Um dia para cair na real

1941 Words
Eu tive que voltar a trabalhar, mesmo sabendo exatamente quem encontraria por lá: a noiva do homem que me proporcionou a melhor noite de amor da minha vida. Tá, eu sei que tenho só vinte e um anos e minha vida s****l não é lá essas coisas, mas, ainda assim, aquela noite foi surreal. E sim, eu estava sendo emocionada demais, admito. O fato é que eu dormi com o Liam. Aquele homem maravilhoso — rico, lindo, absurdamente elegante, inteligente — e ainda por cima, noivo da Bárbara. Ricaça, poderosa e vingativa. Ela perdoaria ele em dois minutos se soubesse. Mas comigo… comigo seria diferente. Eu era o ponto fraco da história, a parte descartável. Ela destruiria a minha carreira — que m*l tinha começado. Naquela manhã, respirei fundo em frente ao espelho. Me arrumei como de costume, coloquei meu melhor blazer, caprichei na maquiagem e saí cedo pra abrir a galeria. Era minha função essa semana. E claro, nem bem saí, já recebi ligação da Loren, a cobra disfarçada de amiga, dizendo que estava a caminho. "Já estou no metrô. Estou chegando", respondi por mensagem. Enfrentar aquele furacão de sentimentos e ansiedade não era fácil, mas fui com a cara e a coragem, até porque meu salário era bom demais pra arriscar perder. Cheguei, fiz minha rotina: cumprimentei os seguranças, os vendedores, os vizinhos da galeria. Sorri, conversei com a Andréia, assistente da Loren, e com a Suellen — a vendedora mais legal da Riviera. Me empenhei em disfarçar, e deu certo… até Bárbara chegar. Bastou ela aparecer e mandar me chamar na sala de projetos que meu coração começou a bater no pescoço. Eu estava desfalecida, mas consegui me levantar da cadeira. Claro que Loren percebeu. — Você tá bem, Elara? Fez alguma coisa pra ser chamada por Bárbara logo cedo? — Cala a boca, Loren… — falei, ajeitando o salto nos pés antes de seguir. Cheguei na sala dela séria, sentindo um aperto no peito. — Pois não, Bárbara? — Fecha a porta, por favor. Quero conversar com você. Aquilo me gelou. Sério. Meu coração foi parar na garganta. Minhas mãos começaram a suar frio e meus joelhos quase falharam. Depois que fechei a porta, me virei esperando qualquer coisa. — Está acontecendo alguma coisa com você, Elara? — Não… só tive um final de semana cheio... Nem consegui terminar. Ela levantou a mão e me cortou no ato. Não queria saber da minha vida. Pediu que eu sentasse, e eu obedeci, mesmo tremendo por dentro. — Eu vou te confiar uma tarefa. Não foge da sua função aqui dentro, mas pedir isso pra Loren levantaria suspeitas demais. Você sabe que vou me casar em breve, tenho menos de seis meses até subir ao altar com o Liam. Isso, obviamente, gera inveja. Ciúmes. Principalmente das perdedoras — ela disse com veneno na voz. — E é sobre uma dessas que hoje peço sua ajuda. O nome da cobra é Mônica Calisle. Confirma pra mim se essa ridícula está hospedada no flat do meu noivo. Eu vou acabar com ela... — Mas… o que eu devo fazer? — Tem esses contratos aqui. Diz que meu pai pediu urgência, que ele precisa ler e assinar. Ele não vai assinar, estão incompletos. Mas isso vai cortar qualquer clima entre eles. Ela odeia o Brasil e só veio pra me tirar do sério. Não vou perder o Liam pra essa víbora. — Onde ele mora? — Disse sonsa. — No Grande Azize. Ele tem um flat lá. Você vai subir pelo elevador privativo, sem se anunciar. Se eu for até lá, ele vai saber quem contou sobre a Mônica. E, veja bem, quero muito que a pessoa que me ajudar nisso seja minha madrinha de casamento. Achou difícil? Difícil? Ela só podia estar brincando. Ir até o lugar onde eu saí na manhã de domingo, depois de uma noite insana com o homem dela, entrar no elevador privativo, olhar para o cenário onde fui chamada de “gatinha” e, em seguida, descartada com um beijo frio e um “cuide-se”, tudo isso fingindo ser apenas uma funcionária… Era o tipo de coisa que poderia me destruir por dentro. Nunca vi a Bárbara agir assim, nunca a ouvi mencionar rivais. E agora, ela me escolhe pra missão? Não escolheu a Loren, sua sombra, seu cão de guarda. Ou era uma pegadinha de mau gosto, ou ela sabia. Ela sabia. E tava me testando. — Tá bem… farei isso — respondi, engolindo seco. — Ótimo. Leva o carro da empresa do meu pai. Aqui está o cartão de acesso ao elevador e apartamento. A segurança vai pedir um código. É esse aqui. Me ajuda, Elara. Eu te recompenso. Me recompensar como? eu perguntava na minha cabeça até entrar no carro, já que a missão era para ser discreta e sai sem avisar direto para a garagem da galeria. O carro da empresa era confortável demais pra alguém que estava com as mãos suando no volante. Foi difícil me concentrar naquele carro dirigindo em São Paulo. Dirigir até o Grande Azize parecia uma eternidade, mesmo sendo perto. O trânsito fluía, mas minha cabeça não. As palavras da Bárbara ecoavam dentro de mim como se fossem um desafio: “Me ajuda, Elara. Eu te recompenso.” Recompensa? Que tipo de recompensa cura um coração partido, ou apaga a sensação de ter sido usada? Eu sabia que não devia ter me envolvido, mas o Liam… aquele homem tinha um magnetismo perigoso. E eu fui fraca. Me entreguei fácil. Agora estava ali, indo até o flat dele, com um envelope na bolsa, uma missão suja nas mãos e uma desordem emocional dentro de mim que nem sei descrever. O porteiro me reconheceu na entrada, claro e mais uma vez constrangida de ser o mesmo da noite de sábado. Acenei com um sorriso educado, sem deixar transparecer nada. — Boa tarde, senhorita. Vai subir? — Sim, direto pelo elevador privativo — mostrei o cartão. Ele não questionou. Apertou o botão e abriu o acesso. Meu coração já estava completamente fora de controle. Sozinha no elevador, olhei para o meu reflexo nas portas espelhadas. O batom intacto, o cabelo alinhado, mas por dentro... caos. Quase disse em voz alta: — Você é uma i****a, Elara. Quando o andar dele acendeu, minhas pernas travaram. Dei dois passos lentos, sentindo aquele cheiro familiar que me invadiu na primeira vez — um misto de perfume caro com café importado. Toquei a maçaneta. Estava destrancada, como ela disse que estaria. Entrei. O flat parecia vazio. Silencioso. Mas eu sabia que ele estava ali. Vi a camisa dele largada no encosto do sofá, o mesmo onde ele me beijou feito louco dias atrás. Distraída por um breve momento, senti uma movimentação e logo vi uma mulher, bem vestida me encarando e depois voltar ao celular até que: — Bom dia! Que papéis são esses, Elara? A voz dele veio firme, direta, sem espaço para amenidades. — A Bárbara pediu pra eu trazer… uma exigência do pai dela. Ele espera uma posição ainda hoje. Entreguei a pasta. Ele pegou das minhas mãos com um sorrisinho torto, quase irônico. Sentou-se no sofá, abriu os papéis sobre a mesa de centro. Nenhum gesto de gentileza, nenhuma oferta de café, nem sequer um convite pra sentar. O Liam que, dias atrás, me deixou sem chão, agora m*l me olhava como gente. Deu um gole lento na bebida quente que segurava, folheou algumas folhas e pegou o celular. Enquanto ele discava, olhei discretamente para a sacada. Lá estava ela. A tal mulher. Parecia triste, com os olhos inchados. Dava pra ver a tensão no ar. Mas, fora isso, nada a entregava. Podia ser uma conversa. Um acerto de contas. Ou outra coisa que eu preferia nem imaginar. A voz dele cortou o silêncio. — Desde quando você entende de documentos? Foi assim que Liam começou a falar com a Bárbara ao telefone. A frase veio seca, sarcástica. — O que você quer saber, hein? Mandar uma desavisada no meu apartamento, com seu cartão de acesso? Foi nesse momento que ele chamou alguém. — Roger! Um segurança apareceu no final do corredor. Liam se aproximou de mim, arrancou o cartão da minha mão sem pedir e entregou a Roger. — Cancela o acesso dela — disse, me encarando. O olhar dele era puro desprezo. Frio. Carregado de algo que eu não sabia se era raiva, culpa ou arrogância. — Pode ir. Foi assim. Duas palavras. Um chute disfarçado de ordem. Mas eu, na minha tolice infantil, tentei manter alguma dignidade. Ou pelo menos algum controle. — Mas… eu só posso sair com os papéis. Ele se levantou. E dessa vez, quando chegou perto, não era pra me tocar. Era pra me deixar no chão — com palavras. — Olha só — disse ele, baixo, mas duro. — Eu sei que a Bárbara quer saber quem é a mulher que tá lá fora, na minha sacada. E você, Elara… para de fingir que é amiguinha dela. Esses documentos nem deveriam estar nas mãos dela, muito menos nas suas. Pausou. E então veio o golpe final. — Eu te comi nesse sofá anteontem. E essa história morreu no momento em que te deixei na porta do seu prédio — aquele lugar onde quase fui assaltado. Sorte a sua que eu tenho segurança suficiente pra não deixar isso acontecer. Agora… eu não quero te ver aqui de novo. Tá entendendo? Ainda mais servindo de bode expiatório pra minha noiva. Cai fora! Fiquei ali por dois segundos que pareceram uma eternidade. Não consegui responder, o encarei como um cachorro maltratando sem forças de latir, de mais nada. Só senti aquele vazio me engolir de dentro pra fora. Virei as costas e fui. Sem dignidade, sem defesa e com a alma em pedaços. Eu saí daquele flat como se estivesse carregando toneladas nas costas. Não corri. Não chorei. Mas cada passo que eu dava parecia mais difícil que o anterior. O elevador demorou uma eternidade pra descer, como se estivesse me punindo por ter subido ali em primeiro lugar. Quando a porta se fechou atrás de mim, meus olhos marejaram, mas eu segurei. Eu jurei pra mim mesma que não choraria ali. Não por ele. Não naquele prédio de luxo onde fui usada e depois cuspida como algo inconveniente. Lá embaixo, Roger me entregou um bilhete com o protocolo de cancelamento do cartão. Me olhou com pena. E isso me doeu mais do que o desprezo do Liam. Entrei no carro da empresa e fiquei um tempo ali, no volante, com o motor desligado. Minhas mãos tremiam. Minha garganta doía. Tinha um nó que não descia, nem com água. Senti vontade de gritar, de bater no volante, de quebrar alguma coisa só pra ouvir um barulho mais alto do que a voz do Liam ecoando na minha cabeça: “Eu te comi nesse sofá anteontem. Essa história morreu ali.” Maldito. Cínico. Frio. Eu me deixei levar. Eu fui aquela menina estúpida que achou que podia ser diferente. Que talvez ele visse algo em mim além do corpo. Que talvez ele… sei lá, sentisse alguma coisa parecida. Mas não. Ele me deixou ali pra ser usada de novo — como ferramenta da Bárbara, como distração, como uma qualquer. Dirigi até a primeira rua deserta e encostei o carro. Aí sim, chorei. Chorei tudo o que tinha me engasgado. Chorei de raiva, de nojo, de vergonha de mim mesma. Peguei o celular. A primeira notificação era uma mensagem da Bárbara: “E então, querida? Ele reagiu? Aquela ordinária ainda está lá? Me ligue.”
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