Passei a manhã e o início da tarde largada na cama, preguiçosa, tentando não pensar em Liam — tentando mesmo. Mas como ignorar o fato de que, em breve, vou ter que encarar a Bárbara na galeria... e ele também? Até esse maldito casamento acontecer, vamos continuar circulando pelos mesmos ambientes, fingindo que nada aconteceu. Eu o queria, é verdade. Queria com todas as minhas forças. Mas não assim. Não desse jeito. Não sendo usada por uma noite e descartada na manhã seguinte como se eu não passasse de um capricho, e sim, eu era uma conquista barata de um herdeiro de família Europeia.
A verdade é que eu não sou desse mundo de famílias bilionárias, de heranças e alianças por interesse. Não mesmo. Nunca passei necessidade, claro, meus pais sempre me ajudaram — ainda ajudam — lá de São José do Rio Preto. Vim pra cá pra estudar, pra construir a minha vida, e agora estou no penúltimo ano da faculdade. Tanta coisa que eu conquistei com esforço: me curei, aos poucos, de uma relação abusiva; consegui meu próprio cantinho, aluguei meu apartamento; comecei a estagiar — dentro da minha área! — e depois fui efetivada. Um progresso que me orgulha. E aí, num deslize, quase coloco tudo a perder.
O que fiz com Liam pode parecer simples pra quem vê de fora, mas pra mim... podia arruinar tudo. Minha reputação, meu emprego... E se essa história vira escândalo? Se por puro capricho ele decide que não quer mais me ver nem de longe e pede minha cabeça pra Bárbara? Tudo é possível. Eu ganho bem. Sou exemplo pra minha família, pros meus amigos. Pra mim mesma. Uma sobrevivente, uma mulher que se reconstruiu tão jovem. E aí... eu entrego meu corpo por uma noite. Uma história que, quem sabe, eu conte um dia como anedota. Uma noite em que todas as promessas que eu tinha lido sobre Liam — todas aquelas imagens de perfeição que vi na internet — se tornaram, por um instante, reais. Liam era um homem visionário, a frente de uma companhia junto com o tio e seu pai, eles decidem futuros de muita gente ao redor do mundo.
— Oi, mãe. Como a senhora está?
— Se eu não ligo, você não liga, né?
— Mãe, ontem mesmo mandei mensagem pro papai e ele disse que estava tudo bem aí. Aconteceu alguma coisa?
— Nada demais. Só saudade da minha filha. Mas que voz é essa, Elara?
— Mãe, ontem foi um dia cheio... Dei uma festa, coordenei tudo, fui atrás de buffet, tive que dar uma de promoter. Saí tarde...
— Não parece isso... Você não está se encontrando com aquele cara, né?
— Lógico que não! Ele está no Canadá agora. Fazendo alguma vítima por lá. Eu só estou cansada, tá bem? Não se preocupa.
Fiquei quase uma hora no telefone com a dona Helena e com o meu pai. Depois que desliguei, encarei o fato de que, gostando ou não, a vida seguia acontecendo. E eu, faminta e com uma geladeira deprimente, resolvi tomar banho, me arrumar e mandar mensagem pra Verônica. Chamei ela pra um passeio no shopping. Eu precisava distrair a cabeça. Precisava esquecer — ainda que contra a minha vontade — tudo o que tinha acontecido. Me forçar a ser fria, a olhar para as pessoas como se nada estivesse fora do lugar, como se meu coração não estivesse bagunçado.
Era domingo. Meu domingo. E eu não ia me deixar abalar. Eu já sofri por homem antes, e jurei nunca mais passar por isso. Muito menos por alguém como Liam. Encontrei a Verônica no saguão do shopping. Ela já me esperava perto da entrada da livraria, com um milkshake na mão e aquele jeito leve que sempre me faz sentir menos pesada. Nos abraçamos como duas amigas que fingem que está tudo bem, mesmo quando uma delas está segurando o mundo nos ombros. Eu queria contar minha história de amor de uma noite, mas ela conhecia muito bem Bárbara, foi ela que me indicou para o estágio, seu pai trabalha para os Feffer desde moço e Vê acompanhava de longe a ascensão da pequena Bárbara onde chegou a estudar no mesmo colégio com ela, Vê era bolsista. Não era o momento e muito menos a pessoa certa.
— Nossa, você tá com uma cara de quem não dormiu — ela disse, dando um gole no milkshake e me lançando aquele olhar que atravessa.
— Dormir até que dormi... mas sabe quando parece que a cabeça não desliga?
Ela não respondeu. Só assentiu com um sorrisinho de quem entende. E ela entende. Verônica viu de perto quando eu saí da minha última relação com Fernando, as marcas que ele me deixava toda vez que era contrariado. Quando achei que não ia me reconstruir após mais uma surra, ela e seus pais que procuraram os meus para por um ponto final nessa história. Ela viu meus altos e baixos, segurou minha mão nos dias em que eu quis sumir. Se alguém conhece as minhas dores, é ela. E mesmo confiando nela cegamente, não podia pensar na ideia dessa história vazar, tipo, contar para Tadeu, seu marido, seus pais...
Andamos sem rumo pelo shopping, entramos em algumas lojas, provamos roupas que não tínhamos intenção de comprar, rimos de bobagens... Tudo era parte da estratégia silenciosa de me distrair.
— Você quer falar sobre ele? Eu conheço esse seu olhar apático — ela perguntou de repente, enquanto víamos bolsas numa vitrine.
Eu respirei fundo.
— Quero... mas ao mesmo tempo, não. Sabe? Falar sobre ele torna tudo mais real. A ideia é esquecer.
— Eu conheço? É aquele...
— Não, lógico que não! É uma pessoa sim, uma situação confusa e totalmente diferente do que já vivo.
— E a festa de Bárbara? Vi as fotos nas redes e ela estava esplêndida. Aquele vestido vermelho, aquele homem, que homem! Foi na festa de ontem, Bárbara implicou com alguma coisa?
— Ela foi a que menos me deu problema. Foi uma pessoa que conheci ontem e parece que já não era para ser. Esquece!
— Fingir que não aconteceu melhora alguma coisa?
— Não melhora, mas dói menos — respondi, encarando meu reflexo no vidro. — Eu me entreguei pra um cara que vai casar com a minha chefe. Acha que eu me orgulho disso? — Disse a mim mesmo em pensamento sem falar para Vê.
— Eu acho que você é humana. Que se envolveu num momento em que estava carente, vulnerável. E que ele, por mais lindo que seja, é um canalha e te usou sabendo que não podia te oferecer nada de verdade. — Eu falando por Vê nos meus devaneios e respondi em voz alta;
— Eu também usei ele, eu queria uma pessoa, mas foi só isso. Parecia tão verdadeiro, Vê. Por uma noite, parecia. Me olhou de um jeito que ninguém tinha olhado há tempos... Achei que me apego demais as pessoas.
— Vem cá sua maluca incorrigível.
Ela me puxou para fora da vitrine e me abraçou de lado.
— Você tem o direito de sentir tudo isso, Elara. Mas não deixa esse sentimento decidir por você. Ele já foi embora, mas você ainda está aqui. Você ainda tem tudo que construiu. Não esquece disso.
Aquelas palavras entraram em mim como uma oração. E mesmo que eu não acreditasse totalmente nelas naquele momento, me senti acolhida.
Terminamos a tarde sentadas num café, falando de planos, rindo de histórias antigas, relembrando por que somos amigas há tanto tempo. Por um instante, Liam não existia. Por um instante, eu voltei a ser só Elara — a menina que saiu do interior para construir um futuro, que se ergueu sozinha, que não precisava ser forte o tempo inteiro, mas que era.
E naquele domingo, entre um gole de capuccino e um sorriso da Verônica, percebi que, mesmo machucada, eu ainda tinha escolha: seguir em frente ou me deixar definhar por alguém que nunca terá coragem de me escolher de verdade.