MIGUEL - O Prédio

1262 Words
Não tive opção: voltei para casa. Eu fiquei num grau de sujeira que era capaz do motorista do ônibus nem permitir que eu subisse. Se eu fiquei com raiva? Sim. Se eu queria descobrir quem era a cretina que havia feito aquilo? Com certeza. Se eu queria me vingar dela? Lógico! Se isso ia acontecer? Óbvio que não. A verdade é que provavelmente eu nunca mais a veria na vida, então o jeito era engolir a minha raiva junto com meu orgulho e me focar em resolver a situação, afinal, quanto mais eu me enrolasse mais prejudicado eu seria. Corri até meu apartamento – ainda estava chovendo – sem me preocupar em segurar o guarda chuva, afinal eu já estava enlameado, que diferença faria estar encharcado? Subi as escadas correndo; tinha uma escadinha em frente ao prédio e eram mais dois lances de escada. Se você está imaginando um belo prédio residencial, com portaria e hall de entrada, sinto decepcioná-lo. Eu morava num prédio antigo, de 03 andares, cujo porteiro era a porta principal que dava acesso a todos os apartamentos. Cada morador tinha a chave dessa porta principal, e se comprometia com o dono do prédio a nunca fazer cópias não autorizadas da chave (como se isso garantisse a segurança dos moradores). Cada andar tinha 02 apartamentos, com cerca de 32 metros quadrados cada um. No térreo morava a dona Geralda, uma viúva de 75 anos, típica vovó de novela: seu apartamento era muito limpo e cheiroso, repleto de toalhinhas de crochê, enfeites de gatinhos e fotos dos netos espalhadas pelas paredes. Dona Geralda não permitia que homens sozinhos entrassem no seu apartamento; eu já havia entrado porque as vezes eu fazia pequenos consertos pra ela. Além disso, ela falava que eu lembrava muito o filho dela que morava em Portugal. “Você tem os olhos do meu Antony, só que ele é menos orelhudo. Mas não se preocupe, ainda assim você é um belo rapaz, vai encontrar uma boa moça pra casar”, costumava me dizer, enquanto me servia uma xícara de chá (que eu aceitava por educação, pois nunca gostei de chá). O outro andar do térreo era de outra viúva, chamada Magda, que deveria estar com cerca de 75 anos também, embora ela jurasse que ainda não havia chegado aos sessenta. Magda era o inverso de dona Geralda; recebia qualquer pessoa em sua apartamento que, aliás, era uma verdadeira bagunça. Fumava compulsivamente e não negava uma cerveja; ia em bailes, bares e fazia suas ‘festinhas” noturnas, para protesto de dona Geralda. As duas viviam em pé de guerra, para desespero do dono do prédio, que tinha que aguentar uma relatório de reclamações das duas cada vez que ele aparecia por lá. Apesar de todo o clima de inimizade, todo mundo no prédio sabia que no fundo, elas eram amigas. Isso soava como lenda, até a vez em que dona Geralda pegou uma pneumonia e ficou semanas acamada; Magda não saiu do lado dela. Durante esse tempo não bebeu nem fumou; manteve a casa de dona Geralda limpa e preparava-lhe sopas, dava-lhe os remédios e acompanhava-a nas consultas. Os filhos e netos de dona Geralda? Bem, eles apareceram uma ou duas vezes nesse período. Deixavam um dinheirinho na mesa da cozinha e uma recomendação de “ligue se precisar de algo”. No segundo andar era o meu apartamento, que eu dividia com meu amigo Jonas. Nós éramos muito diferentes em algumas coisas: eu era organizado, ele parecia viver dentro de um furacão; eu era metódico e concentrado, ele era desligado e não gostava de regras. Em outras coisas, éramos muito parecidos: éramos honestos, adorávamos jogar vídeo game, eu adorava cozinhar e ele amava comer, éramos bons ouvintes, então sempre nos apoiávamos nas horas difíceis. Jonas era um grande amigo, era um grande irmão. No outro apartamento do nosso andar morava Eliete, uma atendente de telemarketing bonita, simpática, solteira e muito cobiçada no bairro. Os caras da vizinhança sempre perguntavam pra mim sobre ela, usando adjetivos direcionados ao corpo dela, como “gostos@”, “peitud@” ou “morena quente”. Eu sempre achei aquilo um desrespeito. É lógico que ela era realmente bonita, mas era um ser humano e deveria ser reconhecida também por sua personalidade. Para mim a presença dela enchia qualquer lugar de graça; ela tinha um sorriso encantador, meio debochado, e vivia sorrindo. Tinha um jeito debochado de provocar uma conversa. Ela sempre aparecia na minha porta pedindo algum favor. “Oi vizinho, que sorte a minha te encontrar em casa. O meu café acabou, você me empresta um pacote? Te juro que assim que meu vale-alimentação sair eu te recompenso. O que eu faria sem você, hein?” dizia ela, com aquele sorrisinho de canto de boca, que me deixava corado. Dona Geralda e Magda a odiavam. - Menino Miguel, você não devia dar conversa fiada pra essa menina. Meu falecido Josmar tinha uma prima igualzinha, e você nem imagina quantos homens ela levou para o mau caminho. Não é verdade Magda? Você que entende bem de mau caminho, fala isso pro Miguel – dizia dona Geralda. - Ela é uma v@dia, Miguelito. – respondia Magda. – Se você der mole, ela vai tirar tudo de você. Eu só ria e desconversava. Elas não viam Eliete como eu via. Ela só era uma garota muito bonita e muito incompreendida. - Você não vê a verdade porque está de quatro por ela – falava Jonas – E entre aquelas duas velhotas e a nossa vizinha gostos@, você já sabe minha decisão. No terceiro andar morava um casal, Denis e Ricardinho, que eu pouco via, pois ou eles estavam trabalhando ou estavam trancados em casa. Ricardinho eu ainda encontrava mais, especialmente na padaria, na fila do pão. Apesar de serem “encontros rápidos”, Ricardinho costumava ser muito simpático; tínhamos a conversa padrão de vizinhos de apartamento: “a Magda chegou bêbada e não trancou a porta da entrada”, “tem algum apartamento com vazamento” ou “como o bairro anda perigoso”. Já Denis era mais fechado, e nossas conversas se resumiam em “bom dia” e “boa tarde”, o que não me incomodava, afinal, vivíamos todos em paz, então para que mudar? E no último apartamento morava Paula e dois filhos, uma bebê de 8 meses chamada Amandinha e um menino de três anos chamados Felipe. Paula era casada com Gilson, mas como ele trabalhava em outra cidade, só aparecia nos fins de semana a cada quinze dias. Gilson parecia ser um cara legal, e ele e Paula pareciam se amar, mas durante o tempo que ele estava fora, Paula parecia uma mãe solteira, tendo que lidar com todas as dificuldades de criar sozinha duas crianças num bairro perigoso como o nosso. Todos gostavam muito de Paula, e é por isso que sempre dávamos apoio para ela. “Gilson está fazendo isso para nos dar uma vida melhor”, dizia ela com os olhos marejados. Eu sempre me perguntei se aquelas lágrimas eram de alegria mesmo, ou de tristeza. Enfim, cheguei no apartamento, e corri tomar banho e trocar de roupa. Depois de pronto, saí do apartamento e parei trancar a porta. Olhei no celular para ver o horário e fiquei irritado; ia chegar mais atrasado do que previa. “Valeu garota do mustang”, pensei, “espero que o seu dia esteja pior que o meu”. Tranquei a porta e desci.
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