Saí daquela aula certa de que seria reprovada. Por que diabos aquela velha tinha que ser a professora da disciplina mais difícil do curso? Ainda tive que aguentar a piadinha dela, disfarçada de ameaça, sobre me engasgar com a bolacha! Caminhava pelo estacionamento em direção ao meu carro, e Clarice me acompanhava.
- Por que você está tão brava? - perguntou Clarice.
- Porque eu já conheço essa múmia!
- Múmia? Que múmia?
- Essa professora nova! Encontrei ela hoje pela manhã. Pessoa intragável!
Clarice revirou os olhos, sem disfarçar a reprovação sobre o que eu havia falado.
- Eu não acredito que você já arrumou problema com a professora que acabou de conhecer! Meu Deus, Viviene! Você é a pessoa mais encrenqueira que existe no universo.
- Ah, não enche meu saco, Clarice! Eu não arrumo encrenca com ninguém, eu só não levo desaforo pra casa. Se aquela velha não agisse como se o mundo girasse em torno dela, não existiria problema nenhum. E, vem cá… quem é você pra me julgar? Deixa de ser hipócrita. Você pode até não arrumar briga com os outros, mas vive falando m*l de todo mundo pelas costas. Não é nenhuma santa.
- Nossa Vivi, hoje você está uma grossa!
Parei na porta do meu Mustang, respirando fundo para não dar um chute na b***a da Clarice. Ela estava certa sobre eu ser grossa, mas eu sabia que no fundo ela não se ofendia com o que eu falava. Na realidade, ela nem se importava.. Enquanto eu fosse rica e popular, ela estaria ao meu lado. E não que ela precisasse do meu dinheiro, não, não; a família dela também era rica, não tanto quanto a minha, mas, ainda assim, era muito rica. O problema é que ela não tinha um pingo de amor-próprio, então lambia os pés de quem era rico e não perdia uma oportunidade de humilhar quem não era. Tinha menos dignidade que um cachorro de rua.
- Por que você está me seguindo, afinal? Cadê o seu carro?
- Está perto do prédio de exatas. Eu só quis garantir que está tudo bem contigo. Sou sua amiga, honey!
Aquilo me pareceu engraçado. Acho que se meu pinscher pudesse falar, ele falaria as mesmas coisas que a Clarice.
- Então fica tranquila HONEY, nunca estive melhor na minha vida.
Entrei no meu carro, e esperei Clarice chegar no carro dela e partir.
- Até parece que eu vou deixar isso barato.
Assim que vi ela cruzar o portão do estacionamento, saí do carro, peguei no porta-malas um spray amarelo que eu comprei pra fazer umas pinturas na parede do meu quarto e voltei pra sala de aula. Aproveitei que ela estava vazia e pichei no quadro, em letras de tamanho gigante:
“ A PROFESSORA MARGARETE GOSTA DE DAR ESCULACHO, E EU SEI QUE ISSO É FALTA DE MACHO.”
Peguei o celular e fiz um story pro meu g***o privado, onde só tinha meus amigos mais próximos e de confiança.
- E aí galerinha, eu tô aqui na universidade exercendo o meu direito de me expressar. Gente b****a tem que ser tratada assim! Com a Viviene não tem folga não, quer pisar no meu calo? Se prepara pra levar um chute na cara! Falei, tá falado!
Saí então correndo dali, me sentindo top. Eu adorava lacrar. Agora ficaria contando os minutos até amanhã, para saber os comentários que surgiriam.
XXX
Cheguei em casa e ao abrir a porta, dei de cara com meu pai, com a cara sisuda de sempre.
- Nossa, parece um fantasma. Por que está igual uma estátua parado na porta? - falei.
- Não estou parado na porta, eu estava saindo, da mesma forma que você estava entrando.
Desviei dele, com pressa pra me safar de qualquer conversa que pudesse surgir.
- Whatever.
- E porquê você está em casa essa hora? Não tem aula o dia todo?
Fingi que não escutei e subi para o meu quarto. Embora eu não estivesse matando aula, eu não queria dar satisfação de nada, do contrário ele se acharia no direito de ficar perguntando sobre todas as coisas da minha vida.
Mal deitei na cama e alguém bateu à porta.
- Vivi? Podemos conversar?
Era minha irmã, Emily. Ela era cinco anos mais nova que eu, mas parecia muito mais velha – não pela aparência, mas pelo comportamento. Era certinha e responsável, não falava palavrão, não bebia nem fumava, usava roupas discretas, ia à igreja e era voluntária em uma Ong de p******o Animal. Fazia duas graduações: psicologia e serviço social. “Quero tornar o mundo um lugar melhor”, dizia ela. Resumindo, era meu oposto, o que fazia dela a filha dourada dos meus pais. E ao contrário do que as pessoas pensam, isso não nos afastava. Ela era minha irmã, eu a amava e nada mudaria isso.
- Pode entrar, minha chatinha favorita.
Com sua camiseta branca com estampa de um gatinho malhado, calça jeans e cabelo preso, minha irmã parecia o retrato fiel da boa moça do século XXI.
- Eu sei que você acabou de chegar e deve estar querendo descansar, mas eu queria muito te fazer um convite.
- Aiaiai, deixa eu adivinhar. Bingo beneficente da igreja?
- Não.
- Feira de adoção de animais?
- Não.
- Distribuição de sopa para moradores de rua?
- Também não.
- Kit de silicone, unhas em gel e cílios postiços pras suas amigas “jaburus”?
- Viviene!
Eu ri da cara indignada dela; ela sempre reagia assim quando eu falava das amigas dela.
- Tá bom, desculpa ofender a liga master das princesas da Disney. Qual é o convite?
- Nós estamos fazendo um estudo sobre métodos aplicados em terapias alternativas para pessoas com o hábito de consumir cigarro, e eu pensei que você…
- Você quer que eu seja cobaia de um experimento para parar de fumar?
- Credo, você fala como se eu estivesse te chamando pra servir de rato de laboratório!
- É isso ou não é?
- Em outras palavras… é isso.
- Tô fora!
- Vivi… pensa bem, é uma ótima oportunidade pra você parar de fumar!!! Esse é um hábito h******l. Faz m*l para você E para quem está à sua volta.
- É só não ficarem à minha volta.
- Por favor, é um método inovador. É um combinado de sessões de terapia e um remédio fitoterápico.
O “NEM PENSAR” estava na ponta da minha língua; foi quando me dei conta que passar por sessões de terapia com estudantes de psicologia – ainda mais da “tribo” da minha irmã – poderia me render momentos hilários. Eu poderia inventar histórias loucas sobre minha família, ou então histórias com mortos, ou então… resumindo, possibilidades infinitas de zoar com aquelas meninas.
- Tudo bem, eu topo.
Emily arregalou os olhos.
- Vo… você topa?
- Foi isso que eu disse. Eu já estou cansada de ficar com o cabelo cheirando cigarro, quem sabe essa terapia de vocês me ajuda, não é mesmo?
Ela abiu um largo sorriso e caminhou até a porta. Parecia radiante de alegria.
- Obrigada maninha. Você não vai se arrepender!
- Fecha a porta! - falei, e ela cumpriu o pedido imediatamente.
Pude então me esticar na cama e relaxar. Era hora de tirar um cochilo.
Por hoje o dia já havia sido agitado demais.