Quando virei de costas para o Liam, algo me atingiu em cheio. Uma sensação forte, avassaladora, como se meu coração tivesse acelerado tanto que me deixasse tonta. Talvez fosse fome, ou o peso de tudo o que ele representava. Mas o que realmente me desestabilizou foi o som abafado dos seus passos atrás de mim no corredor — um silêncio ensurdecedor entre nós dois.
Abri a porta do meu apartamento com mãos trêmulas e deixei que ele entrasse. Liam caminhou até minha pequena mesa de jantar e colocou a pizza ali, naquele espaço apertado que m*l acomodava duas pessoas quando a mesa estava fechada. Sentei sem cerimônia e comecei a comer, tentando ignorar a tensão no ar.
— Se quiser, pega um pedaço — falei, de boca cheia, tentando soar casual.
Ele observava o ambiente em silêncio, como se analisasse cada detalhe da minha vida exposta ali: o sofá meio torto, os livros empilhados no canto, as tentativas frustradas de decorar com algum charme uma casa que só me servia para dormir, estudar e pensar demais antes de apagar.
— Senta então.
— Certo — respondeu, hesitante, acomodando-se no sofá como se aquele espaço não fosse digno do paletó caro que ele usava.
Por mais que eu tentasse, com tapetes bonitos ou velas aromáticas, ainda era o lar de uma jovem cansada, desorganizada, vivendo no improviso entre uma aula e outra, entre um estágio e um sonho m*l resolvido.
— Eu te devo desculpas. Fui um...
— Escroto — cortei sem piedade.
— Um homem cheio de compromissos e direto — tentou suavizar.
— Hoje era meu dia de destaque no trabalho. A Bárbara me elogiou. Demorei dois anos e meio pra ouvir aquilo, e você aparece, como se fosse meu dono, flertando comigo na sala dela! Eu não posso simplesmente jogar tudo pro alto, pedir demissão e achar outro emprego com os mesmos benefícios. Aquela noite foi um erro. Eu gostei, sim, mas não vai se repetir. — Disse calmamente. — Come, senão vai esfriar mais ainda.
Ele, finalmente, puxou uma cadeira e se sentou. Fui até a pia buscar um copo, só pra ter alguma desculpa pra me afastar e respirar melhor. Enquanto observava de relance, vi que ele pegou um pedaço da pizza, hesitante, como se fosse um teste.
— É uma pizza muito boa. Talvez faltaram uns dois queijos aqui. Mas São Paulo é difícil ter comida r**m — comentou, enquanto me via exagerar no ketchup e na maionese.
— Ah, não é de nenhum daqueles lugares de sofisticados que você e a Bárbara frequentam. É uma pizzaria aqui do Tatuapé. Pode pegar mais, se quiser.
— Pra mim está ótimo. Já estou satisfeito.
— Ótimo. Porque, olha, você já pediu desculpas, eu tô exausta, e até o Grand Azize — ainda mais de carro — é chão.
Ele me encarou com aqueles olhos quase mansos, e a voz saiu num tom que eu não esperava:
— Eu sei que não posso exigir nada de você. Mas quero que considere uma coisa: o Magno é só um cara mais velho, experiente... e que vai te usar do mesmo jeito que eu usei. A diferença é que eu posso te dar o que quiser. Um apartamento maior, novo, criados...
— Você tá ouvindo o que tá dizendo? — perguntei, já levantando para juntar os pratos e outras coisas da mesa. — Não existe nada entre mim e o Magno. E também não existe mais nada entre nós. E muito menos uma garota de programa na sua frente, Liam. Que apartamento? Criados? Em que mundo você acha que a gente vive?
Ele segurou minha mão — ainda suja com o óleo da pizza — com uma delicadeza que me desarmou. Seus dedos envolveram os meus com firmeza, e o toque do seu rosto tão próximo, tão quente, me fez perder por um segundo o equilíbrio emocional que eu tanto lutei pra manter.
— Eu não vou deixar isso acontecer de novo. Não — disse.
Liam se levanta devagar, me encarando com uma intensidade que me fez querer correr e, ao mesmo tempo, ficar.
— Eu quero você! Eu sei que você teve relacionamentos péssimos. Homens que só te usaram ou apagaram sua luz, mas...
— E com você seria diferente? — rebati, com a voz trêmula de raiva e tristeza. — Você é comprometido, Liam. Está noivo da minha chefe. A Bárbara pode ser uma das pessoas mais arrogantes que conheci, mas ela não merece isso.
O silêncio caiu entre nós como uma sentença. Eu só queria que ele saísse. Mas parte de mim... queria que ele ficasse.