- Deseja mais alguma coisa? - perguntou a atendente da cafeteria.
- Não, obrigada. - respondi, sem desviar os olhos do celular. Finalmente minha playlist de músicas preferidas estava pronta. Olhei para o canto superior da tela.
10:40.
- d***a, d***a, d***a!!!! - falei, enquanto me levantava, segurando em uma mão o celular e na outra minha bolsa ainda aberta.
“Não acredito que de novo perdi a hora!”, pensei.
Corri até o único caixa do local e – para minha infelicidade e azar – ele estava atendendo uma senhorinha, que não aparentava a menor pressa. O garoto do caixa estava parado, esperando enquanto a velhinha escolhia alguma coisa no balcão.
Comecei a bater o pé ansiosa, na esperança que a velhinha entendesse o sinal e liberasse logo o caixa. E ela realmente entendeu o sinal, pois parou de olhar os itens do balção e se virou pra mim. Esbocei um leve sorriso, mas ela não correspondeu. Não só não correspondeu, como voltou a olhar os itens do balcão, parecendo estar com menos pressa ainda.
- Desculpa tia, mas eu tô com muita pressa. Dá pra dar uma agilizada aí, please?
O garoto do caixa olhou para mim, depois desviou os olhos pra velinha, que nada respondeu, e continuou sua busca.
Suspirei fundo. Cutuquei levemente com as pontas dos dedos o ombro da velinha, que se virou novamente em minha direção. Dessa vez eu havia conseguido a atenção
- Oi tia, desculpa, eu sei que a senhora tem tooodo o tempo do mundo pra ficar escolhendo a sua bolachinha, mas tem gente aqui com coisas importantes pra fazer, entende? Eu sou estudante de medicina. Sabe, médicos? Aquelas pessoas de branco que a senhora deve visitar muito? Então, eu serei uma dessas. Então, dá uma licencinha e deixa eu ser atendida logo, ou escolhe logo a porcaria dessa bolacha!!!
O garoto arregalou os olhos.
A velhinha baixou os olhos, se virou pro caixa e… voltou a olhar as bolachas. Meu sangue ferveu. Aquela velha tinha muita sorte de já estar com o pé na cova, senão eu tinha tirado ela de lá pelos cabelos. Peguei minha carteira de dentro da bolsa, tirei duas notas de 100 reais, estique o braço por cima do ombro da velhinha e joguei o dinheiro no balcão.
- Toma aí moço, acho que duzentos paga um cappuccino né?
Comecei a andar em direção a saída, mas minha raiva me mandou voltar. Cheguei perto da velinha e cochichei no ouvido dela:
- Obrigada por nada, sua velha egoísta. Tomara que engasgue com a bolacha.
Quando cheguei na universidade já eram 11:00horas. Nenhum sinal no g***o do w******p; provavelmente estavam concentrados assistindo a aula. Cheguei na porta da sala; pelo vidrinho da porta pude ver o professor falando animadamente e a turma anotando. “Que preguiça….odeio pegar o b***e andando”, pensei. Achei que não seria muito proveitoso assistir a aula a partir da metade, além do mais, já estava perto do horário do almoço. Compensava eu esperar a aula da tarde.
A tarde começava uma disciplina nova, Histologia, que todo mundo dizia ser muito difícil. O ponto positivo é que o professor ainda não me conhecia, então não tinha como me odiar já de cara. Ou tinha? Não seria a primeira vez que eu aguentaria o ódio à primeira vista de um professor.
Resolvi aproveitar a hora do almoço pra dar uma voltinha no shopping; era perto, e eu estava mesmo precisando comprar um livro. Achou que eu ia comprar sapatos? Por quê? Porque sou rica? Sinto muito te decepcionar, mas ser rica não faz de mim uma patricinha. Também não me faz uma intelectual. Na verdade ser rica só me faz ser.... rica. Não descobri o que mais posso acrescentar a essa lista.
“Caramba Vivi, você não vem pra aula?
Você disse DE MANHÃ que estava vindo!
Se continuar assim, pode dizer adeus à medicina!”
Me dava preguiça olhar o w******p e ver as mensagens da Clarice. Eu gostava muito dela fora da universidade; era do tipo que sabia beber, e quando digo beber, era beber mesmo: vodka, whisky, gim, rum, chopp, caipirinha, tequila. “Pode encher o copo!”, era o lema dela. Mas o mesmo poder que ela tinha pra aguentar a bebida, ela tinha pra se recuperar. Enquanto eu sempre amargava uma ressaca monstruosa após nossas saídas, no outro dia ela aparecia plena, pronta para participar de uma missa. E nas aulas, era insuportavelmente certinha.
“Vá à merd@ sua chatinha, não vou dar adeus pra ninguém!”, respondi.
“Há-há. A aula de histologia começa em 20 minutos. Estão falando que a professora é do m*l!”
Paguei o livro e fui para a universidade.
Consegui chegar 5 minutos antes do início. Logo que entrei na sala vi Clarice acenando, mostrando um lugar vago ao lado dela.
- Oi turista. Você está começando hoje?
- Muito engraçado. É lógico que eu viria na aula. De manhã não vim porque... bem, acabei jogando lama sem querer num cara que estava no ponto de ônibus, daí como boa cidadã voltei para ajuda-lo e acabei demorando.
- Aham... Sei. Você ajudando alguém? Do ponto de ônibus? – Clarice começou a rir – É mais fácil você ter passado por cima do cara.
Não gostei do comentário. Tudo bem que eu realmente não tinha ajudado o cara, mas também o que aconteceu não foi nada demais. Era só ele trocar de roupa. Talvez tomar um banho.
- Vamos calar a boca que eu quero ver se esse professor é tão horripilante quanto
falam.
- Professo-RA.
- Professora? Não era professor?
- Não! É uma tal de Margarete. Diz que a mulher é Phd em An@tomia Humana, trabalhou muitos anos de perita, e é m****o honorário do ...
- Minha nossa, nem conheço e já acho chata...
A porta da sala então se abriu. Toda a turma ficou em silêncio, observando a mulher que acabara de entrar.
Era uma senhora, em torno de seus 70 anos, pele alva, cabelos brancos até o ombro, bem escovados. Usava um vestido florido, num tom rosa claro, e um cardigã cinza de tricô. Quem olhasse à primeira vista podia dizer que ela uma senhorinha qualquer, dessas que você encontra comprando biscoito para os netos em uma...
- Cafeteria. – falei baixinho, sem conseguir acreditar que minha nova professora era a velhinha que encontrei mais cedo. – MAS QUE MERD@!
Falei, sem notar que o som tinha saído mais alto do que eu imaginara.
Infelizmente, eu tinha falado BEM alto, o suficiente para todos os alunos se virarem em minha direção. Pra piorar, a professora também ouviu. Ela fez sombra sobre olhos para se proteger da luz da lâmpada e tentar me enxergar. Comecei a escorregar pela cadeira, tentando me esconder.
“Por favor, por favor, não me reconheça, não me reconheça”
A mulher começou então a andar pela sala, vindo em minha direção. Ao chegar na minha frente, para minha surpresa, abriu um sorriso amigável e falou:
- Calma querida. As pessoas falam muitas coisas sobre mim, mas eu sou muito legal, você vai ver.
Falou isso, e começou a voltar para a frente da sala.
“Ufa! Essa passou por pouco” – pensei – “ainda bem que a memória dos velhos é r**m”.
Nisso, a velhinha parou de andar e disse:
- Ah! Antes que eu esqueça!
Fez meia-volta e caminhou de novo até mim. Parou na minha frente e se abaixou, até os olhos dela ficarem na altura dos meus. Sorrindo, tirou um biscoito decorado do bolso, e o levou até as minhas mãos.
- Tome querida, um biscoito pra adoçar seu dia. – o sorriso então desapareceu e, no lugar dele, apareceu uma cara séria e zangada – e muito cuidado pra não engasgar.