ELA
Eu odeio regras. Odeio limites. Acredito que se fosse parte de nossa natureza sermos obedientes, não teríamos pernas para correr, para explorar. Enfim, assim como meu corpo, meu pensamento é inquieto – como você pode notar.
Meu nome é Viviene – com E mesmo, não Viviane – e tenho 23 anos. Curso medicina em uma das universidades federais mais renomadas do país. Não trabalho, pois tenho aula praticamente o dia todo (e também porque não preciso). Se me considero privilegiada? Não sei se essa seria a palavra. Realmente é um privilégio estudar de graça, mas dinheiro para mim nunca foi um problema. Meu pai é CEO de uma das maiores multinacionais americanas na área de cosméticos e minha mãe é a única herdeira de um império construído pelo meu avô, um grande investidor na área de extração de petróleo.
Meu celular desperta todos os dias às 07 horas; minhas aulas começam às 08:30h, então uma hora e meia seriam suficientes para tomar um bom café, me arrumar e chegar na universidade, que fica a 5km da minha casa. Entretanto, levantar para mim é um sacrifício. Ah! Como odeio levantar para fazer algo tão chato. Acabo me enrolando, e saio de casa sempre atrasada. Nem mesmo meu Mustang vermelho-sangue consegue compensar o atraso, e perco todos os dias o começo da aula. Os professores já desistiram de reclamar - não que sintam minha falta, mas quando eu chego quebro a concentração de todos.
Aquela quinta-feira não estava sendo diferente. Atrasada, eu fazia meu zigue-zague no trânsito tentando ganhar uns minutinhos. Estava chovendo, uma chuva fininha que só servia para deixar os motoristas lerdos ainda mais lerdos. Faltando quatro quadras para o estacionamento da universidade, a chuva engrossou; o limpador do pára-brisa sofria com a água, e eu sofria com o trânsito.
Para meu desespero, a fila de carros parou. Na minha frente, um caminhão caçamba com a frase “TÁ COM PRESSA PASSA POR CIMA” pintada no pára-choque, parecia me desafiar. Olhei no celular: 08:30. “d***a”, falei alto.
- Anda, bando de idiotas!!! É só chuva, não é meteoro não!!! - gritei pela janela, mas ninguém pareceu me ouvir.
Desviei então pelo acostamento, e m*l desviei do caminhão percebi que na lateral havia um ponto de ônibus, e no ponto de ônibus, um rapaz. Tentei frear, mas já era tarde: dei um banho de água suja nele. Vi que ele ainda tentou dar um passo para trás, mas foi inútil. A camisa social branca ficou imunda, a calça encharcada e os óculos cobertos daquela água amarronzada. Olhei rapidamente pelo espelho retrovisor e o vi com a cabeçada abaixada, olhando para o próprio corpo, com certeza sem acreditar no estrago que eu tinha feito.
Pensei em voltar e pedir desculpa, oferecer uma carona, sei lá. Mas meu celular tocou; era uma mensagem no g***o de w******p da classe de medicina>
“O professor teve um acidente leve de carro, a primeira aula está cancelada. Próxima aula às 10:40hr na sala 41” - dizia a mensagem.
“Uhuuuu”, gritei. Tudo o que eu precisava era de um tempo extra. Fiz o retorno na primeira esquina, e parei em frente a uma panificadora.
A única coisa que passava na minha cabeça é que eu queria muito tomar um cappuccino.
E o resto do mundo podia esperar.
ELE
Quando meu celular despertou às 06:oo hr eu já estava em pé. Mesmo tendo ido dormir às 04 horas da madrugada, o senso de responsabilidade não me deixou ficar mais na cama. A sra. Donhenberg foi bem específica quando disse que seus cachorros – um lhasa-apso chamado “Wink” e um golden-retrivier chamado ironicamente “Golden” - esperariam às 06:30 para caminhar. Acordar cedo após uma noite puxada de estudos era difícil, mas o dinheiro que a sra. Donhenberg pagava pelo serviço dava uma boa aliviada no orçamento. E se no fim do ano eu conseguisse finalmente passar no vestibular de medicina, todo esforço teria valido a pena.
E pontualmente às 06:30h encontrei a velhinha alemã na porta da casa dela, já com os bichos na coleira, doidinhos para correr.
- Bom Dia sra. Donhenberg.
- Bom Dia Miguel. Meus dois garotos estão agitados hoje. Ontem recebi a visita dos meus netos, e aquelas crianças são simplesmente terroristas. Acho que Wink e Golden estão com stress acumulado, tadinhos. Vou cuidar para que aquelas pestes não voltem aqui tão cedo.
- Fique tranquila, vou colocá-los para correr hoje. Vão voltar bem calminhos.
- Acho ótimo, porque preciso de meus companheiros calmos para assistirmos juntos a minha novela da tarde.
Concordei balançando a cabeça e acenei me despedindo dela, enquanto segurava as coleiras dos bichinhos.
Corremos na praça e exatamente às 07:30 devolvi-os para a dona.
Voltei para casa tomar um banho, arrumar e caminhar 10 quadras até o ponto de ônibus; precisava estar no ponto no máximo até as 08:30hrs, para dar tempo de iniciar no trabalho às 09hrs.
Eu trabalhava como assistente de contabilidade em um escritório, então precisava ir vestido adequadamente e chegar o menos possível amassado, o que era difícil quando se encara um ônibus lotado. Mas eu era organizado e cuidadoso, então normalmente isso não era um problema para mim.
Naquela quinta-feira, enquanto eu caminhava em direção ao ponto, começou a chover. Mesmo a chuva sendo fininha, abri meu guarda-chuva. Assim que cheguei no ponto, a chuva engrossou. “Estou com sorte”, pensei, “mais um minuto e eu estaria encharcado”.
Decidi dar uma olhadinha no celular e, quando eu menos esperava, um carro vermelho, dirigido por uma moça, entrou correndo no acostamento e passou na minha frente, fazendo toda a água enlameada que estava acumulada no meio fio virar uma cachoeira em cima de mim.
Acho que na hora eu não consegui pensar nada. Foi um misto de frio – afinal eu fiquei encharcado - e preocupação, que acabei travando. Minha roupa ficou imunda; como eu iria trabalhar daquele jeito? Não tinha como; eu precisava voltar pra casa e trocar de roupa. Ia chegar atrasado e atraso significa desconto no salário. E desconto de salário significa menos dinheiro no fim do mês. d***a, foi como se a motorista daquele carro tivesse estraçalhado todo o trabalho que tive de manhã com aqueles cachorros; afinal, com o desconto do atraso no escritório, o dinheiro extra que ganhei só me deixaria no zero-a-zero.
Enquanto tirava meus óculos para tentar limpá-los de alguma forma, vi o carro desaparecer no trânsito. Só então vi que era um mustang.
- Maldita patricinha – sussurrei. - Vocês são todos iguais.