VIVIENE - Monstros

1044 Words
Oh-oh-oh-oh-oooh Oh-oh-oh-oh-oooh, oh-oh-oh Sentada na calçada, olhei para a rua em minha frente, que se estendia até o horizonte. Totalmente deserta. O sol brilhava a oeste, se encaminhando para o fim do dia. Vi ao longe um ônibus escolar se aproximando. Apesar de estar longe, eu ouvia as crianças cantando: Oh-oh-oh-oh-oooh Oh-oh-oh-oh-oooh, oh-oh-oh A música me soava conhecida mas eu não conseguia lembrar o cantor. O ônibus se aproximava, cada vez mais rápido. Vi uma poça de lama na minha frente, exatamente por onde passaria a roda do ônibus. Droga, se eu ficasse ali tomaria um belo banho de lama. Tentei me mexer, mas não consegui. Parecia congelada naquela posição de buda. Oh-oh-oh-oh-oooh Oh-oh-oh-oh-oooh, oh-oh-oh O ônibus se aproximando e eu desesperada sem conseguir me mexer. O que estava acontecendo? Olhei para o ônibus e – O QUÊ? - o motorista parecia a Lady Gaga! Tentei me concentrar e mover minhas pernas, mas nada funcionava. Abri então minha boca para gritar, mas nenhum som saiu. Minha mandíbula também travou, e fiquei assim, com a boca escancarada, enquanto o ônibus se aproximava. O motorista Lady Gaga ria descontroladamente e eu ali, com a boca aberta. Não, d***a, alguém pare esse ônibus!!! O ônibus passou na minha frente e a lama voou dentro da minha boca. Enquanto eu engasgava com a lama, o motorista-Gaga parou o ônibus e veio até mim. Se abaixou até ficar com seus olhos na altura dos meus, e disse: - Caught in a bad romance Acordei num sobressalto, com o coração disparado. Graças ao Lord, foi só um pesadelo. Vi meu celular na cama, tocando em alto e bom som “Bad Romance”, da Lady Gaga. “Ah, agora faz sentido”, pensei. Pelo menos a música e o motorista. Mas e o resto do sonho? Pura loucura. - Alô? Oi Clarice. - Vivi, onde você está? Você está bem? Por que você não estava atendendo? Você está passando m*l? - Quê? Não, tá tudo bem. Eu estava tirando um cochilo, só isso. - Você não está sabendo ainda? - Ãh? Sabendo o que? - Ai Viviene, em que mundo você vive! Olha tuas reder sociais AGORA. - Olhar minhas redes sociais? Por quê? - O vídeo que você fez, viralizou! A universidade toda tá comentando! - Que vídeo, tá louca? - O vídeo na sala de aula! Demorei a entender do que ela estava falando, mas quando ouvi as palavras mágicas “sala de aula”, eu entendi. - Sossega Clarice! Eu só deixei disponível no nosso g***o privado. - Mas alguém publicou Viviene! Alguém espalhou o seu vídeo admitindo a pichação sobre a professora Margarete. Se eu estava em meio sono, mudei para o status “acordada” na hora. - Como assim alguém publicou? Que história é essa? - Dá uma olhada nas tuas redes sociais. Desliguei a chamada e fui conferir. A situação estava um caos total. O vídeo havia sido publicado em vários lugares e compartilhado muitas vezes. E os comentários só aumentavam. Alguns me apoiavam: “ Uhuuu isso aí, acaba com esses professores babacas!” “ Abaixo a repressão!” “Vivi sempre causando!!!” Mas a grande maioria era de reprovação: “Que infantilidade” “Tem que fazer essa folgada pagar o estrago que fez na sala!” “Patricinha ridícula!” “Imagina o tipo de médica que essa aí será!” Confesso que no começo me preocupei um pouco, mas logo a preocupação passou. Eu nunca liguei para a opinião dos outros, não seria agora que eu começaria a ligar. Tomei um banho, coloquei uma saia xadrez, uma blusa preta do Metallica e calcei meu coturno. Já havia anoitecido, então era uma boa hora para um chopp. Certamente a hora que a notícia chegasse aos meus pais eles começariam um discurso, então eu precisava garantir estar muito bêbada para quando esse momento chegasse. Fui a um barzinho próximo e fique até uma hora da madrugada. Ao contrário do que imaginei, ao chegar em casa não encontrei ninguém à minha espera. “Meu velho deve ter cansado de esperar”, pensei. Passei na cozinha tomar uma água e quem eu encontro? Minha mãe, em pé, encostada no fogão, mexendo o que eu imaginei ser seu habitual chá de camomila. Pude notar seus olhos inchados, indicando choro. “Ninguém merece”, pensei. Eu preferia mil vezes escutar os gritos do meu pai em vez das lamúrias da minha mãe. Peguei um copo no armário e caminhei até o bebedouro. - Onde foi que nós erramos, Viviene? Onde foi que vocês erraram? Onde foi que você errou, mamãe. Sempre usando suas filhas como alimento para essa sua fome narcisista insaciável. - Não sei do que você está falando. - Não sabe? Jura que não sabe? Olha aqui. OLHA ISSO AQUI VIVIENE! - disse ela, apontando a tela do celular para mim; não olhei, mas pelo som soube que era meu vídeo que estava passando. - Ah, por favor, pára de drama, ok? Eu sei que no fundo você está feliz. Mais uma vez você pode espalhar pras suas amigas o quanto sua filha é terrível e o quanto você sofre. Ela colocou a mão no peito e fez cara de ofendida. Pura atriz. - Como você pode falar um absurdo desses pra sua mãe? Justo pra mim, que te dei tudo! Te dei meus melhores anos! Fiz tudo pra que você e sua irmã tivessem uma vida muito melhor do que a que eu tive! Minhas mãos começaram a tremer; minha respiração ficou ofegante. Outra crise de ansiedade se aproximava. Apesar de saber que aquilo era a resposta aos gatilhos que minha mãe impecavelmente sabia disparar, eu não conseguia controlar. - Você não vai me responder? Fiz a única coisa que serve como defesa contra uma mãe narcisista: dei as costas e saí. Logicamente ela veio atrás. - NÃO ME DÊ AS COSTAS!!! Me vi novamente com seis anos, correndo para me esconder da minha mãe. Me tranquei no quarto, coloquei meu fone com o volume no último e me joguei na cama. Eu sabia que ela estaria lá fora, batendo na porta, mas eu não atenderia. Eu não tinha mais seis anos. Mas ainda temia o monstro.
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