Descompensada

795 Words
Meus níveis de cortisol estavam nas alturas. Eu só conseguia pensar em destruir aquele cretino arrogante que se acha dono do mundo. Depois de quase me envolver numa briga de trânsito com um carro da empresa da família da Bárbara, consegui chegar à garagem da galeria completamente sem condições de sair dali. Respirei fundo, sentindo meus olhos queimarem de raiva — de novo vítima de um canalha. Não que eu fosse tão inocente assim… Eu caí na dele porque quis. Estava imersa nesse estado de fúria quando vi Bárbara se aproximando do carro. Ótimo. Justo ela. Tudo que eu não queria era encará-la naquele momento. — Foi tão terrível assim? — ela perguntou, com aquela voz que fingia calma. Fiquei olhando fixamente pra frente, sem conseguir encará-la. — Tira o dia, vai. Me disseram que você já não estava bem de manhã, e eu ainda te dei uma missão problemática. — Eu realmente não estava. E ele ficou com os documentos. — Mesmo que você não acredite, eu vou colocá-lo no lugar dele. — Eu posso voltar pra casa? — Pode, mas não nesse carro. — Não é necessário, eu vou de metrô. — Certo. Obrigada! "Obrigada." Foi isso que a Bárbara disse. Um castigo, com certeza. Eu devia ter metido a mão na cara daquele sujeito asqueroso, mesmo que isso me custasse o emprego. O fato de não ter feito isso me deixava doente por dentro. Uma quentura amarga no estômago, uma agonia que latejava na alma. Fui tratada como lixo por alguém que eu amava antes… e agora, mais uma vez, estava diante de outro homem que transformou um flerte inocente em um pesadelo em questão de dias. E ainda por cima, eu teria que continuar lidando com ele. Saí do carro, segui até o escritório e peguei minhas coisas. Eu deveria ter, no mínimo, a decência de pedir demissão e desaparecer daquele ambiente. Loren me olhou em silêncio. Era como se ela já soubesse o que eu estava passando, como se já tivesse vivido aquilo também. Quem sabe… talvez até tenha dormido com Liam e também tenha sido descartada. Quando saí da galeria, deixei meus passos me guiarem pelas ruas do Morumbi no automático. Pensava nos meus pais, juntos há quase trinta anos, tão felizes… e eu, sempre sendo pisoteada por homens. Tentei ser como eles, acreditei em amor, insisti numa relação que quase me destruiu… e agora, m*l saí de uma, já estava me afundando em outra, ainda mais tóxica. Cheguei em casa por volta de uma da tarde, me sentei no chão da sala e chorei. Chorei copiosamente, com pena de mim mesma, da minha sorte, da minha ingenuidade, da culpa por ter deixado tudo chegar a esse ponto. Quem nunca sonhou em ser desejada por um homem como Liam Von Lancaster? Quem nunca imaginou ser vista por alguém como ele? Agora eu estava nesse dilema absurdo de destruir tudo por vingança. Queria expô-lo, sim, queria acabar com ele. Mas eu sabia que, no fim, a única a perder seria eu. Se não fosse a Bárbara, seria Mônica, Ana… ou qualquer outra do mundo dele. Um mundo c***l e seletivo. O telefone tocou. Era Verônica. Contei tudo. Tudo o que não tive coragem de contar ontem. Falei como ele me tratava antes, de como era galante, educação, era sério sempre, mas sempre arrumava uma brecha para ser gentil. Ela me ouviu, e o nome da "oportunista" sempre voltava à conversa. Verônica me aconselhou a procurar ajuda. "Você precisa ir ao hospital", ela disse. Assim que desligou, logo apareceu na minha porta. Fomos para uma emergência. Verônica, que agora trabalha na área da saúde, conseguiu com a médica três dias de afastamento — incluindo o de hoje. Tomei um diazepam na veia, relaxei, e pela primeira vez em dias, minha cabeça parou de girar. — Obrigada, amiga. Você deve estar me achando uma… — A gente erra, Elara. A sua sorte é que ele não é meu marido. Ela me fez rir, mesmo que fosse um riso curto. — Ele é um cara ácido. Tá aqui pra casar com uma Feffer com segundas intenções corporativas e de muitas terras no Mato Grosso. Você sabe, o Brasil virou um celeiro pro mundo, e os europeus descobriram isso. Casar virou só mais uma transação. Nada mudou tanto assim desde que o mundo é mundo. — Mais um fato irresponsável pra minha lista… — Vai dormir. Amanhã é outro dia e você pensa. Ela paga bem pra ter pessoas dispostas a tudo. — Mas não pra dormir com o noivo dela. Mais uma vez, chorei. Não com o mesmo desespero, mas ainda com dor. Verônica me abraçou. Eu estava arrasada. Carregava o peso da culpa, o peso do que fiz, o peso das consequências.
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