Uma bronca, uma diversão, uma surpresa

1399 Words
Liam não deixava o assunto Magno morrer. A cada dez minutos, lá vinha ele outra vez, perguntando sobre o "projeto desnecessário" — como ele mesmo dizia — de alguém que, segundo ele, só tinha ascendido socialmente por pura sorte. Era cansativo. Ele sempre dava um jeito de desmerecer o Magno, dizendo que era problemático com mulheres, que não sabia o que queria da vida… Sempre algum comentário venenoso, como se aquilo fosse me influenciar. E justo no dia em que eu estava me destacando, o Liam resolveu fazer daquilo uma palhaçada. Era cada pergunta mais absurda que a outra. E se alguém se aproximava, ele fazia questão de teatralizar tudo — como se aquilo fosse um jogo, um teatro e******o para satisfazer o ego dele. Era vaidade pura, típico de um riquinho metido a sofisticado, com esse sotaque meio estrangeiro que ele adora forçar. — Eu não sou arquiteta, Liam. A arquiteta aqui é a sua noiva! Foi a única coisa que consegui dizer antes que perdesse a paciência de vez. Tudo por causa da maldita piscina com borda infinita que o Magno queria. E só porque eu demonstrei uma pontinha de irritação — merecida, diga-se de passagem — a Bárbara apareceu. Ela chegou bem na hora. Me olhou como quem tenta decifrar o clima estranho, e o Liam… ah, o Liam se fez de santo. Aquele olhar de ofendido sensível, como se eu tivesse exagerado, como se ele não estivesse provocando desde o primeiro minuto. E eu ali, tentando manter a compostura, engolindo a vontade de dizer umas verdades que estavam entaladas há tempos. — Elara, mais uma vez, quero que você entenda uma coisa... Não leve pro lado pessoal o que aconteceu aquele dia com a Mônica Calisle. Eu e o Liam conversamos sobre tudo. Ele te disse coisas horríveis, sim, mas você jogou fora o café que ele sempre te dá. — Eu estava mal... — m*l? Elara, por favor. Você não é obrigada a gostar dele, nem eu esperaria isso de você. Mas hoje... quando cheguei aqui, você olhou pra ele como se ele fosse um invasor. Seu olhar foi... duro, pesado. Não faz isso, por favor. A Bárbara realmente não sabia de nada. Ou fingia não saber. Ela via o Liam como um homem ideal, um príncipe moderno. E eu, que já tinha visto o pior dele, precisava ouvir um sermão como se estivesse sendo mimada ou birrenta. Eu até podia ter sido mais contida, mas ele... ele sempre vinha com aquele ar de superioridade, querendo me dizer o que eu devia ou não fazer com a minha vida. Qual é a dele, afinal? Se Bárbara soubesse realmente o que aconteceu, eu seria escorraçada da galeria da pior forma possível. Fiquei indignada em levar aquela bronca como se eu tivesse pegado ranço de alguém a toa. Assim que sai da sala de Bárbara, fui sim tirar satisfação com Loren, ela foi dizer exatamente o que eu fiz num tom tão deprimente sobre a minha desfeita com o café. — Loren, eu não sou obrigada a te dar café, por que foi falar para ela? — Eu só disse o que aconteceu, ou melhor, o que já estava acontecendo até o momento onde você ri por ele não conhecer direito um projeto arquitetônico e suas particularidades. Ele podia te mandar te demitir se quisesse. Ele ainda te defendeu para ela, sabia. — Ah, por favor! Ele estava querendo me provocar. É isso que ele fez. — Antes você era mais gentil com ele, Elara. Agora, sinceramente... parece uma pessoa amarga. — As pessoas mudam, Loren. Eu só quero fazer o meu trabalho. Hoje era pra ser um dia bom, mas não... acabei levando bronca por tratar o noivo da minha chefe com frieza. Inacreditável. Não cheguei a pedir desculpas, até porque Liam já tinha ido embora. Saí do trabalho às quatro da tarde com a cabeça fervendo. Peguei o metrô e fui direto pra academia — o meu refúgio nos últimos tempos. Ainda não conhecia muita gente por lá, mas Bruno, Jaime e Luiza já tinham virado uma espécie de inspiração. Corpos definidos, disciplina, foco. Eu olhava pra eles e me lembrava do que queria pra mim: coxas firmes, barriga definida, autoestima em alta. Coloquei uma meta: até o fim do ano, eu vou estar diferente. Naquele espaço, eu conseguia respirar. A gente falava de tudo: celebridades, bobagens do dia a dia, nada muito profundo. E era isso que eu precisava — assuntos leves que me afastassem da bagunça emocional e profissional que minha vida se tornara. Pode ser triste, eu sei... mas era o que me mantinha em pé. — Vamos, Elara? Barzinho aqui na esquina, só pra comemorar a sexta — Bruno me chamou, sorrindo. — Cerveja? Tô um pouco cansada... — Só umas duas. A gente conversa, dá risada, relaxa. Vai ser bom! Por que não? Eu era jovem, solteira, e cansada de andar pisando em ovos. Na faculdade, ainda esbarrava nos amigos do Fernando. No trabalho, precisava manter a pose diante da Bárbara e do Liam. Mas ali, com aquele grupo novo, eu podia ser eu mesma. De verdade. Aceitei o convite. Me sentei ao lado da Luiza, e pela primeira vez em dias, me senti leve. Bebi uns três chopes — coisa rara pra mim — e me permiti esquecer dos problemas. Pelo menos por uma noite e foi assim até ser levada por Luiza e Jaime para casa. Abri a porta do meu apartamento já soltando a chave na mesinha da entrada. O som abafado dos meus tênis tocando o chão de carpete, o cheiro do suor seco misturado com lavanda do body splash que sempre passava depois da academia... Estava exausta, mas com aquela sensação boa de corpo entregue, mente focada. A bebida me deixou leve, quase etérea. Um relaxamento que me atravessava como um afago depois de dias pesados — e por mim, repetiria aquele estado toda noite. Entrei no chuveiro, deixando a água morna escorrer pelas costas, mas nem molhei os cabelos. Passei um óleo perfumado pelo corpo, como se tentando me reconectar à minha pele, mas tudo o que eu realmente precisava era de uma massagem. Daquelas profundas, com mãos firmes e silêncio. Foi então que, do nada, ela veio: a carência. Aquela presença invisível, quente e incômoda que me enroscava por dentro. E eu, que nem ao menos tinha me dado ao luxo de flertar com alguém no bar… Que erro. Talvez se eu tivesse olhado melhor ao redor, rido de um elogio, fingido interesse. Qualquer coisa para não acabar sozinha ali, naquele sábado estéril. Tentei me distrair — fiz uma receita nova de pão sem farinha, com Whey Protein e ovos. Ficou um lixo. Um pedaço seco e insosso de frustração. Estava faminta. Faminta de comida, de toque, de algo que me lembrasse que eu ainda existia. Sem pensar duas vezes, pedi uma pizza. Quatro queijos. Conforto imediato, sem culpa. Depois de tanto transport, esteira e aula de localizada, eu merecia. Quando o interfone tocou, fui quase correndo, com o cartão em punho e a boca salivando de antecipação. Já imaginava o gosto da pizza se derretendo na língua, o refrigerante zero descendo gelado pela garganta, quando ouvi: — Já está paga. Vamos conversar. Congelei! — Há quanto tempo você está aí? — Cheguei junto com o entregador. Eu disse o número do seu apartamento e eu paguei — ele respondeu, com aquele tom seguro de sempre. Olhou para a comanda e sorriu de canto. — Quatro queijos. Posso entrar? Sem esperar resposta, Liam atravessou o pequeno saguão do meu prédio como se fosse dono da situação. O lugar nem porteiro tinha — era um edifício velho, silencioso, onde as paredes sabiam guardar segredos. Ali estava ele. De blazer escuro, rosto inexpressivo, olhos atentos como se escaneassem cada centímetro da minha reação. Como se invadir meu espaço fosse tão natural quanto respirar. Ainda mais quando semanas atrás, ele me mandou cair fora do apartamento dele como quem fecha uma porta com um estrondo. — Aqui não é seguro. Você pode ser assaltado — disparei, num tom entre o sarcasmo e o nervosismo. — Tem certeza que vai querer entrar? Já é tarde... muito tarde. Mas ele já estava dentro. E eu? Eu ainda estava parada na porta, tentando entender o que doía mais: a fome ou o que Liam ainda despertava em mim.
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