Capítulo 4 - Proposta de trabalho

1859 Words
*Mayra PoV* O som do tapa que ele me dá ecoa pelo recinto. Coloco uma mão sobre meu rosto dolorido e seguro as lágrimas que me vêm aos olhos. É quando ele surge pela porta. A princípio, achei que estaria ali para me salvar desses dois demônios, no entanto, ele disputa meu preço com Régis. Que audácia! Eu protesto, porém não obtenho sucesso. Um dos seguranças de Cougar me segura fortemente e tampa minha boca. Quase sufoco. Sou obrigada a assistir de camarote minha derrocada. O homem, que antes eu acreditava ser um cavalheiro, mas que se revelou como mais um canalha, oferece uma quantia absurda por mim. Vinte mil dólares. Então, dou-me conta de que caí nas garras de um desses lobos ricaços que acham que podem comprar qualquer um. Régis desiste e se retira. Cougar aceita a oferta com um sorriso enorme. O estranho chama um capataz para trazer o dinheiro e eu confesso que nunca vi uma soma tão alta em dinheiro vivo assim, nem no meu antigo emprego. Finalmente o segurança me liberta, após o consentimento de Cougar. ㅡ Eu não concordei com isso... ㅡ Entendo, porém se quer sair daqui ilesa, sugiro fortemente que me acompanhe, senhorita. Não entendo toda essa educação de sua parte. Ele acabou de me comprar como se eu fosse um produto na prateleira de um supermercado. Olho ao redor e percebo não ter muita escolha. Se eu me negar e fizer Cougar perder esse dinheiro todo, ele é capaz de me matar aqui mesmo. Resolvo acompanhar meu “salvador”. Talvez, eu consiga fugir dele quando chegarmos na rua. Embora, a julgar pelo bom porte físico de seu segurança e pelos saltos que uso, duvido que fosse muito longe. Apesar da situação ingrata, sinto-me aliviada por deixar a boate. Prometo a mim mesma nunca mais colocar os pés nessa espelunca novamente. Prefiro morrer de fome. A surpresa me toma quando paramos diante de seu luxuoso carro. Deu para perceber que ele é rico, mas uma limusine? Quem é esse homem? Ele se adianta em abrir a porta para mim, como um perfeito cavalheiro. Fico confusa. Está muito distante do frio e voraz negociador de poucos minutos atrás. De repente, o nervosismo me toma quando seu segurança, que também é seu motorista, pergunta nosso destino. É agora que devo pagar minha dívida. Provavelmente ele me levará para um hotel e fará o que quiser comigo para depois me descartar. E eu vou chorar por dias. ㅡ Eu suponho que o senhor deseje uma compensação pelo dinheiro que gastou comigo. ㅡ De forma alguma, só fiz o que um cavalheiro deveria fazer em uma situação de abuso como aquela. Na verdade, eu estava me perguntando o que uma mulher virtuosa e talentosa como você fazia em um antro abominável como aquele. Sua curiosidade sobre mim me surpreende. Seu olhar é tão sincero que me sinto compelida a me explicar. Acabo contando parte da minha história, de como cheguei ao fundo do poço, não sei nem porquê. Ele parece honestamente interessado na minha pessoa, no meu bem-estar. Chego a achar que estou imaginando tudo isso. Então, ele puxa o talão de cheques de seu terno. ㅡ De quanto você precisa para o aluguel? ㅡ Não posso aceitar. O senhor já gastou demais comigo hoje. ㅡ O dinheiro que entreguei àquele c*****o foi uma doação em prol de uma boa causa. Este agora é um adiantamento. Tem uma vaga de secretária no setor de Recursos Humanos na minha empresa. Se o seu currículo for tão bom quanto diz, vai tirar de letra. É demais para mim. Nunca alguém havia sido tão desinteressadamente benevolente comigo. Caio aos prantos compulsivamente. Percebo que ele fica completamente sem graça com minhas lágrimas. Claro, Mayra... Esse homem extremamente gentil querendo ajudá-la e você banca a desesperada. Realmente estou desesperada. A ideia de me sujeitar a outro tipo de tratamento como o daquele inferninho do qual acabei de me livrar é revoltante. Não quero fazê-lo sentir-se ainda mais desconfortável pela minha falta de controle, apesar de o achar simplesmente adorável. Acabo aceitando uma caixa de lenços que ele me oferece, enquanto tento me recompor. Depois de tudo o que ele fez por mim hoje, o mínimo que posso fazer é ser sincera em meu agradecimento. ㅡ Obrigada! Desculpe! Eu... Eu realmente não sei como agradecer! Estava ficando desesperada! Ele me dá um sorriso encantador. ㅡ Mostrar seu rosto e se apresentar seria uma forma de me agradecer, senhorita...? Passo as mão pela face e percebo ainda estar usando a máscara da apresentação. Que vergonha! Não acredito que me esqueci de tirá-la! Se bem que, depois de todo esse choro, devo estar parecendo um espantalho. Faço o melhor que posso rapidamente com os lenços de papel para limpar o meu rosto e retiro a máscara. ㅡ Mayra. Meu nome é Mayra Hills. ㅡ Encantado, senhorita Hills. Sou Ethan McGregor. Minha boca faz um “Oh” de surpresa e permaneço com os olhos vidrados nele, sem sequer piscar. Ethan McGregor? Estou sentada conversando como uma comadre com Ethan McGregor? Eu conhecia seu nome, por causa da McGregor Corporation com a qual a imobiliária onde eu trabalhava tratava de negócios. Porém, nunca me importei em ver o rosto de seu fundador. Sempre imaginei que fosse um trilhardário egocêntrico e caquético, somente interessado em fazer mais dinheiro. Vinte mil dólares para ele é troco de cafezinho. ㅡ Pelo seu olhar acredito que me conheça. ㅡ Peço desculpas, só conhecia o nome. Ele ergue as duas sobrancelhas, surpreso. Acho que está acostumado a ser bajulado como celebridade aonde quer que vá. Minha ignorância deve ser, no mínimo, inacreditável. ㅡ Você nunca se interessou em saber como era o dono da empresa com a qual o lugar onde você trabalhou tinha negócios? Como ele sabe que a imobiliária em que trabalhei e sua empresa eram parceiras? Lendo a confusão em meus olhos, ele acrescenta: ㅡ A situação que me descreveu bate exatamente com o fechamento de uma imobiliária com a qual tinha um contrato. Também me lembro de que a responsável direta pelas negociações se chamava Mayra Hills. ㅡ Como o senhor pode se lembrar de um contrato desses? ㅡ Senhorita Hills, eu não teria chegado tão longe sem conhecer meus parceiros. Seu olhar se torna intimidador de repente e sinto que estou em uma saia justa. O que posso dizer para me justificar? Que o dono era um cretino e isso me desmotivava completamente? Que eu vivia tão cansada, por carregar todo o serviço nas costas, que m@l dormia três horas por noite? Eu suspiro forte. Nada disso é desculpa. ㅡ Perdão. Eu realmente nunca me interessei em saber. ㅡ Por quê? Parece-me que a vaga que ele me ofereceu depende da minha resposta. Pelo o que me lembro, o rompimento do contrato não foi muito bem visto. Essa é a entrevista de emprego mais surreal e difícil que já fiz. Maldito, Andrew! Mesmo longe e preso, continua a me prejudicar! Tenho que dar-lhe uma resposta à altura. Eu o encaro solidamente. ㅡ Sua fama de devorador de empresas o precede, senhor McGregor. Quando assinamos com a McGregor Corporation tive o cuidado de levantar os dados da empresa. Sua idoneidade era importante. Não procurei saber sobre sua aparência física, pois não era relevante. Porém, como conduzia seus negócios, sim. Então, novamente peço desculpas por não tê-lo reconhecido. Ele recosta em silêncio contra a porta para me encarar de frente. Faz um gesto circular com o indicador para alto e o motorista dá a partida. Depois repousa as duas mãos cruzadas sobre seu colo, enquanto parece me fuzilar com o olhar mais desafiador que já vi. Acho que minha língua afiada despertou seu interesse. ㅡ O que mais sua pesquisa revelou sobre a idoneidade da minha empresa, senhorita Hills? Ele poderia ter pena de mim e talvez me aliviar um pouco em virtude do que acabei de passar. Porém, este não é o caso. Bem, já que ele não vai jogar leve comigo, eu também não vou ser sua presa indefesa. Apoio as mãos sobre os meus joelhos, levemente virada na direção dele, endireitando minha postura. ㅡ Moro na esquina da Décima Avenida com a Rua 57. O motorista entende, acena com a cabeça, e um vidro blindado e escuro se fecha separando a parte da frente da de trás do carro, dando-nos mais privacidade para conversar. ㅡ É um trajeto curto, levaremos no máximo dez minutos para chegar. ㅡ Só preciso de cinco. ㅡ Ele sorri levemente e eu continuo. ㅡ A McGregor Corporation possui índices elevadíssimos na bolsa de valores, assim como na preferência popular, o que por si só já é uma contradição. Empresas muito valorizadas tendem a esquecer o lado humano em prol da montanha de dinheiro que podem fazer e fatalmente se tornam malvistas publicamente. A grande maioria não se importa com isso. Realizam projetos placebos para maquiar a opinião pública e ganhar um pouco de credibilidade. Porém este não é o seu caso, senhor McGregor. ㅡ Qual seria o meu caso, senhorita Hills? ㅡ Transparência. Sua empresa realmente cumpre o que promete. Sei que seus negócios são basicamente engolir empresas menores, em falência ou algo do gênero. Desmontá-las, aproveitar o que puder e liquidar o que sobrar. Nesse tipo de negócio, pessoas honestas e trabalhadoras acabam saindo prejudicadas muitas vezes. Não obstante, a McGregor Corporation não age dessa forma. A vida humana é levada sempre em consideração. Seus projetos são abrangentes e verdadeiros, não são apenas fachada. ㅡ Devo me sentir bajulado por sua observação? ㅡ O senhor não precisa da minha bajulação, assim como não precisa do agradecimento feito em sorrisos sinceros das áreas pobres na África, para onde sua empresa está viabilizando a chegada de água potável. Nesse momento, seu olhar estreita levemente. Sinto que ganhei mais um ponto. ㅡ Realmente, bajulações e sorrisos não pagam as custas de nenhum projeto ou o salário de nenhum funcionário. ㅡ Porém, propaganda gratuita e prestígio pagam por tudo isso e muito mais. A McGregor Corporation pode ser considerada filantrópica, porém isso não significa que o senhor não lucre. A diferença é que o seu lucro dificilmente irá prejudicar alguém. E, se o fizer, o senhor prontamente arrumará meios para solucionar a questão. ㅡ Por que eu faria isso? ㅡ Porque, além de um gênio a frente de seu tempo, o senhor também é uma boa pessoa. Minha voz falha na última palavra e eu faço uma pausa. Fraquejar assim, diante do homem mais poderoso da cidade quando meu destino está em suas mãos, é frustrante. No entanto, ao contrário do que eu esperava, ele me surpreende mais uma vez. Eu deveria saber que alguém na posição dele não deixa passar nenhum detalhe, por menor que seja. ㅡ Vejo que a filha de Andrew Hills é bem mais visionária e sagaz que o pai. ㅡ Ele estende sua mão na minha direção. ㅡ Bem vinda à McGregor Corporation, senhorita Hills. Dessa vez, contenho minhas lágrimas e aperto sua mão com empolgação. ㅡ Obrigada. Não vai se arrepender, senhor McGregor. ㅡ Tenho plena certeza disso. Formaremos um time fabuloso.
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