada envidraçadas, poltronas confortáveis para espera na recepção, um vai e vem infernal de empregados. Ele se dirige à uma moça loira na recepção, impecavelmente vestida e maquiada. Tenho essa mania de reparar em tudo e todos.
ㅡ Bom dia, senhorita Starling. Pode avisar à senhorita Smith que estou indo à sua sala?
ㅡ Bom dia, senhor McGregor. Já estou ligando.
Dirigimo-nos para o elevador enquanto a recepcionista pega o telefone. Chegamos no andar de Recursos Humanos, que possui uma mini-recepção.
ㅡ Este será o seu posto.
Eu aceno silenciosamente e ele me guia até uma sala. A porta está entreaberta e entramos sem bater. Dentro vejo uma moça morena, com um cabelo impecável preso em um coque requintado. Ela levanta o olhar dos papéis sobre sua mesa e sorri amplamente para nosso chefe.
ㅡ Senhor McGregor, em que posso ser útil?
Ao se levantar para cumprimentá-lo... Uau! Deveria ser proibido por lei implantes de silicone desse tamanho.
ㅡ Esta é a senhorita Mayra Hills. Irá preencher a vaga de sua secretária.
Ela me analisa com um certo desdém para depois me ignorar completamente. Uma total falta de educação.
ㅡ Claro... Irei verificar seu currículo para...
ㅡ Acho que não me fiz claro.
O olhar que ele lhe dá é cortante. Vejo até um lampejo de aborrecimento. Ela limpa a garganta muito sem graça. Então ajeita a blusa, salientando seus implantes de forma indecente.
Não acredito que ela esteja tentando usar seus “atributos” de um jeito tão baixo!
ㅡ Desculpe-me, senhor McGregor. O que eu quis dizer foi...
ㅡ Senhorita Smith, não gosto de perder tempo, portanto apenas ouça. Eu mesmo verifiquei as credenciais da senhorita Hills. Ela está apta para o cargo. Apenas faça seu processo admissional. ㅡ Então, ele se vira para mim. ㅡ Mais uma vez, bem vinda a McGregor Corporation.
ㅡ Obrigada.
Ele caminha para a porta e eu me encontro sob o olhar fulminante de quem acredito ser a megera da empresa.
Que sorte a minha! Sabia que nada viria assim tão fácil.
ㅡ Mais uma coisa, senhorita Smith... ㅡ A megera olha para ele com o falso sorriso mais rápido do oeste. ㅡ Providencie um celular da empresa para ela, assim como o cadastro no spa dos funcionários. ㅡ Seu olhar encontra o meu e posso ver até um pouco de diversão. ㅡ Afinal, não queremos outra guerra com vítimas fatais, não é mesmo, senhorita Hills?
Não consigo evitar e explodo em uma gargalhada que tento arduamente cessar. Ele sorri novamente, de forma espontânea. Não esperava que um homem em sua posição pudesse ser tão cativante. Após sua saída, viro-me para minha gerente e o sorriso em meu rosto logo se desfaz. Ela está de braços cruzados, com um olhar de poucos amigos.
ㅡ Bom, caso tenha terminado de se divertir, senhorita Hills, temos trabalho a fazer.
Já ouvi falar de amor à primeira vista, porém ódio à primeira vista é surreal. No entanto, cheguei até aqui e não tenho medo de cara feia. Enfrentei sujeitos bem mais desagradáveis que ela. Não será essa criatura siliconada que irá me derrubar.