📖 Capítulo 3 – Dança de Guerra

684 Words
Os dias seguintes correram como um vendaval silencioso. Cassie tentava agir como se nada tivesse acontecido naquela noite no estúdio. Como se não tivesse dançado diante de Hoseok. Como se ele não tivesse olhado para ela como se estivesse enxergando algo além da superfície. Como se não tivessem trocado palavras que ficaram presas no ar mesmo depois que ele foi embora. Mas ele estava diferente. Hoseok continuava com suas provocações, é claro. Só que agora, havia algo no olhar dele. Algo que Cassie não sabia nomear — e nem queria. Era como se ele estivesse observando cada gesto dela. Como se estivesse prestando atenção demais. E, mais do que isso, como se não soubesse lidar com o que via. Na universidade, as provocações continuaram. Mas agora tinham outro tom. — E aí, Cassie. Vai dançar hoje à noite no estúdio? Posso trazer pipoca e te assistir de novo — ele disse no corredor, com um sorriso provocador. Ela se virou com calma, os livros firmes nos braços. — Se quiser aula, eu cobro por hora. Mas não tenho desconto pra babacas. As amigas de Hoseok riram, mas ele apenas sorriu. Não havia raiva no olhar dele. Havia fascínio. No final da tarde, Cassie recebeu um convite inesperado. Um professor da universidade a indicara para participar de uma audição interna para um grupo de dança experimental. Era uma oportunidade rara — especialmente para alguém como ela, uma estrangeira sem contatos, sem sobrenome importante, sem currículo impressionante. Quando chegou em casa, o coração batia mais rápido. Subiu direto para o estúdio — o mesmo onde dançava escondida. Ligou o som e começou a ensaiar, concentrada, determinada. Cada passo, cada movimento, era ensaiado com precisão. O corpo suava, mas a alma brilhava. O que ela não sabia era que Hoseok estava ali de novo. Sentado no chão do corredor, encostado na parede, ouvindo a música e os passos suaves ecoando atrás da porta entreaberta. Ele deveria ir embora. Deveria ignorar. Mas não conseguiu. Ao abrir a porta sem fazer barulho, encontrou Cassie girando, os cabelos soltos voando no ar, os olhos fechados. A luz suave do pôr do sol entrava pelas janelas, pintando a cena como um quadro. Quando a música parou, Cassie se virou — e o viu. — De novo? Você anda me perseguindo, por acaso? Hoseok cruzou os braços, se apoiando na moldura da porta. — Não. Só... me interesso por coisas bonitas. Ela arqueou a sobrancelha. — Isso foi um elogio? — Foi um fato — ele respondeu. Cassie respirou fundo. Estava cansada demais para jogar o jogo dele. — Por que você me trata assim? Como se não soubesse se me odeia ou me admira? Hoseok hesitou. Por um momento, seu rosto se desarmou. — Porque eu não sei. O silêncio entre eles foi denso. Cassie virou o rosto, pegando a toalha no canto da sala. — A vida me ensinou a não confiar em mudanças repentinas, Hoseok. — E o que a vida me ensinou é que às vezes a gente precisa ver as pessoas quando elas acham que ninguém tá olhando — ele disse, antes de sair. Cassie ficou ali, imóvel. O coração acelerado por motivos que não queria admitir. Naquela noite, ela sonhou com danças. Com um par de olhos castanhos que a observavam em silêncio. Com braços que a seguravam firme quando o mundo ameaçava desabar. E, pela primeira vez em muito tempo, ela acordou com o coração em conflito. Na manhã seguinte, Hoseok estava na cozinha. Preparava café, o cabelo ainda bagunçado, usando uma camiseta larga. Quando ela entrou, ele olhou por cima do ombro. — Fiz pra mim. Mas... pode pegar um pouco, se quiser. Ela parou, surpresa. — Café? Feito por você? — Acredite ou não, eu sei usar uma cafeteira — ele respondeu. Cassie pegou uma caneca, hesitante. Deu o primeiro gole. Estava forte demais. — Isso aqui poderia dissolver tinta de parede. Hoseok riu. — A intenção era boa. O resultado... um experimento. Ela riu também, pela primeira vez em muito tempo. E por um instante, as paredes frias entre eles pareceram rachar.
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